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O Cérebro Que Se Renova: Superidosos Continuam Formando Novos Neurônios Todos os Dias

  • há 1 hora
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O estudo demonstra que o hipocampo humano adulto continua produzindo novos neurônios, inclusive em idade avançada. Essa capacidade diminui e sofre alterações importantes na doença de Alzheimer, com mudanças detectáveis já em estágios pré-clínicos. Por outro lado, indivíduos com memória excepcional na velhice apresentam um perfil molecular distinto que pode representar um mecanismo de proteção ou resiliência. A pesquisa também mapeou, de forma detalhada, os mecanismos genéticos que regulam esse processo no cérebro humano.


Durante muitos anos, cientistas acreditaram que o cérebro humano adulto não era capaz de produzir novos neurônios. Estudos em roedores, como camundongos e ratos, mostraram claramente que existe formação contínua de neurônios em uma região chamada hipocampo, fundamental para a memória e a aprendizagem. Nesses animais, sabe-se que esse processo diminui com o envelhecimento e também é afetado em modelos da doença de Alzheimer. 


No entanto, no cérebro humano, a existência dessa renovação celular foi motivo de intenso debate, principalmente por dificuldades técnicas para identificar com precisão células realmente novas e diferenciá-las de outros tipos celulares parecidos.


Uma das principais dificuldades estava nos métodos usados para identificar neurônios jovens. Pesquisadores utilizam “marcadores”, que são moléculas características de certos tipos de células. O problema é que alguns marcadores de neurônios imaturos também aparecem em outros tipos celulares, o que gerou dúvidas sobre os resultados anteriores. 



Além disso, o modo como o tecido cerebral é coletado e preservado após a morte pode afetar a qualidade das análises. Por isso, era necessário empregar técnicas mais precisas e múltiplas abordagens complementares para obter respostas mais confiáveis.


Neste estudo, os pesquisadores analisaram amostras do hipocampo humano obtidas após a morte de diferentes grupos de pessoas: adultos jovens com cognição preservada, idosos com desempenho esperado para a idade, indivíduos com alterações cerebrais iniciais relacionadas à doença de Alzheimer, pacientes com Alzheimer diagnosticado e um grupo especial chamado “SuperAgers”, idosos com desempenho de memória comparável ao de adultos muito mais jovens. O objetivo era comparar como a produção de novos neurônios se comportava em cada grupo.


Para isso, foram utilizadas técnicas modernas chamadas análises “multiômicas”, que permitem estudar diferentes camadas de informação biológica ao mesmo tempo. Uma delas foi o sequenciamento de RNA de núcleo único, que identifica quais genes estão ativos em cada célula individualmente, analisando o RNA, a molécula que indica quais instruções genéticas estão sendo usadas. 



A outra técnica foi o sequenciamento de cromatina acessível em núcleo único, que revela quais partes do DNA estão “abertas” e disponíveis para ativação. A cromatina é o conjunto de DNA e proteínas que forma os cromossomos, e sua organização influencia diretamente quais genes podem ser ligados ou desligados. Ao combinar essas duas abordagens, os cientistas puderam entender não apenas quais genes estavam ativos, mas também como sua regulação estava organizada.


Com essas ferramentas, os pesquisadores identificaram diferentes estágios do desenvolvimento de novos neurônios. Eles encontraram células-tronco neurais, que são células capazes de gerar novos neurônios; neuroblastos, que são células em estágio intermediário; neurônios imaturos; e neurônios maduros totalmente integrados aos circuitos cerebrais. 


Utilizando análises computacionais avançadas, foi possível reconstruir uma “trajetória de desenvolvimento”, isto é, uma sequência que mostra como uma célula-tronco gradualmente se transforma em um neurônio funcional. Esse fluxo direcional reforça a ideia de que a formação de novos neurônios realmente ocorre no hipocampo humano adulto.


Outro ponto central foi o estudo das chamadas redes regulatórias gênicas, que são conjuntos de genes e proteínas que controlam quando e como outros genes são ativados. Os pesquisadores identificaram mudanças progressivas nesses sistemas de controle ao longo do desenvolvimento das células neurais.


Em células-tronco, predominam fatores que mantêm a capacidade de multiplicação; já em neurônios imaturos, predominam fatores que promovem maturação e integração aos circuitos de memória. Isso demonstra que há um programa biológico organizado orientando a formação dessas novas células. 



Ao comparar os diferentes grupos, os cientistas observaram que indivíduos com Alzheimer apresentavam redução de neurônios imaturos e alterações importantes na organização da cromatina, sugerindo falhas na regulação da neurogênese. 


Curiosamente, pessoas na fase pré-clínica, antes dos sintomas evidentes, já mostravam alterações iniciais nesses mecanismos. Em contraste, os SuperAgers apresentaram um perfil distinto, com características que sugerem maior preservação ou eficiência do processo de formação de novos neurônios, o que pode estar relacionado à sua memória excepcional.


Esses achados indicam que o cérebro humano mantém, ao longo da vida, uma capacidade de gerar novos neurônios, embora esse processo seja influenciado pelo envelhecimento e por doenças neurodegenerativas. Além disso, diferenças na regulação genética e na organização do DNA podem explicar tanto a vulnerabilidade quanto a resiliência cognitiva observadas em diferentes indivíduos.



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Human hippocampal neurogenesis in adulthood, ageing and Alzheimer’s disease

Ahmed Disouky, Mark A. Sanborn, K. R. Sabitha, Mostafa M. Mostafa, Ivan Alejandro Ayala, David A. Bennett, Yisha Lu, Yi Zhou, C. Dirk Keene, Sandra Weintraub, Tamar Gefen, M.-Marsel Mesulam, Changiz Geula, Mark Maienschein-Cline, Jalees Rehman, and Orly Lazarov

Nature. 25 February 2026

DOI:10.1038/s441586-026-10169-4


Abstract:


The existence of human hippocampal neurogenesis has long been disputed1,2,3,4,5,6,7,8,9,10,11,12 and its relevance in cognition remains unknown. Recent studies have established the presence of proliferating progenitors and immature neurons and a reduction in the latter in Alzheimer’s disease (AD)11,13. However, their origin and the molecular networks that regulate neurogenesis and function are poorly understood. Here we studied human post-mortem hippocampi obtained from different cohorts: young adults with intact memory, aged adults with no cognitive impairments, aged adults with extraordinary memory capacity (SuperAgers)14,15, adults with preclinical intermediate pathology or adults with AD. Using multiomic single-cell sequencing (single-nucleus RNA sequencing and single-nuclei assay for transposase-accessible chromatin with sequencing), we analysed the profiles of 355,997 nuclei isolated from the hippocampus samples and identified neural stem cells, neuroblasts and immature granule neurons. Dysregulated neurogenesis was largely associated with changes in chromatin accessibility. Analyses of transcription factors and target gene signatures that distinguished each of the groups revealed early alterations in chromatin accessibility of neurogenic cells from individuals with preclinical AD, and such changes were even more evident in samples from individuals with AD. We identified a distinct profile of neurogenesis in SuperAgers that may reflect a ‘resilience signature’. Finally, alterations in the profile of astrocytes and CA1 neurons govern cognitive function in the ageing hippocampus. Together, our study points to a multiomic molecular signature of the hippocampus that distinguishes cognitive resilience and deterioration with ageing.

 
 
 

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