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O Cérebro Preso Em Um Círculo Vicioso: Trauma, AVC, Epilepsia e Demência Se Alimentam Mutuamente

10 de jul.
4 min de leitura

Um trauma na cabeça pode acelerar doenças como demência e AVC,  mas a surpresa é que essas doenças também podem aumentar o risco de sofrer o trauma. Um estudo com mais de 55 mil idosos revelou uma relação perigosa que funciona nos dois sentidos e pode mudar a forma como encaramos a prevenção na velhice.


O traumatismo cranioencefálico, popularmente conhecido como trauma na cabeça, é uma das principais causas de incapacidade e perda de qualidade de vida em idosos. Quedas, acidentes domésticos e outros eventos que provocam impactos na cabeça podem causar desde lesões leves até danos graves ao cérebro. 


Nos últimos anos, diversos estudos mostraram que pessoas que sofrem traumatismos cranianos têm maior risco de desenvolver doenças neurológicas como demência, acidente vascular cerebral, epilepsia e doença de Parkinson. No entanto, uma dúvida importante permanecia sem resposta: será que essas doenças também aumentam o risco de sofrer traumatismos cranianos? Um novo estudo sugere que a resposta é sim.



Para investigar essa questão, pesquisadores analisaram registros médicos de mais de 55 mil veteranos norte-americanos com 55 anos ou mais. Entre eles, cerca de 13.800 haviam sofrido um traumatismo craniano confirmado. Para garantir que os casos realmente correspondessem a uma lesão aguda na cabeça, os pesquisadores utilizaram uma combinação de informações médicas, incluindo diagnósticos registrados, atendimento em pronto-socorro e exames de imagem cerebral, como tomografias ou ressonâncias magnéticas. 


Em seguida, cada participante com traumatismo foi comparado a três pessoas semelhantes em idade, sexo, raça e período de acompanhamento, mas que não haviam sofrido esse tipo de lesão.


Os cientistas então voltaram no tempo e analisaram os prontuários médicos para verificar quantas pessoas já haviam sido diagnosticadas com acidente vascular cerebral, demência, epilepsia ou doença de Parkinson antes da ocorrência do traumatismo craniano.


Depois disso, acompanharam os pacientes por mais um ano para descobrir quantos desenvolveriam essas mesmas doenças após a lesão. Dessa forma, foi possível observar se o risco existia antes do trauma, depois dele ou em ambas as situações.



Os resultados revelaram algo surpreendente. Mesmo antes de sofrerem traumatismo craniano, os pacientes já apresentavam taxas muito mais elevadas dessas doenças neurológicas quando comparados ao grupo sem trauma. O risco de acidente vascular cerebral, demência e doença de Parkinson era aproximadamente três vezes maior, enquanto o risco de epilepsia era mais de quatro vezes superior. 


Isso sugere que essas condições podem tornar as pessoas mais vulneráveis a quedas, acidentes e outros eventos capazes de causar lesões na cabeça. Alterações no equilíbrio, na memória, na atenção, nos movimentos e até na percepção do ambiente podem aumentar significativamente esse risco.


Mas a história não termina aí. Após o traumatismo craniano, o cenário tornou-se ainda mais preocupante. Durante o ano seguinte à lesão, os pacientes apresentaram um aumento adicional no risco de desenvolver várias dessas doenças. Os casos de acidente vascular cerebral quase dobraram, assim como os de epilepsia. 


O número de novos diagnósticos de demência também aumentou significativamente. Apenas a doença de Parkinson não apresentou aumento relevante após o traumatismo. Esses achados sugerem que a lesão cerebral pode desencadear processos inflamatórios, danos neuronais e alterações na circulação sanguínea cerebral que favorecem o surgimento ou a progressão de doenças neurológicas.



Os autores concluem que existe uma relação bidirecional entre traumatismo craniano e doenças neurológicas comuns na velhice. Em outras palavras, condições como demência, epilepsia, acidente vascular cerebral e Parkinson podem aumentar o risco de sofrer uma lesão na cabeça, enquanto a própria lesão pode acelerar ou favorecer o desenvolvimento dessas doenças.


Embora o estudo tenha sido realizado em veteranos e os resultados precisem ser confirmados em outras populações, os dados reforçam a importância de estratégias de prevenção de quedas e acidentes em pessoas com doenças neurológicas. Proteger o cérebro pode ser uma das formas mais eficazes de interromper esse ciclo que parece alimentar a si mesmo.



LEIA MAIS:


Neurologic Diagnoses Before and After Traumatic Brain InjuryA Retrospective Cohort Study of Older Veterans

Carrie Peltz, Jennifer Albrecht, Amber L. Bahorik, Feng Xia, Raquel C. Gardner, and Kristine Yaffe 

Neurology. July 28, 2026 issue 107 (2) e218214


Abstract: 


Traumatic brain injury (TBI) during mid-to-late life is associated with increased risk of stroke, Parkinson disease (PD), epilepsy, and dementia. These conditions may also predispose to TBI. Thus, we investigated the incidence of dementia, stroke, epilepsy, and PD in older Veterans before and after acute TBI to determine whether there is a bidirectional association. In this retrospective cohort study, we identified Veterans aged ≥55 years who received care at US Veterans Health Affairs (VHA) facilities between October 1, 1999, and September 30, 2021, and who had acute TBI (concurrent International Classification of Diseases (ICD) code + emergency department visit + brain imaging) using VHA databases. We matched participants 3:1 to a non-TBI cohort based on age, sex, race/ethnicity, and visit date. Incident stroke, PD, epilepsy, and dementia were determined from ICD codes one year before and after TBI in the TBI cohort and over a two-year period in the non-TBI cohort. We excluded those with prevalent conditions at least 1 year before the study period. Incidence rate ratios (IRRs) and 95% CIs were calculated by comparing the pre-TBI period with the post-TBI period and with the non-TBI cohort. We included 13,801 Veterans with acute TBI and a balanced cohort of 41,403 Veterans without TBI (average age 77.8 years, 96.5% male). Veterans with TBI had higher incidence rates of the 4 conditions before TBI compared with the non-TBI cohort: incidence of stroke (IRR = 3.2 [95% CI 2.9–3.5]), dementia (IRR = 3.1, [95% CI 2.9–3.4]), and PD (IRR = 3.0 [95% CI 2.4–3.7]) was 3 times higher, and that of epilepsy was over 4 times higher (IRR = 4.4 [95% CI 3.6–5.4]). Results were slightly attenuated but remained significant after adjusting for comorbidities and health care utilization. Veterans with TBI also had higher incidence rates 1 year after TBI compared with the pre-TBI period. Incident stroke (IRR = 1.83 [95% CI 1.65–2.04]) and epilepsy (IRR = 2.29 [95% CI 1.88–2.78]) rates were twofold higher; dementia incidence was also higher (IRR = 1.24 [95% CI 1.12–1.38]), but PD rates did not differ (IRR = 1.06 [95% CI 0.82–1.36]). We found a bidirectional association between TBI and several neurologic conditions, with higher incidence rates preceding TBI and higher rates after TBI. Generalizability to non-Veteran populations is uncertain. Future studies may determine whether TBI prevention measures for adults with stroke, dementia, PD, and epilepsy are warranted.


 
 
 

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