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Ozempic e Similares Podem Reduzir em Até 75% o Risco de Dependência Química

  • 6 de ago.
  • 4 min de leitura

E se um medicamento criado para emagrecer também ajudasse a combater a dependência química? Um grande estudo descobriu que usuários de Ozempic e medicamentos semelhantes apresentaram uma redução impressionante no risco de desenvolver dependência de álcool, nicotina, opioides e outras drogas. Os resultados estão levando cientistas a investigar uma nova forma de tratar o vício atuando diretamente nos circuitos de recompensa do cérebro.


Os medicamentos da classe dos agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1, que incluem fármacos populares como a semaglutida e a liraglutida, ficaram conhecidos nos últimos anos por sua eficácia no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. No entanto, pesquisadores estão descobrindo que seus efeitos podem ir muito além da perda de peso e do controle da glicose.


Um novo estudo sugere que esses medicamentos podem estar associados a uma redução impressionante no risco de desenvolver diferentes formas de dependência química.


Os transtornos por uso de substâncias representam um dos maiores desafios da saúde pública mundial. Dependência de álcool, nicotina, opioides, cocaína e outras drogas afeta milhões de pessoas e está associada a sofrimento psicológico, doenças físicas, dificuldades familiares, perda de produtividade e aumento da mortalidade.


Embora existam tratamentos disponíveis, as taxas de recaída permanecem elevadas, e muitas pessoas continuam enfrentando dificuldades para manter a recuperação a longo prazo.



O interesse dos cientistas pelos medicamentos da classe do peptídeo semelhante ao glucagon surgiu quando estudos em animais começaram a mostrar algo inesperado. Além de atuar no controle do apetite, esses medicamentos também parecem influenciar regiões cerebrais ligadas à recompensa e à motivação.


Essas áreas incluem estruturas como a área tegmental ventral e o núcleo accumbens, componentes centrais do chamado sistema de recompensa cerebral, responsável pela sensação de prazer e pelo reforço de comportamentos.


Em condições normais, esse sistema ajuda a motivar atividades importantes para a sobrevivência, como alimentação e interação social. No entanto, drogas de abuso podem sequestrar esse circuito, provocando liberações intensas de dopamina, um neurotransmissor associado à recompensa. Com o tempo, o cérebro passa a buscar compulsivamente a substância, favorecendo o desenvolvimento da dependência.


Estudos experimentais sugerem que os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon podem reduzir essa hiperativação dopaminérgica, diminuindo a fissura e o comportamento compulsivo de busca por drogas.



Para investigar se esse efeito também poderia ser observado em seres humanos, os pesquisadores analisaram dados do programa de pesquisa All of Us, um dos maiores bancos de dados de saúde dos Estados Unidos. Em vez de realizar um ensaio clínico tradicional, os cientistas utilizaram um método chamado estudo retrospectivo caso-controle aninhado.


Em termos simples, eles analisaram registros médicos já existentes e compararam pessoas com diabetes tipo 2 ou obesidade que desenvolveram dependência química com pessoas semelhantes que não desenvolveram esses transtornos.


O estudo envolveu dezenas de milhares de participantes. Os pesquisadores identificaram indivíduos que receberam diagnósticos de transtorno por uso de álcool, opioides, nicotina ou cocaína e compararam seus históricos médicos com os de pessoas sem esses diagnósticos.


Em seguida, verificaram quantos participantes estavam utilizando medicamentos da classe dos agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon antes do aparecimento dos transtornos por uso de substâncias.



Os resultados chamaram a atenção. O uso desses medicamentos foi associado a uma redução de aproximadamente 74% na probabilidade de desenvolver transtorno por uso de álcool. Para dependência de opioides, a redução observada foi de cerca de 69%. Já para transtornos relacionados ao uso de nicotina, a diminuição foi de aproximadamente 68%. No caso da cocaína, a redução chegou a 75%.


Quando os pesquisadores analisaram o risco geral de qualquer transtorno por uso de substâncias, os usuários desses medicamentos apresentaram cerca de 75% menos probabilidade de desenvolver dependência em comparação com aqueles que não utilizavam a medicação.


Apesar dos resultados promissores, os autores ressaltam que o estudo não prova uma relação de causa e efeito. Como se trata de uma análise observacional, não é possível afirmar com certeza que  os medicamentos foram os responsáveis diretos pela redução do risco. Outros fatores podem ter influenciado os resultados.



Ainda assim, os achados fortalecem uma crescente linha de pesquisa que sugere que esses medicamentos podem atuar não apenas sobre o metabolismo, mas também sobre circuitos cerebrais envolvidos no controle dos impulsos, da recompensa e dos comportamentos compulsivos.


Se futuros ensaios clínicos confirmarem esses resultados, medicamentos originalmente desenvolvidos para tratar obesidade e diabetes poderão se tornar ferramentas importantes no combate à dependência química. Isso abriria uma nova abordagem terapêutica para um problema que continua afetando milhões de pessoas em todo o mundo.



LEIA MAIS:


Association between GLP-1 receptor agonist use and substance use disorders among individuals with type 2 diabetes or obesity: a nested case-control study in the All of Us research program

Tadesse M. Melaku Abegaz, Muktar Ahmed, Akshaya Srikanth S Bhagavathula, and Gabriel Frietze, 

Frontiers in Psychiatry. Volume 17 - 2026 DOI: 10.3389/fpsyt.2026.1766770


Abstract: 


Objectives: The current study evaluated the association between glucagon-like peptide-1 receptor agonists (GLP-1 RAs) and substance use disorders (SUD) in type 2 diabetes and obesity.Methods: We conducted a retrospective nested case-control study using the All of Us Research Program data. Cases were defined as diabetes/obese individuals with a new diagnosis of alcohol use disorder (AUD), opioid use disorder (OUD), nicotine use disorder (NUD), or cocaine use disorder (CUD). Control participants were drawn from individuals with diabetes or obesity who had no documented history of SUD. Conditional logistic regression was performed to estimate the association between SUD and GLP-1 RA exposure.Results: The study included a total of 22,652 participants in the AUD group, 13,226 in the OUD group, 42,320 in the NUD group, and 9,296 in the CUD group; each group comprised both cases and matched control participants. GLP-1 RA use was associated with a 74% reduction in the odds of AUD (odds ratio [OR] = 0.26; 95% confidence interval [CI]: 0.20–0.34), a 69% reduction in the odds of OUD (OR = 0.31; 95% CI: 0.23–0.42), a 68% reduction in the odds of NUD (OR = 0.32; 95% CI: 0.27–0.39), a 75% reduction in the odds of CUD (OR = 0.25; 95% CI: 0.16–0.40), and 75% lower odds of any SUD compared with non-users participants (OR = 0.25, 95% CI 0.22–0.30).Conclusions: GLP-1 RA use was consistently associated with lower odds of developing SUDs among individuals with type 2 diabetes or obesity. These findings suggest potential for GLP-1 RAs to help mitigate SUD in these populations.

 
 
 

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