Por Que Adolescentes Com Transtorno Borderline Veem a Si Mesmas De Outra Forma
- 11 de fev.
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Este estudo investigou como o cérebro de adolescentes com transtorno de personalidade borderline funciona durante tarefas de autorreflexão. Os resultados mostram que áreas ligadas ao controle cognitivo são menos ativadas quando essas jovens pensam sobre si mesmas, o que pode explicar a instabilidade da identidade no transtorno. Os achados reforçam a importância de compreender o TPB como uma condição do desenvolvimento cerebral e de identificar o transtorno precocemente.
O transtorno de personalidade borderline, também conhecido como TPB, é uma condição de saúde mental marcada por emoções muito intensas, impulsividade, dificuldade em manter relacionamentos estáveis e uma sensação confusa ou instável de quem a pessoa é. Embora por muito tempo tenha sido visto como um transtorno exclusivo da vida adulta, hoje sabemos que ele pode surgir e ser diagnosticado de forma confiável ainda na adolescência.
Esse reconhecimento precoce é importante porque o TPB parece estar ligado ao desenvolvimento do cérebro e às mudanças emocionais e psicológicas típicas dessa fase da vida.
Diversas pesquisas já mostraram que fatores biológicos têm um papel importante no transtorno de personalidade borderline. Estudos com genética e exames de imagem cerebral indicam que o cérebro de pessoas com o transtorno funciona de maneira diferente em algumas situações. Até agora, a maior parte dessas pesquisas se concentrou na forma como o cérebro reage a emoções negativas, como medo, raiva ou tristeza, já que a dificuldade em regular emoções é uma das marcas do transtorno.

Esses estudos mostraram que, diante de estímulos emocionais, pessoas com transtorno de personalidade borderline tendem a ter menor ativação em áreas do cérebro ligadas ao controle racional e à tomada de decisões, especialmente no córtex pré-frontal.
Ao mesmo tempo, regiões associadas às emoções intensas, como a amígdala, costumam ficar mais ativas. Esse desequilíbrio ajuda a explicar por que essas pessoas sentem emoções de forma tão intensa e têm dificuldade em controlá-las.
No entanto, outro aspecto central do transtorno de personalidade borderline recebeu bem menos atenção: a questão da identidade. Muitas pessoas com o transtorno relatam não saber exatamente quem são, mudar de objetivos com frequência ou sentir que seu “eu” é instável. Uma forma de estudar isso é observar o que acontece no cérebro quando alguém pensa sobre si mesmo, processo conhecido como autorreflexão.
Em pessoas sem o transtorno, pensar sobre si mesmas ou sobre outras pessoas ativa uma rede específica do cérebro, que inclui áreas do córtex frontal medial, do cíngulo posterior e de regiões ligadas à consciência e à percepção social. Curiosamente, pensar sobre si e pensar sobre os outros ativa regiões muito parecidas, embora não exatamente iguais.

Até recentemente, apenas um estudo havia investigado esse tipo de autorreflexão em pessoas com transtorno de personalidade borderline, e ele foi feito com adultos. Os resultados indicaram que pacientes com transtorno de personalidade borderline ativavam áreas diferentes do cérebro ao pensar sobre si mesmas, sugerindo que esse processo ocorre de forma alterada no transtorno.
No entanto, ainda faltavam dados sobre adolescentes, fase em que a identidade ainda está em formação.
Por isso, este estudo analisou adolescentes do sexo feminino com transtorno de personalidade borderline, todas sem uso de medicamentos e sem outros transtornos psiquiátricos associados. Durante exames de ressonância magnética funcional, elas responderam perguntas sobre si mesmas e sobre outras pessoas, além de tarefas neutras de controle. Isso permitiu comparar como o cérebro reagia em cada situação.

A figura mostra como uma região do cérebro ligada ao pensamento social e ao significado pessoal, o córtex pré-frontal medial ventral (vmPFC), reage quando adolescentes pensam sobre outras pessoas ou lidam com fatos neutros, comparando jovens com transtorno de personalidade borderline (TPB) e jovens sem o transtorno. As áreas em vermelho indicam a região analisada, e os gráficos mostram o quanto essa área ficou mais ou menos ativa em cada tarefa. Em ambos os grupos, o vmPFC ficou menos ativo durante as duas tarefas, o que é normal e indica que o cérebro está ajustando seu funcionamento ao tipo de informação processada. No entanto, durante a tarefa de fatos neutros, os adolescentes sem TPB apresentaram uma desativação maior dessa região do que aqueles com TPB, sugerindo que o grupo controle consegue “desligar” melhor áreas ligadas a pensamentos pessoais e sociais quando elas não são necessárias, enquanto os adolescentes com TPB tendem a manter essa região mais ativa mesmo em situações neutras.
Os resultados mostraram que, ao pensar sobre si mesmas, as adolescentes com transtorno de personalidade borderline apresentaram menor ativação em áreas importantes do cérebro relacionadas ao controle cognitivo, planejamento e organização do pensamento.
Isso sugere que elas têm mais dificuldade em organizar e regular pensamentos sobre a própria identidade. Já ao pensar sobre outras pessoas, as diferenças foram menores e pareceram estar ligadas a dificuldades em “desligar” certas áreas do cérebro durante tarefas neutras. Esses achados ajudam a entender melhor por que a identidade é tão frágil no transtorno de personalidade borderline e reforçam a importância do diagnóstico e da intervenção precoces.
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Brain functional abnormality in drug naïve adolescents with borderline personality disorder during self- and other-reflection
Pilar Salgado-Pineda, Marc Ferrer, Natàlia Calvo, Juan D. Duque-Yemail, Xavier Costa, Àlex Rué, Violeta Pérez-Rodriguez, Josep Antoni Ramos-Quiroga, Cristina Veciana-Verdaguer, Paola Fuentes-Claramonte, Raymond Salvador, Peter J. McKenna, and Edith Pomarol-Clotet
Translational Psychiatry, volume 15, Article number: 157 (2025)
Abstract:
A disturbed sense of identity is one of the major features of borderline personality disorder (BPD), which manifests early in the course of the disorder, and is potentially examinable using functional imaging during tasks involving self-reflection. Twenty-seven medication-naïve adolescent female patients with BPD, who had no psychiatric comorbidities, and 28 matched healthy female controls underwent fMRI while answering questions either about themselves or acquaintances. Control conditions consisted of answering questions involving factual knowledge and a low-level baseline (cross fixation). When self-reflection was compared to fact processing, BPD patients exhibited reduced activation in the right dorsolateral prefrontal cortex (DLPFC), as well as in the left parietal and calcarine cortex and the right precuneus. In contrast, other-reflection was associated with relatively lower activation in the medial frontal cortex in BPD patients, with further analysis revealing that this change reflected a failure of de-activation during the fact processing condition. There were no differences between the BPD patients and controls when self- and other-processing was examined against low-level baseline. This study provides evidence of reduced DLPFC activation during self-reflection in adolescent females with BPD, which may reflect diminished top-down cognitive control of this process, but not other-reflection in the disorder.



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