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Uns Riem e Outros Não: Como o Cérebro Interpreta Sarcasmo, Tom e Significados Ocultos

  • Foto do escritor: Lidi Garcia
    Lidi Garcia
  • 8 de jan.
  • 5 min de leitura

Entender uma conversa não é apenas entender palavras, mas perceber intenções, emoções e regras sociais. Este estudo mostrou que essa capacidade não é uma habilidade única, mas é formada por três componentes principais: entender normas sociais e ironias, captar emoções pelo tom de voz e usar o conhecimento do mundo para tirar conclusões. Essa descoberta ajuda a explicar dificuldades de comunicação em algumas pessoas e pode contribuir para melhorar a inteligência artificial.


A nossa linguagem humana vai muito além do significado literal das palavras. No dia a dia, as pessoas raramente dizem exatamente o que querem dizer de forma direta. Para compreender uma conversa real, é necessário interpretar intenções, ler o contexto social, perceber o tom de voz e usar o conhecimento prévio sobre o mundo. Quando alguém diz “Está frio aqui”, por exemplo, pode não estar apenas comentando a temperatura, mas pedindo implicitamente que uma janela seja fechada. 


Essa capacidade de entender o que está por trás das palavras é chamada de uso pragmático da linguagem. Ela envolve habilidades cognitivas complexas que permitem inferir significados não ditos explicitamente, compreender ironias, metáforas, piadas e intenções sociais. Apesar de ser essencial para a comunicação humana, ainda não está totalmente claro como essas habilidades estão organizadas no cérebro e na mente.


Durante muito tempo, pesquisadores debateram se a compreensão da linguagem não literal depende de uma única habilidade geral ou se ela é composta por várias capacidades distintas que trabalham juntas. Algumas pessoas, por exemplo, têm facilidade para entender ironias, mas dificuldade em perceber emoções pelo tom de voz. 



Outras conseguem interpretar pistas emocionais, mas se confundem com normas sociais implícitas. Essas observações sugerem que o uso pragmático da linguagem pode não ser uma habilidade única, mas sim um conjunto de competências diferentes. Para investigar essa questão de forma sistemática, os pesquisadores realizaram um estudo em larga escala com centenas de participantes, utilizando uma abordagem baseada no comportamento real das pessoas ao realizar tarefas de linguagem.


No estudo, um grande grupo de participantes realizou uma bateria extensa de tarefas que avaliavam diferentes aspectos da compreensão não literal da linguagem. Cada participante passou cerca de oito horas realizando atividades variadas, que incluíam interpretar frases indiretas, compreender ironias, perceber emoções transmitidas pela entonação da voz e tirar conclusões a partir de situações descritas verbalmente. 


Essas tarefas foram escolhidas para refletir situações reais de comunicação, semelhantes às que ocorrem no cotidiano. Em vez de analisar cada tarefa isoladamente, os pesquisadores observaram como o desempenho das pessoas se relacionava entre as diferentes tarefas, ou seja, se quem ia bem em um tipo de tarefa também tendia a ir bem em outro tipo.



Para analisar esses dados complexos, os pesquisadores utilizaram um método estatístico que busca reduzir a complexidade das informações. Esse tipo de método permite identificar padrões ocultos ao observar quais tarefas tendem a “andar juntas” em termos de desempenho. 


A ideia central é que, se várias tarefas exigem uma mesma habilidade mental, as pessoas que se saem bem em uma delas provavelmente também terão bom desempenho nas outras. Dessa forma, é possível inferir a existência de componentes cognitivos subjacentes, mesmo sem observá-los diretamente.


Após controlar a influência da inteligência geral, ou seja, garantindo que os resultados não fossem explicados simplesmente por pessoas mais inteligentes indo melhor em tudo, a análise revelou que as tarefas se organizavam consistentemente em três grandes grupos. Esses grupos representam três componentes principais do uso pragmático da linguagem. O primeiro componente está relacionado à compreensão de convenções sociais.


Ele envolve saber o que é apropriado dizer em diferentes contextos sociais, entender pedidos indiretos, captar implicações escondidas em uma conversa e reconhecer ironias. Por exemplo, compreender que alguém que diz “Que pontual você é” pode estar sendo irônico depende fortemente desse tipo de habilidade.



O segundo componente identificado está ligado à capacidade de extrair significado a partir da entonação da fala. A entonação inclui variações no tom de voz que indicam emoções, intenções ou contrastes de significado. Uma mesma frase pode expressar alegria, raiva, dúvida ou sarcasmo dependendo de como é dita. 


