Mais Biscoitos e Refrigerantes, Mais Ansiedade? Alimentos Ultraprocessados Podem Afetar o Comportamento Das Crianças
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Uma pesquisa com mais de 2 mil crianças revelou que aquelas que consumiam mais alimentos ultraprocessados aos 3 anos apresentavam mais sinais de ansiedade, agressividade e dificuldades de comportamento aos 5 anos. Os cientistas acreditam que pequenas mudanças na alimentação podem beneficiar não apenas o corpo, mas também o desenvolvimento do cérebro infantil.
Os alimentos ultraprocessados já foram associados ao aumento do risco de obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares. Agora, um novo estudo sugere que seus efeitos podem ir além da saúde física: eles também podem influenciar o comportamento e o desenvolvimento emocional das crianças ainda na fase pré-escolar.
A pesquisa indica que uma alimentação rica nesse tipo de produto pode estar relacionada a mais sintomas de ansiedade, agressividade, hiperatividade e dificuldades de comportamento aos cinco anos de idade.
Os pesquisadores explicam que os primeiros anos de vida representam um período extremamente importante para o desenvolvimento do cérebro. É nessa fase que as conexões neurais responsáveis pelo controle das emoções, da atenção, da aprendizagem e do comportamento estão sendo formadas.
Alterações nesse processo podem ter consequências duradouras, aumentando o risco de dificuldades emocionais e até de transtornos mentais mais tarde. Embora fatores genéticos e o ambiente familiar tenham um papel importante, a alimentação é um dos poucos fatores que podem ser modificados.

Os chamados alimentos ultraprocessados são produtos industriais formulados com diversos ingredientes refinados, aditivos, corantes, aromatizantes, emulsificantes e conservantes. Eles incluem refrigerantes, salgadinhos, biscoitos recheados, cereais açucarados, nuggets, salsichas, macarrão instantâneo, doces industrializados e muitos produtos prontos para consumo. Em geral, possuem grandes quantidades de açúcar, gordura saturada e sódio, mas oferecem pouca fibra, vitaminas e minerais importantes para o cérebro.
Para investigar essa relação, os cientistas analisaram dados de 2.077 crianças canadenses que participavam de um grande estudo de acompanhamento desde o nascimento. Quando tinham 3 anos de idade, os pais responderam a um questionário detalhado sobre tudo o que seus filhos costumavam comer, permitindo calcular qual porcentagem das calorias diárias vinha de alimentos ultraprocessados. Em média, esses produtos representavam 45,5% de toda a energia consumida, mostrando o quanto eles já fazem parte da alimentação infantil.

Dois anos depois, quando as crianças completaram 5 anos, os pesquisadores avaliaram seu comportamento utilizando um questionário amplamente empregado por psicólogos e pediatras. Esse instrumento mede diferentes aspectos do desenvolvimento emocional, incluindo sintomas chamados de internalizantes, como ansiedade, tristeza, medo e retraimento social, e sintomas externalizantes, como agressividade, impulsividade, irritabilidade, desobediência e hiperatividade.
Os cientistas também levaram em consideração muitos outros fatores que poderiam influenciar os resultados, como escolaridade dos pais, renda familiar, dieta materna durante a gravidez, amamentação, características do nascimento e outros aspectos da infância.
Após todos esses ajustes, a associação permaneceu clara. Quanto maior era o consumo de alimentos ultraprocessados aos 3 anos, maiores eram as dificuldades comportamentais observadas aos 5 anos.
Além disso, os pesquisadores realizaram uma simulação estatística para estimar o que aconteceria se parte das calorias provenientes desses alimentos fosse substituída por alimentos minimamente processados, como frutas, verduras, legumes, feijão, ovos, carnes, cereais integrais e preparações caseiras.
Os resultados sugeriram que essa troca estaria associada a menos sintomas emocionais e comportamentais, indicando que pequenas mudanças na alimentação podem trazer benefícios importantes para o desenvolvimento infantil.

É importante destacar que este foi um estudo observacional, o que significa que ele não prova que os alimentos ultraprocessados causam diretamente os problemas de comportamento. Ainda assim, trata-se de uma das maiores pesquisas já realizadas sobre o tema e seus resultados reforçam um conjunto crescente de evidências mostrando que a qualidade da alimentação pode influenciar não apenas o corpo, mas também o cérebro em desenvolvimento.
Para pais e profissionais de saúde, a mensagem é simples: incentivar uma alimentação baseada principalmente em alimentos naturais e minimamente processados desde os primeiros anos de vida pode contribuir para um desenvolvimento emocional e comportamental mais saudável.

Professora Kozeta Miliku responsive pela pesquisa. Credit: University of Toronto
LEIA MAIS:
Ultraprocessed Food Consumption and Behavioral Outcomes in Canadian Children
Meaghan E. Kavanagh, Zheng Hao Chen, Sukhpreet K. Tamana, Theo J. Moraes, Elinor Simons, Stuart E. Turvey, Padmaja Subbarao, Piushkumar J. Mandhane, and Kozeta Miliku
JAMA Network Open. 3 March 2026;9;(3):e260434.DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2026.0434
Abstract:
Ultraprocessed foods (UPF) contribute to nearly half of energy intake among preschool-aged children in Canada, yet their impact on behavioral and emotional functioning remains underexplored. To examine the associations between UPF intake at age 3 years and behavioral outcomes at age 5 years. This cohort study included children with dietary and behavioral data from September 2011 to April 2018 in the CHILD Cohort Study, a prospective Canadian pregnancy cohort. Data analysis was done between February to July 2025. UPF intake at age 3 years was assessed by a 112-item food frequency questionnaire and categorized using the NOVA system. Behavior was measured using the validated Child Behavior Checklist (CBCL; range 0-100; higher scores indicating more adverse symptoms). UPF intake measured as a continuous percentage of energy was examined using multivariable-adjusted linear regression models accounting for maternal diet, birth factors, infant feeding, and sociodemographic and early-childhood characteristics. A multivariable-adjusted substitution model estimated the association of statistically replacing 10% energy from UPF with minimally processed foods (MPF) among all children. Among 2077 participants, 1092 (52.6%) were male; 1376 children (66.2%) were White, 480 children (23.1%) were multiracial, and 221 children (10.7%) were identified as another ethnic group. At age 3 years, UPF contributed a mean (SD) of 45.5% (11.6%) of total energy intake. At age 5 years, the mean (SD) CBCL scores were 44.6 (9.1) for internalizing, 39.6 (9.4) for externalizing, and 41.2 (9.0) for total behavior. Each 10% increase in energy from UPF was associated with higher CBCL internalizing (β = 0.81 [95% CI, 0.43 to 1.19]), externalizing (β = 0.47 [95% CI, 0.08 to 0.87]), and total (β = 0.64 [95% CI, 0.27 to 1.01]) scores. Substitution of 10% energy from UPF with MPF was associated with lower internalizing (β = –0.91 [95% CI, –1.33 to –0.49]), externalizing (β = –0.49 [95% CI, –0.93 to –0.06]), and total (β = –0.70 [95% CI, –1.12 to –0.29]) scores. In this cohort study of preschoolers in Canada, higher UPF intake was associated with adverse behavioral and emotional symptoms by age 5 years. These findings suggest that replacing UPF with MPF during the preschool years may support healthier behavioral development, with potential benefits for long-term mental health. These findings also support ongoing policy actions that promote MPF and underscore the need for early-life dietary interventions.



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