Quando o Cérebro Não Atualiza a Realidade: Nova Descoberta Explica Por Que Delírios Persistem Na Esquizofrenia
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O estudo investigou por que o cérebro tem dificuldade em atualizar crenças na esquizofrenia. Utilizando camundongos com uma mutação genética associada ao transtorno, os pesquisadores observaram déficits na tomada de decisão e identificaram uma atividade reduzida no tálamo mediodorsal. Experimentos que manipularam diretamente essa região confirmaram seu papel central no problema. Os resultados sugerem que a disfunção nessa área pode explicar a rigidez cognitiva e os delírios característicos da doença, apontando para novos caminhos de tratamento.
A esquizofrenia é um transtorno mental complexo que afeta a forma como a pessoa pensa, interpreta a realidade e toma decisões. Um dos seus sintomas mais marcantes são os delírios, crenças firmes que não correspondem à realidade e que persistem mesmo diante de evidências contrárias.
Cientistas há muito suspeitam que esses delírios estejam relacionados a uma dificuldade do cérebro em atualizar crenças com base em novas informações. No entanto, entender exatamente quais mecanismos cerebrais estão envolvidos nesse processo sempre foi um desafio.
O estudo apresentado busca responder essa questão, investigando como alterações específicas no cérebro podem levar a esse “travamento” cognitivo.

No nosso dia a dia, estamos constantemente ajustando nossas crenças com base em novas experiências. Por exemplo, se algo inesperado acontece, o cérebro reavalia previsões e muda estratégias. Esse processo envolve cálculos internos que avaliam probabilidades, recompensas e consequências.
Na esquizofrenia, acredita-se que esse sistema esteja prejudicado, fazendo com que o cérebro mantenha interpretações equivocadas mesmo quando elas não fazem mais sentido. Isso pode resultar em uma percepção distorcida da realidade.
Para investigar esse fenômeno, os pesquisadores utilizaram camundongos geneticamente modificados com uma mutação em um gene associado à esquizofrenia. Esse gene está relacionado à comunicação entre neurônios, especialmente em receptores importantes para a transmissão de sinais no cérebro. Alterações nesse tipo de receptor podem afetar diretamente a forma como as informações são processadas, aprendidas e atualizadas ao longo do tempo.

Os cientistas desenvolveram uma tarefa experimental que simula tomada de decisão baseada em expectativas. Os camundongos precisavam buscar alimento em diferentes locais, aprendendo ao longo do tempo quais opções eram mais vantajosas.
O mais interessante é que essa tarefa foi projetada para permitir uma análise detalhada do processo mental por trás das escolhas, utilizando modelos computacionais. Isso significa que os pesquisadores não observaram apenas o comportamento final, mas também inferiram como o “pensamento” dos animais evoluía durante a tarefa.
Durante os experimentos, os cientistas analisaram a atividade de uma região específica do cérebro chamada tálamo mediodorsal. Essa área atua como um centro de integração, conectando diferentes regiões envolvidas na cognição e na tomada de decisão.
Nos camundongos saudáveis, os neurônios dessa região representavam de forma clara os valores das escolhas disponíveis e os estados cognitivos, ou seja, ajudavam o animal a manter uma noção coerente do que estava acontecendo. Já nos camundongos com a mutação, essa atividade estava reduzida e desorganizada.

Para confirmar o papel dessa região, os pesquisadores utilizaram uma técnica chamada optogenética, que permite controlar a atividade de neurônios com luz. Quando eles “desligaram” temporariamente o tálamo mediodorsal em camundongos saudáveis, esses animais passaram a se comportar de forma semelhante aos que tinham a mutação genética, com decisões inconsistentes e dificuldade em atualizar estratégias.
Por outro lado, quando aumentaram a atividade dessa região nos camundongos alterados, houve melhora significativa no desempenho. Isso demonstrou uma relação direta entre essa área do cérebro e o problema observado.

Tecnica de Optogenetica
O estudo revelou que a dificuldade em atualizar crenças, característica central da esquizofrenia, pode estar ligada a um funcionamento inadequado do tálamo mediodorsal. Quando essa região não funciona corretamente, o cérebro passa a representar informações de forma “ruidosa” e instável, dificultando a tomada de decisões coerentes. Em outras palavras, o cérebro perde a capacidade de ajustar suas interpretações com base em novas evidências.
Essas descobertas ajudam a entender por que pessoas com esquizofrenia podem ficar “presas” em certas crenças. O problema não está apenas no conteúdo do pensamento, mas na forma como o cérebro processa e atualiza informações.
Ao identificar o tálamo mediodorsal como um ponto-chave nesse processo, o estudo abre caminho para novas abordagens terapêuticas, que podem focar em restaurar a atividade dessa região e melhorar a flexibilidade cognitiva.
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Reduced mediodorsal thalamus activity underlies aberrant belief dynamics in a genetic mouse model of schizophrenia
Tingting Zhou, Yi-Yun Ho, Nolan D. Hartley, Ray X. Lee, Amanda B. Fath, Kathleen He, Xun Yuan, Sam Merrow, Jonathan Scott, Navdeep Bajwa, Jonathan Wilde, Xian Gao, Cui Li, Evan Hong, Zhanyan Fu, Matthew R. Nassar, Ralf D. Wimmer, Tarjinder Singh, Michael M. Halassa, and Guoping Feng
Nature Neuroscience. 18 March 2026
DOI: 10.1038/s41593-026-02237-9
Abstract:
Belief updating is thought to be impaired in schizophrenia, leading to delusions. The neural substrates underlying belief updating are unknown, in part due to a lack of appropriate animal models and behavior readouts. We generated mice bearing a schizophrenia-associated point mutation in Grin2a (Grin2aY700X+/−) and developed a computationally trackable foraging task to assess belief-driven decision strategies in mice. Grin2aY700X+/− mice performed less optimally than their wild-type (WT) littermates, due to unstable cognitive states related to noisy representation of dynamic task values. We identified the mediodorsal (MD) thalamus as being hypofunctional in Grin2aY700X+/− mice and showed that MD neurons encode dynamic task values and cognitive states in WT mice. Optogenetic inhibition of MD neurons in WT mice phenocopied Grin2aY700X+/− mice and enhancing MD activity rescued task deficits in Grin2aY700X+/− mice. Together, our study identifies the MD thalamus as a key node for schizophrenia-relevant cognitive dysfunction and a potential target for future therapeutics.



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