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Testosterona Pode Afetar o Cérebro? Do Tratamento Hormonal à Psicose

  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

Uma injeção de testosterona pode afetar a mente? Um caso raro mostra como hormônios podem afetar o cérebro. Após cerca de um ano de reposição hormonal, um homem sem histórico de doença mental apresentou alucinações e delírios intensos. A melhora rápida após a suspensão do tratamento levou os médicos a suspeitar de uma reação relacionada à testosterona.


A testosterona é um hormônio importante para várias funções do organismo masculino, incluindo a manutenção dos músculos, dos ossos, da produção de espermatozoides e de características sexuais. Quando os níveis desse hormônio estão muito baixos, médicos podem indicar uma reposição. Embora esse tratamento seja considerado seguro quando utilizado corretamente, existem efeitos menos conhecidos que podem envolver o cérebro e o comportamento. 


Alterações importantes de humor, irritabilidade, agitação e, em situações raras, sintomas psicóticos já foram descritos. Um relato de caso chamou atenção para essa possibilidade ao descrever um homem de 45 anos que, depois de aproximadamente um ano recebendo injeções de testosterona, apresentou uma mudança radical de comportamento e começou a ouvir vozes que dizia vir de Deus e até de diferentes partes do próprio corpo.



O homem tinha uma história importante que só foi compreendida durante a investigação. Ele era casado havia muitos anos, mas nunca havia conseguido ter filhos. Cerca de 12 anos antes do episódio psiquiátrico, exames realizados por causa da infertilidade já haviam mostrado uma concentração muito baixa de testosterona. Na época, porém, o problema não foi tratado. 


Um ano antes da internação, ele passou a apresentar dores fortes e generalizadas e foi diagnosticado com osteoporose, uma doença em que os ossos ficam mais frágeis e mais sujeitos a fraturas. Como a testosterona baixa pode contribuir para a perda de massa óssea, ele começou a receber uma injeção de testosterona de 250 miligramas todos os meses, além de vitamina D. 


Mais tarde, os médicos descobriram uma explicação para vários desses problemas: ele tinha síndrome de Klinefelter, uma condição genética na qual o homem nasce com um cromossomo X a mais, geralmente apresentando uma combinação cromossômica chamada 47,XXY. Essa condição pode causar produção muito baixa de testosterona, infertilidade, testículos pequenos e maior risco de alguns problemas de saúde.


Depois de aproximadamente um ano de tratamento com testosterona, o homem começou a apresentar mudanças muito diferentes de seu comportamento habitual. Em apenas nove dias, passou a demonstrar uma religiosidade exagerada, tornou-se extremamente desconfiado dos vizinhos, apresentava comportamento desorganizado e dormia muito menos sem parecer sentir falta de sono. Também ficou irritado e agressivo verbalmente. 



O aspecto mais impressionante, porém, eram as vozes. Ele relatava ouvir vozes que pareciam falar diretamente com ele e acreditava ouvir a voz de Deus. Além disso, descrevia vozes que pareciam vir de partes específicas do seu próprio corpo. Essas experiências são chamadas de alucinações auditivas: a pessoa percebe uma voz ou um som como real, embora não exista uma fonte externa produzindo aquele som. 


Ele também desenvolveu crenças de que havia recebido uma espécie de bênção divina que lhe dava poderes especiais e passou a desconfiar de outras pessoas. Os vizinhos perceberam que seu comportamento havia mudado tanto que avisaram sua família, que procurou atendimento médico.


Os médicos precisaram investigar várias possibilidades. Uma psicose é uma condição na qual a pessoa pode perder parcialmente a capacidade de distinguir suas percepções e crenças da realidade. Ela pode envolver ouvir ou ver coisas que outras pessoas não percebem, desenvolver crenças falsas e muito rígidas e apresentar comportamento desorganizado.


No caso desse homem, entretanto, havia uma pista importante: ele nunca havia apresentado uma doença psiquiátrica antes, nem tinha histórico familiar de transtornos mentais. Além disso, os sintomas apareceram depois de um período prolongado de tratamento com testosterona. Os médicos também confirmaram novamente a síndrome de Klinefelter e encontraram sinais físicos compatíveis com ela, como estatura elevada, pouca quantidade de pelos corporais e testículos muito pequenos.  



