Reescrevendo Memórias: Imaginar Um Novo Final Pode Diminuir o Peso de Lembranças Dolorosas
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Memórias de críticas na infância podem contribuir para o medo do fracasso na vida adulta. Um estudo testou duas técnicas terapêuticas baseadas em imaginação: reviver repetidamente a memória difícil ou imaginá-la com um novo desfecho mais positivo. Em jovens adultos com alto medo de fracassar, ambas as técnicas reduziram emoções negativas e reações fisiológicas ao lembrar dessas experiências. Os resultados sugerem que atualizar o significado emocional das memórias pode ajudar a diminuir seu impacto psicológico ao longo do tempo.
Experiências difíceis na infância podem deixar marcas duradouras na forma como uma pessoa pensa e sente. Situações como críticas constantes, negligência ou reações muito duras de cuidadores podem influenciar a maneira como alguém lida com erros ao longo da vida. Com o tempo, essas experiências podem gerar medo do fracasso, a ideia de que cometer erros fará com que a pessoa seja rejeitada ou vista como menos valiosa.
Esse tipo de medo costuma estar ligado a memórias específicas da infância. Muitas vezes, essas lembranças envolvem momentos em que a criança foi criticada ou se sentiu humilhada. Mesmo anos depois, recordar esses episódios pode provocar emoções intensas, como vergonha, ansiedade ou tristeza. Por isso, alguns tratamentos psicológicos tentam trabalhar diretamente com essas memórias.

Uma forma de fazer isso é usando técnicas baseadas em imaginação. Nessas abordagens, a pessoa é convidada a lembrar de situações difíceis e imaginá-las novamente de forma guiada. Duas técnicas são comuns: a exposição por imaginação e a reescrita por imaginação.
Na exposição por imaginação, a pessoa relembra repetidamente a memória difícil, com apoio terapêutico. A ideia é que, ao revisitar a lembrança várias vezes de maneira segura, a reação emocional intensa diminua gradualmente. Com o tempo, o cérebro passa a reagir menos ao evento, tornando a memória menos perturbadora.
Já na reescrita por imaginação, o processo é diferente. Primeiro, a pessoa recorda a memória dolorosa da infância. Depois, ela imagina um desfecho mais positivo ou protetor para a situação. Por exemplo, pode imaginar alguém oferecendo apoio ou proteção naquele momento. Esse processo pode mudar o significado emocional da lembrança.
Os cientistas acreditam que isso pode acontecer porque as memórias não são totalmente fixas. Quando lembramos de um evento, ele entra temporariamente em um estado “maleável”. Durante esse período, novas informações podem modificar a memória antes que ela seja armazenada novamente no cérebro. Esse processo é chamado de reconsolidação da memória.

Outro mecanismo que pode explicar essas mudanças é algo chamado erro de previsão. Isso acontece quando o que a pessoa espera de uma situação é diferente do que realmente ocorre. Quando a memória é revisitada e um novo desfecho aparece, por exemplo, alguém oferecendo proteção em vez de crítica, o cérebro percebe essa diferença e pode atualizar a memória.
Para investigar como esses processos funcionam, pesquisadores realizaram um estudo com jovens adultos que apresentavam alto medo de fracasso. Os participantes foram divididos aleatoriamente em três grupos. Um grupo praticou a exposição por imaginação, outro realizou a reescrita por imaginação e um terceiro fez a reescrita com um intervalo de dez minutos entre recordar a memória e modificá-la, para tentar interferir no processo biológico de reconsolidação.
Durante duas semanas, os participantes participaram de quatro sessões focadas na mesma memória de crítica parental. Os pesquisadores avaliaram as mudanças usando questionários sobre emoções e medo do fracasso. Além disso, mediram sinais físicos do corpo ligados ao estresse, como substâncias presentes na saliva e alterações na condutância da pele.
Os cientistas também testaram se os efeitos das intervenções continuavam ao longo do tempo. Para isso, avaliaram os participantes novamente três e seis meses depois. Eles também verificaram se as reações emocionais voltavam quando as pessoas eram expostas a novos ambientes ou a lembranças semelhantes.

Os resultados mostraram que todas as técnicas ajudaram a reduzir emoções negativas e o medo do fracasso. As reações físicas ao lembrar das memórias também diminuíram. No entanto, a versão da técnica que incluía o atraso de dez minutos não foi mais eficaz que a versão tradicional.
Os pesquisadores também observaram que momentos de surpresa emocional durante a reescrita das memórias, quando as expectativas da pessoa eram quebradas, estavam associados a mudanças terapêuticas mais fortes. Isso sugere que atualizar o significado da memória pode ser um elemento importante no tratamento.
No geral, o estudo indica que trabalhar com memórias difíceis por meio da imaginação pode ajudar a reduzir o impacto emocional de experiências negativas da infância. Além disso, os resultados ajudam os cientistas a entender melhor como essas técnicas psicológicas funcionam no cérebro.
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Julia Bączek, Stanisław Karkosz, Magdalena Pietruch, Robert Szymański, and Jarosław M. Michałowski.
Frontiers in Psychology. 16 January 2026. Volume 16 - 2025
DOI:10.3389/fpsyg.2025.1710963
Abstract:
Fear of failure is often rooted in highly self-critical autobiographical memories that elicit persistent distress and avoidance. Imagery-based interventions aim to reduce the impact of such memories, yet their mechanisms of action remain unclear. In this three-arm parallel group randomised controlled trial, 180 young adults with elevated fear of failure were randomly assigned to imagery exposure, standard imagery rescripting, or imagery rescripting with a 10-min delay designed to disrupt memory reconsolidation. Across four sessions delivered over 2 weeks, outcomes were assessed using self-report measures and physiological markers, with follow-ups at 3 and 6 months. All interventions led to significant and sustained reductions in negative emotions, arousal, and fear of failure, as well as decreased physiological reactivity to autobiographical memories of criticism. Contrary to predictions, delayed rescripting did not show superiority, while planned contrasts suggested more consistent benefits of standard rescripting compared to delayed rescripting and a rebound effect after exposure. Notably, prediction error, operationalised as transient increases in physiological arousal during rescripting, predicted stronger therapeutic change in rescripting but not in exposure. These findings demonstrate that both common therapeutic factors and prediction error contribute to durable improvements in emotional responses to adverse memories, advancing the understanding of mechanisms underlying imagery-based techniques.



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