Por Que Algumas Pessoas Sofrem Mais Efeitos Colaterais? A Resposta Pode Estar na Personalidade

Você já tomou um remédio e sentiu efeitos colaterais antes mesmo de saber se ele realmente faria efeito? Um novo estudo mostra que a resposta pode estar menos no medicamento e mais na forma como o cérebro cria expectativas. A descoberta revela como a personalidade influencia a saúde e por que algumas pessoas sofrem muito mais durante um tratamento do que outras.
Quando um médico prescreve um medicamento, espera-se que ele produza benefícios, mas algumas pessoas acabam relatando diversos efeitos colaterais, mesmo quando recebem um comprimido sem qualquer princípio ativo. Esse fenômeno, conhecido como efeito nocebo, acontece quando a expectativa de que algo fará mal acaba contribuindo para o aparecimento de sintomas reais.
Embora esse mecanismo seja conhecido há anos, uma pergunta permanecia sem resposta: por que algumas pessoas são muito mais suscetíveis a esse efeito do que outras? Um novo estudo indica que parte dessa explicação pode estar em um traço de personalidade chamado neuroticismo, caracterizado por uma tendência maior à ansiedade, preocupação, insegurança e sensibilidade emocional.
Pessoas com níveis elevados de neuroticismo costumam interpretar situações do dia a dia de forma mais negativa. Elas tendem a antecipar problemas, preocupar-se mais com o futuro e prestar maior atenção aos sinais do próprio corpo. Isso não significa que estejam imaginando sintomas ou "inventando doenças". Pelo contrário, as sensações físicas são reais. O que muda é a forma como o cérebro percebe, interpreta e atribui significado a essas informações vindas do organismo.
Os pesquisadores acreditam que essa maior vigilância pode fazer com que pequenos desconfortos, que normalmente passariam despercebidos, sejam percebidos como sintomas importantes.

Para investigar essa hipótese, os cientistas recrutaram 275 voluntários saudáveis. Antes do experimento, todos responderam questionários que avaliavam características de personalidade, especialmente o nível de neuroticismo, além de informarem quais efeitos colaterais acreditavam que poderiam sentir durante o estudo. Em seguida, os participantes foram divididos em grupos.
Alguns receberam um comprimido contendo um medicamento chamado sulpirida, enquanto outros receberam um placebo, um comprimido sem efeito farmacológico.
Além disso, parte dos voluntários recebeu informações enfatizando que poderia apresentar efeitos colaterais, enquanto outra parte recebeu orientações mais neutras. Durante todo o experimento, os pesquisadores registraram cuidadosamente qualquer sintoma relatado pelos participantes antes e depois da intervenção.
O aspecto mais interessante do estudo foi que os cientistas conseguiram separar os efeitos provocados pelo medicamento daqueles produzidos pelas expectativas dos participantes. Como a dose utilizada da sulpirida normalmente não causa sintomas perceptíveis após uma única administração, qualquer aumento importante nas queixas poderia ser atribuído principalmente à forma como cada pessoa interpretava a experiência.
Os resultados mostraram que indivíduos com maior neuroticismo já iniciavam o estudo esperando sentir mais efeitos colaterais e, posteriormente, eram justamente aqueles que mais relatavam sintomas físicos, independentemente de terem recebido o medicamento verdadeiro ou o placebo.

Para compreender melhor essa relação, os pesquisadores utilizaram modelos estatísticos capazes de identificar como uma variável influencia outra. As análises mostraram que a personalidade não aumentava diretamente os efeitos colaterais. Em vez disso, o neuroticismo levava as pessoas a criar expectativas mais negativas sobre o tratamento, e essas expectativas aumentavam a probabilidade de perceber e relatar sintomas físicos.
Em outras palavras, o cérebro parece preparar o organismo para esperar uma experiência desagradável. Esse estado de antecipação aumenta a atenção dada às sensações corporais, tornando pequenos desconfortos muito mais evidentes e intensos.
Do ponto de vista da neurociência, essa descoberta faz bastante sentido. Estudos mostram que regiões cerebrais envolvidas na antecipação, como o córtex pré-frontal, a ínsula, o córtex cingulado anterior e a amígdala, participam da construção das expectativas e da interpretação das sensações corporais.
Quando uma pessoa acredita que um tratamento poderá causar problemas, essas áreas podem aumentar a vigilância do cérebro sobre o próprio corpo, modificando a percepção da dor, do desconforto, das náuseas ou de outras sensações físicas. Esse processo não é consciente nem voluntário; trata-se de uma resposta biológica na qual expectativas influenciam diretamente o funcionamento dos circuitos cerebrais responsáveis pela percepção dos sintomas.

Os autores ressaltam que os resultados não significam que pessoas com maior neuroticismo devam ser vistas como "mais frágeis" ou que seus sintomas sejam imaginários. Pelo contrário, o estudo demonstra como fatores psicológicos e biológicos trabalham juntos para moldar a experiência de cada indivíduo durante um tratamento médico. A pesquisa também destaca a importância da comunicação entre médicos e pacientes.
Explicações claras, realistas e equilibradas sobre benefícios e riscos podem reduzir expectativas excessivamente negativas e, consequentemente, diminuir o efeito nocebo. No futuro, compreender o perfil psicológico de cada paciente poderá ajudar profissionais de saúde a oferecer orientações mais personalizadas, melhorando tanto a adesão aos tratamentos quanto a qualidade de vida.
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Trait Neuroticism and the Nocebo Effect: The Mediating Role of Side-Effect Expectations
Anton Fischer, Li-Ching Chuang, Nick Augustat, Pia von Blanckenburg, and Erik M. Mueller
Journal of Personality, 1-11, 14 February 2026
Abstract:
Neuroticism has not only been linked to heightened negative expectations and general somatic complaints but also to increased nocebo responses following medical treatments. Since side-effect expectations are considered a main driver of nocebo responses, we tested whether side-effect expectations mediate the neuroticism–nocebo relationship in a pharmacological study of healthy individuals. Participants (N = 275) provided self-reported neuroticism and pretreatment side-effect expectations before completing a 2 × 2 factorial design, receiving a placebo or the dopamine antagonist sulpiride (400 mg), which typically does not cause noticeable side effects after a single dose. Regardless of substance, participants received a substance vs. placebo expectation manipulation. We assessed self-reported somatic symptoms at baseline and during the intervention. Neuroticism correlated with baseline somatic symptoms and with preintervention side-effect expectations. Both neuroticism and side-effect expectations, but not the pharmacological treatment or the explicit expectation manipulation, were associated with nocebo responses, defined as the relative increase in somatic symptoms from before to after the intervention. Crucially, path analyses indicated preintervention expectations partially mediated the neuroticism-nocebo link. These results suggest that negative expectations associated with neuroticism contribute to nocebo responses, potentially creating a feedback loop whereby negative expectations heighten side effects, reinforcing negative expectations in future treatments.



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