Curiosamente, mesmo depois de ter recebido testosterona, sua concentração no sangue estava novamente muito baixa quando chegou ao hospital, provavelmente porque a última injeção havia sido aplicada cerca de um mês antes. Isso não significa que não tenha havido efeito da testosterona. As injeções podem produzir grandes variações na concentração do hormônio ao longo do tempo, com períodos de aumento e queda.


A testosterona não atua apenas nos músculos, ossos e órgãos reprodutivos. O cérebro também possui receptores capazes de responder a esse hormônio. Quando a testosterona chega ao cérebro, ela pode influenciar sistemas químicos envolvidos no humor, na motivação, no comportamento e na percepção da realidade. 


Um deles é o sistema da dopamina, uma substância química cerebral importante para motivação e recompensa, mas que também participa dos processos envolvidos na psicose quando sua atividade fica desregulada. A testosterona também pode influenciar outros sistemas responsáveis por equilibrar a atividade dos neurônios. 


Os pesquisadores acreditam que, em algumas pessoas vulneráveis, mudanças relativamente rápidas nos níveis de andrógenos podem contribuir para uma desregulação desses circuitos. No caso das injeções, existe ainda uma característica importante: diferentemente de algumas formas de reposição que mantêm níveis mais estáveis, uma aplicação intramuscular pode produzir um aumento significativo do hormônio seguido por uma queda ao longo das semanas. Essas oscilações podem ser relevantes em pessoas particularmente suscetíveis.



A equipe médica decidiu interromper temporariamente as injeções de testosterona e tratou os sintomas psiquiátricos com medicamentos antipsicóticos e outros medicamentos para controlar a agitação e estabilizar o comportamento. A mudança foi rápida. Em poucos dias, a irritabilidade, as ideias de grandeza e as alucinações começaram a desaparecer. 


Nos acompanhamentos realizados dez dias, um mês e dois meses depois, o homem permanecia estável: voltou a dormir normalmente e deixou de ouvir as vozes e de apresentar as crenças delirantes. Não houve nova crise durante esse período. Como a testosterona ainda era necessária para tratar a deficiência hormonal e a saúde dos ossos, os médicos posteriormente decidiram reintroduzi-la com muito mais cuidado, aumentando o intervalo entre as aplicações e mantendo acompanhamento psiquiátrico próximo. 


O paciente e seus familiares também foram orientados a reconhecer sinais de alerta, como mudanças bruscas de comportamento, redução da necessidade de sono, irritabilidade intensa ou retorno das vozes.


Os autores consideraram que a sequência dos acontecimentos aponta fortemente para uma psicose relacionada ao tratamento com testosterona, mas é importante não transformar um único caso em uma regra geral. O estudo não demonstra que a testosterona provoque psicose em todas as pessoas que fazem reposição hormonal. 



O homem também apresentava síndrome de Klinefelter, uma condição que pode estar associada a um risco maior de problemas psiquiátricos, o que pode ter contribuído para sua vulnerabilidade. Além disso, o estudo não permite saber exatamente qual mecanismo desencadeou os sintomas. 


O que torna o caso particularmente interessante é a combinação de fatores: não havia histórico anterior de doença mental, os sintomas apareceram depois do início da reposição, houve uma melhora importante após a suspensão e não ocorreu nova crise durante o acompanhamento.


A mensagem principal não é que homens que precisam de testosterona devam evitar o tratamento, mas que alterações importantes no comportamento ou na percepção da realidade durante uma terapia hormonal precisam ser levadas a sério. Para pessoas que apresentam fatores de risco, o acompanhamento conjunto entre endocrinologia e psiquiatria pode ser especialmente importante.



LEIA MAIS: 


Parenteral Testosterone–Induced Acute Psychosis in Klinefelter Syndrome

Abhijeet Anand and Shobit Garg

Prim Care Companion CNS Disord 2026;28 (4):26cr04203


Abstract: 


Anabolic-androgenic steroids, including testosterone, exert effects via androgen receptors and are prescribed for hypogonadism, osteoporosis, delayed puberty, and muscle-wasting conditions. While somatic adverse effects are well recognized, psychiatric complications such as mood disturbances, mania, and psychosis remain underappreciated, particularly with therapeutic dosing. These neuropsychiatric effects likely stem from dopaminergic modulation in limbic circuits and dysregulation of GABAergic and glutamatergic systems. We report a rare case of acute psychosis following long-term parenteral testosterone replacement in a patient with undiagnosed Klinefelter syndrome.

 
 
 

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