Esse componente permite que as pessoas entendam emoções e intenções mesmo quando as palavras, isoladamente, não deixam isso claro. Essa habilidade é particularmente importante na comunicação oral e pode funcionar de maneira relativamente independente das normas sociais ou do raciocínio lógico.


O terceiro componente está relacionado ao raciocínio causal baseado no conhecimento de mundo. Ele envolve a capacidade de usar informações gerais sobre como o mundo funciona para interpretar o que alguém quer dizer. Por exemplo, ao ouvir uma história incompleta, a pessoa consegue inferir causas e consequências plausíveis, mesmo que elas não tenham sido explicitamente mencionadas.


Esse tipo de inferência depende menos da linguagem em si e mais do conhecimento acumulado sobre situações cotidianas, relações de causa e efeito e expectativas sobre o comportamento humano.



Para garantir que esses resultados não fossem específicos de um único grupo de pessoas, os pesquisadores repetiram o estudo com uma nova amostra grande e independente. Os mesmos três componentes emergiram novamente, com padrões muito semelhantes, o que fortalece a conclusão de que essa estrutura reflete algo fundamental sobre a organização da comunicação humana. 


Além disso, os resultados se mostraram robustos a diferentes escolhas metodológicas, indicando que não são um artefato estatístico, mas sim uma característica consistente do funcionamento cognitivo.


Essas descobertas têm implicações importantes. Elas sugerem que o uso pragmático da linguagem é cognitivamente simples em termos de estrutura, pois pode ser descrito por poucos componentes principais, mas ao mesmo tempo é funcionalmente diverso. Cada componente pode estar associado a diferentes áreas do cérebro, pode se desenvolver em ritmos distintos ao longo da infância e adolescência e pode ser afetado de maneira diferente por condições neurológicas ou genéticas. 


Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas apresentam dificuldades específicas na comunicação, como ocorre em certos transtornos do desenvolvimento ou após lesões cerebrais, sem que outras habilidades linguísticas sejam necessariamente comprometidas.



Além disso, esses resultados são relevantes para o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. Máquinas podem ser boas em interpretar regras linguísticas ou padrões estatísticos, mas frequentemente falham em compreender intenções sociais, ironias ou emoções transmitidas pela voz.


O fato de o uso pragmático da linguagem ser composto por diferentes componentes sugere que sistemas artificiais precisam abordar cada um deles separadamente para alcançar uma comunicação mais próxima da humana.

Este estudo, portanto, oferece um mapa inicial das habilidades cognitivas que sustentam a comunicação humana no mundo real.


Ao identificar seus principais componentes, ele abre caminho para novas pesquisas comportamentais, estudos de neuroimagem e modelos computacionais que possam aprofundar a compreensão de como falamos, entendemos e inferimos significados além das palavras.



LEIA MAIS:


Three distinct components of pragmatic language use: Social conventions, intonation, and world knowledge-based causal reasoning

Sammy Floyd, Olessia Jouravlev, Moshe Poliak, Zachary Mineroff

Edward Gibson, and Evelina Fedorenko 

PNAS. December 9, 2025. 122 (50) e2424400122


Abstract:


Successful communication requires frequent inferences. Such inferences span a multitude of phenomena: from understanding metaphors, to detecting irony and getting jokes, to interpreting intonation patterns. Do all these inferences draw on a single underlying cognitive ability, or does our capacity for nonliteral language comprehension fractionate into dissociable components? Using an approach that has successfully uncovered structure in other domains of cognition, we examined covariation in behavioral performance on diverse nonliteral comprehension tasks across two large samples to search for shared and distinct components of pragmatic language use. In Experiment 1, n = 376 participants each completed an 8 h battery of 20 critical tasks. Controlling for general cognitive ability, an exploratory factor analysis revealed three clusters, which can be post hoc interpreted as corresponding to i) understanding social conventions (critical for phenomena such as indirect requests, conversational implicatures, and irony), ii) interpreting contrastive and emotional intonation patterns, and iii) making causal inferences based on world knowledge. This structure largely replicated in a new sample of n = 400 participants (Experiment 2, preregistered) and was robust to analytic choices. This research uncovers structure in the human communication toolkit and can inform our understanding of pragmatic difficulties in individuals with brain disorders. The hypotheses put forward here about the underlying cognitive abilities can now be evaluated in new behavioral studies, as well as using brain imaging and computational modeling, to continue deciphering the ontology of the component pieces of linguistic and nonverbal communication.

 
 
 

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