O Cérebro Perde a Capacidade de Prever o Mundo? Nova Pista Sobre a Esquizofrenia

E se dificuldades de percepção, movimento e fala compartilhassem uma mesma pista cerebral? Um estudo publicado na Science Advances identificou alterações em um ritmo da atividade cerebral conhecido como banda beta em pessoas com esquizofrenia. Essas mudanças estavam associadas a diferentes manifestações do transtorno e podem ajudar os cientistas a investigar como o cérebro interpreta informações e ajusta suas respostas ao mundo.
A maneira como percebemos o mundo depende da capacidade do cérebro de interpretar informações, antecipar o que pode acontecer e ajustar nossas respostas ao ambiente. Na esquizofrenia, alterações na percepção, na organização da fala e nos movimentos podem afetar diferentes aspectos da vida cotidiana.
Um estudo publicado na revista Science Advances investigou se esses sintomas, aparentemente distintos, poderiam estar relacionados a uma alteração comum na atividade elétrica cerebral.
Para investigar essa possibilidade, os pesquisadores utilizaram a magnetoencefalografia, uma técnica que registra os campos magnéticos extremamente fracos produzidos pela atividade elétrica dos neurônios. Durante o exame, os participantes realizaram tarefas que envolviam perceber estímulos sensoriais e executar movimentos.
Os cientistas compararam os resultados de pessoas com esquizofrenia aos de indivíduos sem o transtorno, procurando identificar diferenças na maneira como o cérebro respondia às informações recebidas e às ações realizadas.

Equipamento usado para as imagens de MEG (magnetoencefalografia) de alta resolução, realizadas no McConnell Brain Imaging Centre, no Montreal Neurological Institute-Hospital (The Neuro). Crédito: Stephan Ballard
A atenção se voltou para a chamada banda beta, um padrão de atividade cerebral que oscila entre 15 e 30 ciclos por segundo. Esse ritmo está relacionado, entre outras funções, à preparação e ao controle dos movimentos e à maneira como o cérebro utiliza previsões para interpretar informações.
Em situações comuns, a atividade beta pode aumentar ou diminuir conforme a tarefa e as necessidades do organismo. No estudo, pessoas com esquizofrenia apresentaram mudanças menos acentuadas nesse sinal durante o processamento sensorial e a execução de movimentos, sugerindo menor flexibilidade na adaptação da atividade cerebral às diferentes situações.
Os pesquisadores também investigaram se essa alteração estava relacionada a outras manifestações do transtorno. Para isso, compararam os registros cerebrais com o desempenho em uma tarefa na qual os participantes precisavam avaliar se um som e uma imagem aconteciam ao mesmo tempo. Analisaram ainda características da fala espontânea e medidas da gravidade clínica.

Os resultados mostraram associações entre a modulação reduzida da banda beta, dificuldades em julgar a simultaneidade de estímulos audiovisuais, maior desorganização da fala e sintomas clínicos mais graves. Isso sugere que um mesmo padrão de atividade cerebral pode estar relacionado a diferentes aspectos da esquizofrenia, embora não prove que seja a causa desses sintomas.
A descoberta oferece uma pista sobre como o cérebro pode ter dificuldade para atualizar suas previsões e ajustar suas respostas ao que acontece ao redor. No entanto, a banda beta ainda não pode ser considerada um teste diagnóstico para a esquizofrenia. São necessárias novas pesquisas para confirmar esses resultados, compreender os mecanismos envolvidos e determinar se esse sinal poderá ajudar, no futuro, a avaliar sintomas ou acompanhar tratamentos.
O estudo reforça a ideia de que manifestações diferentes de um transtorno complexo podem compartilhar alguns mecanismos cerebrais.
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Neurophysiological dynamics related to perception, action, and language in schizophrenia
Hsi T. Wei, Dominic Boutet, Rukun Dou, Jessica Ahrens, Nadia Zeramdini, Alban Voppel, Fernando Gonzales-Aste, Fatme Abboud, Sylvain Baillet, and Lena Palaniyappan
Science Advances. VOL. 12, NO. 43. 21 October 2026.
DOI: 10.1126/sciadv.aeh5819
Abstract:
Schizophrenia disrupts both how people perceive the world and how they express and act on their thoughts, yet these symptoms are usually studied separately. Using magnetoencephalography during multisensory and motor tasks, we tested whether reduced event-related beta-band (15 to 30 hertz) modulation, a signal implicated in predictive control, provides a candidate neural marker across these domains. Compared to healthy individuals, patients showed diminished beta changes during sensory processing and movement completion, suggesting reduced flexibility in updating internal models. This neural pattern covaried with audiovisual simultaneity-judgment behavior, disorganized natural speech, and greater clinical severity. These findings suggest that distributed beta modulation may serve as a candidate cross-domain marker associated with perceptual, motor, and language disturbances in schizophrenia, motivating future studies that directly test predictive updating mechanisms.



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