O Estresse na Gravidez Pode Acelerar o Nascimento dos Primeiros Dentes
- Lidi Garcia
- 25 de nov. de 2025
- 5 min de leitura

Este estudo investigou se o estresse vivido pela mãe durante a gravidez pode influenciar o momento em que os dentes de leite surgem na criança. Os resultados mostram que níveis mais altos de hormônios relacionados ao estresse, como cortisol, estão ligados a uma erupção dentária mais precoce. Isso sugere que o estado emocional e hormonal materno durante a gestação pode ter efeito direto no desenvolvimento dental infantil.
A erupção dentária, que é o processo pelo qual os dentes aparecem na boca do bebê, representa uma fase importante para a saúde geral e oral da criança. Esse processo não ocorre da mesma forma para todas as crianças, pois existe uma grande variação natural.
Por exemplo, algumas crianças já possuem dois dentes aos doze meses, enquanto outras podem ter até onze no mesmo período. Essa diferença pode parecer apenas uma curiosidade, mas ela tem impacto real.
Quando os dentes aparecem muito cedo ou muito tarde, isso pode afetar o alinhamento correto da arcada dentária, favorecendo o surgimento de problemas como a má oclusão, que é quando os dentes não se encaixam bem ao fechar a boca. Além disso, alterações no tempo de erupção podem afetar a qualidade do esmalte dos dentes e aumentar o risco de cáries.
Há também pesquisas recentes sugerindo que dentes que surgem muito cedo podem indicar que a criança está passando por um processo de envelhecimento biológico mais acelerado do que o esperado.

Apesar da grande importância clínica desse processo, ainda não se conhece completamente como o organismo regula o momento exato da erupção dentária. Acredita-se, com base em evidências científicas, que tanto fatores genéticos quanto ambientais influenciam esse processo.
Os dentes de leite começam a se desenvolver ainda durante a gestação, quando o bebê está se formando dentro do útero. Isso significa que esse período é sensível e que tudo o que afeta a mãe pode também afetar o desenvolvimento dentário da criança.
Estudos anteriores já demonstraram que o tabagismo durante a gestação, uma alimentação inadequada e dificuldades socioeconômicas estão associadas a alterações no tempo normal de erupção dentária. Essas condições sociais mais difíceis geralmente estão associadas ao estresse prolongado, e o estresse materno durante a gravidez já foi relacionado a outros problemas dentários infantis, como defeitos no esmalte e maior frequência de cáries.
No entanto, até agora, os estudos que investigaram especificamente se o estresse pré-natal interfere no momento da erupção dentária ainda são muito limitados.

Por essa razão, este estudo foi desenvolvido com o objetivo de explorar essa possível relação. Do ponto de vista biológico, o estresse ativa um sistema do corpo chamado eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Quando esse sistema é acionado, aumenta a produção de cortisol, que é conhecido como o hormônio do estresse.
Além do cortisol, o estresse também pode alterar os níveis de outros hormônios importantes, como os hormônios sexuais e os hormônios da tireoide. Esses hormônios têm papel essencial no desenvolvimento dos ossos e na regulação da vitamina D e dos níveis de cálcio no organismo, que por sua vez estão diretamente envolvidos na formação e na erupção dos dentes.
Essas evidências biológicas ajudam a construir uma explicação plausível para a ideia de que o estresse materno durante a gestação pode afetar o desenvolvimento dentário infantil.
Para investigar essa hipótese, o estudo contou com a participação de 142 duplas de mães e seus filhos. Cada criança foi acompanhada até completar dois anos de idade, e os dentistas registraram quantos dentes haviam surgido em diferentes consultas ao longo desse período.
Para medir o estresse pré-natal, os pesquisadores analisaram diagnósticos médicos das mães relacionados a ansiedade e depressão, além de coletarem amostras de saliva no final da gestação para medir os níveis dos hormônios relacionados ao estresse, incluindo cortisol, estradiol, progesterona, testosterona e dois hormônios da tireoide: triiodotironina e tiroxina.
Depois disso, os resultados foram analisados usando métodos estatísticos apropriados para entender se havia relação entre o nível desses hormônios e a quantidade de dentes que surgiam em cada fase do desenvolvimento da criança.

Os resultados mostraram que, mesmo dentro desse grupo relativamente pequeno, houve grande variação na erupção dentária. Aos seis meses, somente cerca de quinze por cento das crianças tinham pelo menos um dente.
No entanto, aos vinte e quatro meses, um quarto delas já tinha todos os vinte dentes de leite. Foi possível observar que níveis mais elevados de diversos hormônios maternos durante a gravidez, especialmente cortisol, estradiol, progesterona, testosterona e triiodotironina, estavam associados a um número maior de dentes já erupcionados em várias fases.
O achado mais marcante foi o do cortisol: mães com níveis mais altos desse hormônio durante a gestação tinham filhos com uma diferença média de até quatro dentes a mais aos seis meses, quando comparados com os filhos de mães com níveis mais baixos.
Os resultados deste estudo sugerem que os níveis hormonais maternos durante a gestação podem contribuir para explicar por que algumas crianças têm dentes que surgem mais cedo ou mais tarde do que outras.
Isso reforça a importância de pensar no desenvolvimento dentário como parte de um processo biológico influenciado não apenas pela genética, mas também pelo ambiente emocional e fisiológico vivido pela mãe durante a gravidez.
LEIA MAIS:
Prenatal maternal salivary hormones and timing of tooth eruption in early childhood: A prospective birth cohort study
Meng Y, Yang R, Alomeir NGT, Rasmussen JM, Bidlack FB, and Xiao J.
Frontiers in Oral Health, 6, 1663817.
Abstract:
Although the mechanisms underlying tooth eruption are not fully understood, the prenatal maternal milieu, particularly stress exposures, appears to play an important role in dental development. Yet, limited research has investigated the influence of prenatal stress and stress-related hormones on tooth eruption.This study included 142 mother-child dyads from a birth cohort to examine associations between prenatal stress, stress-related hormones, and primary tooth eruption. The number of erupted teeth was assessed by dentists at child visits through 24 months of age. Maternal prenatal depression and anxiety diagnoses were extracted from medical records as a proxy for stress. Stress-related hormone concentrations, including cortisol, estradiol, progesterone, testosterone, triiodothyronine (T3), and thyroxine (T4), were measured from salivary samples collected in late pregnancy. Generalized linear models were used to assess associations between prenatal stress, stress-related hormones, and tooth eruption, adjusting for relevant covariates. Eruption timing varied within our cohort: 15.2% of children had at least one erupted tooth by 6 months, and 25% had all 20 primary teeth by 24 months. Correlations in tooth counts across visits ranged from 0.15 to 0.57. Several prenatal maternal hormones, including cortisol, estradiol, progesterone, testosterone, and T3, were significantly and positively associated with the number of erupted teeth at individual visits (p < 0.05). Particularly, higher prenatal cortisol levels were associated with more erupted teeth at 6 months, corresponding to an average difference of ∼4 teeth between the lowest and highest cortisol levels. Maternal salivary hormone levels in late pregnancy may contribute to variations in primary tooth eruption during the first two years of life.



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