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🎗️Infância, Personalidade e Ansiedade: O Que os Maus-Tratos na Infância Podem Deixar na Personalidade Adulta?

9 de set.
4 min de leitura

E se parte da ansiedade adulta começar muito antes de ela aparecer? Um estudo com adultos em psicoterapia encontrou uma forte associação entre maus-tratos emocionais na infância, dificuldades no funcionamento da personalidade e sintomas de ansiedade. Os resultados sugerem que, especialmente quando houve negligência emocional, compreender a maneira como a pessoa construiu sua relação consigo mesma pode ser fundamental para entender seu sofrimento na vida adulta.


Experiências difíceis durante a infância podem continuar influenciando a vida de uma pessoa muitos anos depois de terem acontecido. Abuso emocional, negligência e falta de cuidado podem estar relacionados, na vida adulta, a níveis mais altos de ansiedade. Mas existe uma pergunta importante nessa história: como uma experiência vivida na infância pode estar ligada a sintomas que aparecem décadas depois? 


Um novo estudo investigou essa relação e encontrou uma possível peça desse quebra-cabeça: a maneira como a pessoa passa a perceber a si mesma e a se relacionar com os outros.


Para investigar essa questão, os pesquisadores acompanharam 335 adultos que estavam começando uma psicoterapia individual. Os participantes responderam a questionários sobre experiências de maus-tratos durante a infância, sobre a forma como funcionavam emocionalmente e nos relacionamentos e também sobre seus sintomas de ansiedade.


Dos participantes, 64,2% disseram ter passado por pelo menos um tipo de maus-tratos durante a infância. Assim, os pesquisadores puderam investigar não apenas se essas experiências estavam relacionadas à ansiedade, mas também se existia algum mecanismo que ajudasse a explicar essa ligação.



Uma das partes mais importantes do estudo foi avaliar o chamado funcionamento da personalidade. Aqui, personalidade não significa simplesmente ser tímido, extrovertido, tranquilo ou impulsivo. Os pesquisadores estavam interessados em algo mais profundo: como a pessoa entende quem é, lida com as próprias emoções, estabelece objetivos e constrói relacionamentos. 


Eles analisaram duas grandes áreas. A primeira foi o funcionamento do self, ou seja, a capacidade de ter uma percepção relativamente estável de quem somos, compreender nossas emoções e reconhecer nossos próprios desejos e objetivos. A segunda foi o funcionamento interpessoal, relacionado à capacidade de compreender outras pessoas, criar vínculos e manter relacionamentos.


Depois, os pesquisadores fizeram uma análise estatística para tentar entender o que acontecia no caminho entre os maus-tratos e a ansiedade. Imagine, de forma simplificada, três pontos ligados por uma estrada: uma experiência de maus-tratos na infância, dificuldades no funcionamento da personalidade e, mais tarde, sintomas de ansiedade. 



A pergunta era se as dificuldades no funcionamento da personalidade poderiam representar parte desse caminho. Para verificar se os resultados eram consistentes, eles também utilizaram uma técnica estatística chamada bootstrap, que permite repetir muitas vezes a análise com diferentes combinações dos dados e observar se os resultados permanecem estáveis.


Quando os pesquisadores olharam separadamente para os diferentes tipos de maus-tratos, surgiu um resultado importante. O abuso emocional e a negligência emocional foram os únicos tipos que apresentaram uma relação significativa com os sintomas de ansiedade. No caso do abuso emocional, a relação com a ansiedade continuou existindo mesmo quando as dificuldades de personalidade foram levadas em consideração.


Já no caso da negligência emocional, a situação foi diferente: a relação observada com a ansiedade foi estatisticamente explicada pelas dificuldades no funcionamento da personalidade.


Em outras palavras, entre as pessoas estudadas, a falta de cuidado emocional na infância parece estar especialmente relacionada à ansiedade adulta por meio de dificuldades mais profundas na maneira como essas pessoas percebem a si mesmas e funcionam nos relacionamentos.


E havia ainda uma diferença importante entre essas duas áreas. As dificuldades relacionadas ao funcionamento do self tiveram um papel maior do que as dificuldades nos relacionamentos. Considerando os diferentes tipos de maus-tratos analisados, as dificuldades no funcionamento da personalidade explicaram cerca de 73% da associação observada entre maus-tratos na infância e sintomas de ansiedade. 



Mas é importante interpretar esse número com cuidado: isso não significa que 73% da ansiedade seja causada pelos maus-tratos, nem que a personalidade seja a única responsável. O estudo foi realizado em um único momento e utilizou questionários respondidos pelos próprios participantes, portanto não pode provar que uma experiência causou diretamente a outra.


O que o estudo sugere é que a história pode ser mais complexa do que simplesmente “maus-tratos na infância levam à ansiedade”. Experiências de negligência e abuso emocional podem estar relacionadas a dificuldades na construção da percepção de si mesmo, no reconhecimento das próprias emoções e na maneira de estabelecer vínculos, e essas dificuldades, por sua vez, podem estar associadas aos sintomas de ansiedade observados na vida adulta. 


Para os autores, isso reforça a importância de psicoterapias individualizadas e sensíveis ao trauma, que não olhem apenas para a ansiedade como um sintoma isolado, mas também para as dificuldades emocionais e relacionais que podem estar por trás dela. E, antes de tudo, os resultados reforçam a importância da prevenção dos maus-tratos durante a infância, uma vez que suas consequências podem ultrapassar, e muito, o momento em que acontecem.



LEIA MAIS: 


Childhood Maltreatment and Anxiety in Adulthood: Disentangling the Role of Personality Functioning

Vaccarezza S, Opazo S, Mundt AP, Cortázar A, and Errazuriz P 

Psychological Reports, 2026. 


Abstract: 


Childhood maltreatment (CM), particularly emotional neglect and abuse, has been associated with an increased risk of anxiety and less favorable psychotherapy outcomes in adulthood. Impairments in personality functioning are a significant mechanism mediating this relation. This naturalistic cross-sectional study examined the mediating role of personality functioning in the relation between CM and anxiety symptoms in a clinical adult sample. A total of 335 adult patients starting individual psychotherapy completed intake self-report questionnaires about CM experiences, personality functioning, and anxiety symptoms. We assessed the two dimensions of personality functioning described in Section III of the fifth edition of the Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5), specifically, self-functioning and interpersonal functioning. Bootstrapped mediation analyses were conducted to evaluate the mediating role of personality functioning in the association between each CM type and anxiety symptoms. 64.2% of the sample reported at least one type of CM. Personality functioning explained 73% of the total effect of CM on anxiety symptoms. Only emotional abuse and emotional neglect showed significant total effects. Emotional abuse retained a direct effect, while emotional neglect was fully mediated by personality functioning. Both personality functioning dimensions were significant mediators, yet self-functioning had a larger impact. Psychotherapeutic interventions targeting impairments in personality functioning are essential for treating anxiety symptoms in adults with CM. Findings emphasize the importance of trauma-informed, personalized interventions, and CM prevention strategies.

 
 
 

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