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🎗️Testosterona Pode Estar Ligado ao Risco de Suicídio na Adolescência

8 de set.
4 min de leitura

Atualizado: 9 de set.

Um hormônio da puberdade pode estar escondendo uma pista sobre o risco de suicídio? Um estudo com mais de 1.200 adolescentes com depressão encontrou uma associação entre níveis mais elevados de testosterona e ideação ou comportamento suicida em meninos, mas não em meninas. O resultado não prova que o hormônio cause o comportamento, mas abre uma possibilidade intrigante: durante uma fase em que o cérebro ainda está amadurecendo, alterações hormonais podem fazer parte de uma rede biológica muito mais complexa do que imaginamos.


A adolescência é uma fase de enormes transformações no cérebro e no corpo. Durante a puberdade, os níveis de hormônios sexuais, incluindo a testosterona, aumentam rapidamente e participam de mudanças físicas, emocionais e comportamentais. Ao mesmo tempo, a depressão está se tornando cada vez mais frequente entre adolescentes e pode aumentar o risco de pensamentos e comportamentos suicidas.


Diante disso, pesquisadores investigaram se os níveis de testosterona poderiam estar relacionados ao risco de suicídio entre adolescentes que já apresentavam depressão.


Para fazer isso, os pesquisadores analisaram os dados de 1.227 adolescentes entre 10 e 19 anos com transtorno depressivo maior, internados em um hospital psiquiátrico de Pequim entre 2013 e 2020. 


Na entrada no hospital, foram coletadas informações sobre idade, características clínicas e outros dados dos pacientes, além de uma amostra de sangue utilizada para medir a quantidade de testosterona circulante. Os adolescentes foram então comparados de acordo com a presença ou ausência de ideação ou comportamento suicida.



Para verificar se os resultados poderiam ser reproduzidos, os pesquisadores também analisaram posteriormente um segundo grupo de 579 adolescentes, atendidos entre 2022 e 2023.


O resultado mais importante apareceu entre os adolescentes do sexo masculino. Aqueles que apresentavam pensamentos ou comportamentos suicidas tinham níveis de testosterona significativamente mais altos do que aqueles sem esse tipo de manifestação. Mesmo depois que os pesquisadores levaram em consideração outros fatores que poderiam influenciar o resultado, a associação permaneceu. 


No segundo grupo de adolescentes, utilizado para validação, o mesmo padrão também foi observado. Em outras palavras, dentro dessa população específica, adolescentes do sexo masculino com depressão, níveis mais elevados de testosterona estavam associados a uma maior probabilidade de apresentar ideação ou comportamento suicida.


Mas existe um detalhe fundamental: isso não significa que a testosterona provoque pensamentos suicidas. O estudo encontrou uma associação, e não uma relação de causa e efeito. É possível que outros fatores estejam envolvidos nessa relação. 


Além disso, os pesquisadores mediram a testosterona em um determinado momento, durante a internação, e não acompanharam os adolescentes durante anos para observar se alterações hormonais precediam o aparecimento dos pensamentos suicidas. Portanto, ainda não sabemos se a testosterona participa diretamente desse processo, se é um marcador de alguma outra alteração biológica ou se existe uma combinação de fatores por trás da associação.



Uma possível explicação envolve a maneira como o cérebro adolescente ainda está amadurecendo. O córtex pré-frontal, localizado na parte anterior do cérebro, participa do planejamento, da avaliação das consequências, do controle dos impulsos e da regulação das emoções. Já estruturas do chamado sistema límbico estão fortemente envolvidas nas emoções e nas respostas a situações de ameaça e recompensa. 


Durante a adolescência, esses sistemas ainda estão passando por mudanças e precisam trabalhar em conjunto. Os pesquisadores discutem a possibilidade de que níveis elevados de testosterona possam influenciar esse equilíbrio, alterando a comunicação entre regiões responsáveis pelo controle e regiões mais ligadas às respostas emocionais. Entretanto, essa é uma hipótese biológica, e o estudo não demonstrou diretamente que essa alteração cerebral tenha acontecido nos participantes.



Outro resultado importante foi que essa associação não apareceu nas adolescentes do sexo feminino. Os níveis de testosterona não diferiram significativamente entre as meninas com e sem ideação ou comportamento suicida.


Isso é particularmente interessante porque homens e mulheres apresentam concentrações muito diferentes desse hormônio e também podem apresentar diferenças na maneira como os hormônios influenciam o cérebro durante o desenvolvimento. 


O resultado reforça a possibilidade de que fatores biológicos relacionados ao sexo possam modificar a relação entre hormônios, depressão e comportamento suicida. Ainda assim, os pesquisadores destacam que são necessários estudos maiores e realizados em diferentes populações para confirmar essa descoberta.


O mais importante, portanto, não é pensar na testosterona como um “hormônio do suicídio”, mas como um possível marcador biológico que merece ser investigado em adolescentes do sexo masculino que apresentam depressão e sinais de risco suicida.



LEIA MAIS: 


High testosterone levels associated with elevated suicidal risk in male adolescents with depression. 

Han Wang, Nan Lyu, Juan Huang, Bingbing Fu, Lili Shang, Fan Yang, Ling Zhang, and Qian Zhao

BMC Psychiatry 25, 643 (2025). 


Abstract: 


Adolescent suicide, as a public health issue, is becoming increasingly urgent, yet there remains a lack of effective objective biomarkers for identifying high-risk adolescents. While testosterone has been linked to suicide, no definitive conclusions have been reached. Studies in specific populations defined by significant changes in age or hormone levels and by gender have shown greater reproducibility. This study aims to investigate the association between testosterone levels and suicidal ideation or behavior in male and female adolescents with major depressive disorder (MDD). This retrospective, cross-sectional study included 1227 adolescents with MDD, aged 10–19 years, hospitalized at the Beijing Anding Hospital, Capital Medical University, from January 2013 to December 2020. Patients were categorized into two groups: those with suicidal ideation or behavior (MDS) and those without (MDNS). Demographic data, clinical characteristics, and serum testosterone levels at admission were extracted and compared. An additional 579 adolescents meeting the same inclusion criteria were included for validation, with data collected from January 2022 to December 2023. In male adolescents, testosterone levels were significantly higher in the MDS group compared to the MDNS group(Z = -4.340, P < 0.001). After adjusting for confounding factors, testosterone levels remained significantly associated with suicidal ideation or behavior (OR = 1.220, 95% CI: 1.098–1.356). This finding was confirmed in the validation data set (OR = 1.444, 95% CI: 1.139–1.832). No significant difference in testosterone levels was observed in females (Z = 1.643, P = 0.100). Elevated serum testosterone levels were independently associated with increased risk of suicidal ideation or behavior in male adolescents with MDD, but not in females. These findings highlight the necessity for sex-specific biomarkers, however, due to the intrinsic limitations of the current study, they necessitate further validation.

 
 
 

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