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🎗️Psicodélicos: A Ciência Por Trás Da Sensação de Que “Tudo Está Conectado”

7 de set.
3 min de leitura

Atualizado: 9 de set.

Os psicodélicos podem não simplesmente “aumentar a atividade do cérebro”. A hipótese é mais interessante: eles podem mudar a maneira como diferentes informações conversam entre si. Ao aumentar a influência de sinais recebidos pelos dendritos de determinados neurônios, essas substâncias poderiam fazer o cérebro conectar pensamentos, memórias, emoções e percepções de uma maneira muito mais intensa, criando a sensação de que tudo está relacionado a tudo.


Os psicodélicos podem produzir uma das experiências mais curiosas da consciência: pensamentos, memórias, emoções e percepções parecem se misturar, criando conexões que normalmente não percebemos.


Pessoas sob efeito de substâncias como psilocibina e LSD podem relatar que objetos parecem ganhar novos significados, que ideias distantes se conectam ou que a sensação de separação entre o “eu” e o mundo diminui. Mas o que acontece no cérebro para que tudo pareça tão profundamente relacionado? 


Uma nova revisão propõe que parte da resposta pode estar em uma região muito específica dos neurônios, localizada nas suas extensões chamadas dendritos.


Os pesquisadores se concentraram principalmente em uma substância chamada serotonina e em um de seus receptores, conhecido como receptor 5-HT2A. Esse receptor é particularmente abundante em determinadas células do córtex cerebral, especialmente nos chamados neurônios piramidais. 


Essas células possuem longas estruturas que recebem informações de outras regiões do cérebro. Uma delas, o dendrito apical, funciona como uma espécie de antena capaz de integrar diferentes sinais que chegam ao neurônio. A ideia central da revisão é que os psicodélicos poderiam aumentar a influência desses sinais, fazendo com que informações diferentes sejam combinadas de maneira mais intensa.



Para investigar essa possibilidade, os autores reuniram resultados de diferentes áreas da neurociência, conectando estudos realizados em células, circuitos cerebrais e comportamento. Um dos focos foi a comunicação entre o tálamo e o córtex. O tálamo funciona como uma importante estação de distribuição de informações para o cérebro, e os autores destacam evidências de que receptores 5-HT2A nessa região podem aumentar a liberação de glutamato sobre os dendritos. 


Ao mesmo tempo, os receptores 5-HT2A presentes nos próprios neurônios corticais podem aumentar sinais relacionados ao cálcio dentro dos dendritos e favorecer determinados padrões de disparo neuronal. Em conjunto, esses mecanismos poderiam fazer com que os neurônios recebam e combinem uma quantidade maior de informações ao mesmo tempo.


É aqui que aparece a ideia mais interessante do artigo: a “hipercontextualização apical”. Em termos simples, os autores propõem que, normalmente, o cérebro consegue manter relativamente separadas uma informação e aquilo que está ao redor dela. 

Com os psicodélicos, essa separação poderia ficar mais “solta”. O cérebro passaria a dar mais peso às relações entre diferentes representações internas, memórias, emoções, pensamentos e percepções, em vez de simplesmente registrar cada estímulo de maneira direta. 


Isso poderia ajudar a explicar por que uma música pode despertar uma lembrança muito distante, uma imagem pode adquirir um significado emocional inesperado ou uma ideia aparentemente sem relação pode subitamente parecer profundamente conectada a outra.



Essa proposta também oferece uma possível explicação para vários fenômenos característicos dos psicodélicos. As alterações visuais, o aumento das associações entre ideias, a sensação de que tudo está conectado e até mudanças na percepção do próprio “eu” poderiam surgir, pelo menos em parte, dessa amplificação das relações entre diferentes representações no cérebro. 


É importante, porém, não interpretar isso como uma explicação definitiva: o artigo apresenta uma hipótese integradora baseada em evidências existentes, que ainda precisa ser testada diretamente. Os autores terminam justamente propondo experimentos capazes de verificar se essa amplificação da atividade dos dendritos realmente é um mecanismo fundamental da experiência psicodélica.



LEIA MAIS: 


Cellular mechanisms of serotonergic psychedelics – apical hypercontextualisation

Karl Kristjan Kaup, Javier Hidalgo Jiménez, and Jaan Aru

Neuroscience & Biobehavioral Reviews. October 2026. 106876, Volume 189

DOI:10.1016/j.neubiorev.2026.106876


Abstract: 


Classical serotonergic psychedelics primarily exert their profound effects through agonism at the serotonin 2A (5-HT2A) receptor, which is abundantly expressed in many cortical regions, particularly in layer V pyramidal neurons of associative and visual areas. At the cellular level, these receptors are predominantly localized postsynaptically on the soma and apical dendrites. This review synthesizes evidence from distinct subfields of psychedelic cognitive neuroscience to illuminate how 5-HT2A agonism at apical dendrites of layer V pyramidal neurons disrupts the usual boundaries of conscious mental representations, boosting their interaction with surrounding contextual influences. We propose "apical hypercontextualisation" as a unifying hypothesis, whereby enhanced apical signaling amplifies relational processing over direct stimulus representation. Finally, we overview key psychedelic phenomenological features - such as perceptual distortions, associative cognition, and self-alterations - demonstrating how they emerge from contextual amplification, with implications for therapeutic mechanisms in mental health disorders.

 
 
 

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