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Cannabis Pode Elevar Em 37% o Risco De AVC, Aponta Maior Pesquisa Já Realizada No Mundo

  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

O maior estudo já realizado sobre cannabis e acidente vascular cerebral analisou mais de 100 milhões de pessoas e encontrou um dado preocupante: o uso da droga foi associado a um aumento de 37% no risco de AVC. Os pesquisadores também utilizaram análises genéticas para investigar se essa relação pode ir além de uma simples coincidência.


O uso de cannabis vem aumentando em diversos países, impulsionado tanto pela legalização quanto pela percepção de que se trata de uma droga relativamente segura. No entanto, enquanto seus possíveis benefícios terapêuticos continuam sendo estudados para algumas doenças específicas, cresce também o número de pesquisas investigando seus possíveis efeitos negativos sobre a saúde cardiovascular e cerebral.


Um dos maiores motivos de preocupação é o acidente vascular cerebral, conhecido popularmente como AVC, uma das principais causas de incapacidade e morte no mundo.


Para entender melhor essa relação, pesquisadores realizaram um dos estudos mais abrangentes já publicados sobre o assunto. Primeiro, fizeram uma revisão sistemática da literatura científica, reunindo todos os estudos disponíveis que investigavam a associação entre drogas ilícitas e risco de AVC. 



Após aplicar critérios rigorosos de seleção, os cientistas incluíram 32 pesquisas realizadas em diferentes países, envolvendo mais de 100 milhões de participantes. Esses estudos continham informações provenientes de hospitais, bancos de dados nacionais de saúde e grandes pesquisas populacionais, permitindo uma análise muito mais robusta do que qualquer estudo isolado.


Mas os pesquisadores foram além. Eles utilizaram também uma técnica moderna chamada randomização mendeliana, considerada uma das melhores ferramentas para investigar possíveis relações de causa e efeito quando não é possível realizar experimentos em seres humanos.


Em vez de acompanhar apenas o comportamento das pessoas, essa técnica analisa pequenas diferenças genéticas herdadas ao nascimento que aumentam naturalmente a predisposição ao uso ou à dependência de determinadas substâncias. 


Como essas características genéticas são distribuídas aleatoriamente desde o nascimento, elas ajudam a reduzir a influência de fatores como renda, alimentação, tabagismo, acesso à saúde e outros hábitos que poderiam distorcer os resultados. Dessa forma, os cientistas conseguem avaliar com maior segurança se existe uma relação potencialmente causal entre o uso de uma substância e determinada doença.



Os resultados mostraram que pessoas que utilizavam cannabis apresentavam, em média, um risco cerca de 37% maior de sofrer um AVC em comparação com quem não utilizava a droga. O risco foi ainda mais elevado entre usuários de cocaína e anfetaminas, praticamente dobrando ou até mais que dobrando em alguns estudos. Já para os opioides, os pesquisadores não encontraram uma associação consistente. 


Quando analisaram os dados genéticos, observaram novamente sinais de que a predisposição ao transtorno por uso de cannabis estava relacionada a um aumento do risco de AVC, especialmente aqueles causados pelo bloqueio de grandes artérias que irrigam o cérebro.


Embora o estudo não tenha investigado exatamente por que isso acontece, pesquisas anteriores sugerem alguns mecanismos possíveis. A cannabis pode provocar alterações na pressão arterial, modificar o ritmo cardíaco, favorecer espasmos nos vasos sanguíneos e alterar a coagulação do sangue em algumas pessoas. 


Todos esses fatores podem aumentar a probabilidade de ocorrer um AVC, especialmente em indivíduos que já apresentam outros fatores de risco, como hipertensão, diabetes, colesterol elevado ou tabagismo. No caso da cocaína e das anfetaminas, esses efeitos costumam ser ainda mais intensos, o que ajuda a explicar o risco elevado observado.



Os autores ressaltam que os resultados não significam que qualquer pessoa que utilize cannabis sofrerá um AVC, mas indicam que o risco pode ser maior do que se imaginava anteriormente. Como o número de usuários continua crescendo em vários países, compreender esses efeitos torna-se uma questão importante de saúde pública. 


Os pesquisadores defendem que médicos e pacientes conversem abertamente sobre esses riscos, principalmente entre pessoas com histórico de doenças cardiovasculares ou outros fatores predisponentes. Além disso, novas pesquisas serão importantes para identificar quais grupos são mais vulneráveis e como reduzir esse risco de forma mais eficaz.



LEIA MAIS:


Does illicit drug use increase stroke risk? A systematic review, meta-analyses, and Mendelian randomization analysis

Megan Ritson, Hugh S Markus, and Eric L Harshfield

International Journal of Stroke. 09 March 2026. Volume 21, Issue 6DOI: 10.1177/17474930261418926


Abstract: 


Epidemiological evidence suggests associations between substance use disorders and risk of stroke, but whether these are due to confounding or are true causal relationships remains uncertain. To meta-analyze the observational evidence on illicit substance use and stroke risk and apply Mendelian randomization (MR) to evaluate potential causal effects of substance dependence on stroke subtypes. We conducted a systematic review and meta-analysis of studies reporting associations between illicit drug use and stroke (PROSPERO registration—CRD420251053702). The meta-analysis included 32 studies comprising more than 100 million total participants across administrative, hospital-based, and population-based datasets. Pooled odds ratios (ORs) were estimated using multivariate random-effects models for ischemic and hemorrhagic subtypes. We then performed two-sample MR using genome-wide association study summary statistics to examine associations between seven drug exposures and all stroke, ischemic and hemorrhagic stroke, and ischemic stroke subtypes. Meta-analysis demonstrated significant associations of cannabis (OR = 1.37, 95% confidence interval (95% CI) = 1.14–1.65), cocaine (OR = 1.96; 95% CI = 1.27–3.01), and amphetamines (OR = 2.22, 95% CI = 1.40–3.53) with increased stroke risk, while no significant association was observed for opioids. Findings for cannabis showed some heterogeneity and small-study effects. MR analyses revealed that cannabis use disorder was associated with any stroke (OR = 1.11 [1.01–1.51]) and large artery stroke (OR = 1.35, 95% CI = 1.01–1.80), and cocaine dependence was associated with cardioembolic stroke (OR = 1.08, 95% CI = 1.02–1.14) and intracerebral hemorrhage (OR = 1.38, 95% CI = 1.15–1.65). Genetically predicted substance use disorder overall was associated with any stroke (OR = 1.33, 95% CI = 1.02–1.72) and intracerebral hemorrhage (OR = 7.79, 95% CI = 3.46–17.54). Problematic and dependent alcohol use was linked to large artery and cardioembolic stroke, whereas nicotine dependence showed no significant associations. Our findings provide consistent observational and genetic evidence that several forms of substance misuse increase stroke risk, particularly cocaine, amphetamines, and cannabis. These findings suggest important public health implications for prevention strategies targeting substance use disorders to mitigate stroke risk.

 
 
 

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