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O Anestésico Que Pode Durar Semanas Em Vez De Horas

12 de out.
3 min de leitura

Uma nova tecnologia de liberação controlada conseguiu manter um anestésico atuando sobre um nervo por duas a três semanas em ratos. A estratégia usa minúsculas estruturas de gordura que armazenam o medicamento e dificultam sua liberação rápida, mantendo-o concentrado no local da aplicação. 


Um anestésico local que normalmente dura apenas algumas horas pode, no futuro, permanecer agindo por semanas. Cientistas desenvolveram pequenas estruturas de gordura capazes de carregar medicamentos e liberá-los lentamente no local onde foram aplicados. 


Em testes com ratos, uma dessas formulações manteve o bloqueio de um nervo por duas a três semanas, sem provocar sinais de toxicidade em outras partes do organismo. A descoberta pode abrir caminho para tratamentos que precisem manter um medicamento concentrado em uma região específica por muito mais tempo.


O desafio começa com o próprio comportamento de alguns medicamentos. Quando um fármaco é aplicado em determinado local do corpo, ele pode se espalhar rapidamente pelos tecidos e entrar na circulação sanguínea. Isso é especialmente problemático para  medicamentos que se misturam facilmente com água, chamados de hidrofílicos. 



Para tentar manter esses medicamentos no lugar, os pesquisadores utilizaram lipossomos, pequenas estruturas formadas por moléculas de gordura. Eles funcionam como minúsculas cápsulas: o medicamento fica armazenado em seu interior e, idealmente, vai sendo liberado aos poucos no tecido próximo à aplicação.


Para descobrir qual tipo de lipossomo funcionaria melhor, os cientistas produziram diferentes versões dessas cápsulas em condições exatamente iguais. A principal diferença estava nas moléculas de gordura utilizadas para formar suas membranas. Algumas tinham moléculas mais rígidas, enquanto outras possuíam pequenas alterações químicas chamadas insaturações, que deixam essas moléculas menos rígidas. A expectativa inicial era que uma membrana menos rígida deixasse o medicamento escapar mais rapidamente. Mas aconteceu o contrário.  


Os 4 tipos de lipossomos utilizados


Os lipossomos formados pela gordura chamada DOPC conseguiram armazenar cerca de três vezes mais medicamento, liberaram aproximadamente 11 vezes menos medicamento logo após a aplicação e, depois de sete dias, ainda liberavam o medicamento de forma muito mais lenta do que os lipossomos mais rígidos.


Os pesquisadores então investigaram por que isso acontecia. Ao analisar as estruturas formadas pelos lipossomos, observaram que eles não permaneciam apenas como pequenas cápsulas isoladas. Muitas delas se organizavam em estruturas maiores, contendo várias camadas ou várias pequenas bolsas de medicamento. Essa organização criava mais espaços capazes de armazenar o fármaco e, ao mesmo tempo, dificultava sua saída rápida. 


Os cientistas repetiram os experimentos utilizando diferentes medicamentos que se dissolvem em água e encontraram o mesmo comportamento. Isso sugeriu que o efeito não dependia de uma única substância, mas poderia ser uma característica da própria estrutura dos lipossomos.



Por fim, os pesquisadores testaram a estratégia em ratos. Eles colocaram nos lipossomos tetrodotoxina, uma substância capaz de impedir temporariamente a passagem dos sinais elétricos pelos nervos. Em vez de desaparecer rapidamente do local da aplicação, a substância encapsulada permaneceu atuando sobre o nervo por duas a três semanas, produzindo um bloqueio prolongado. Ao mesmo tempo, os pesquisadores não observaram sinais de toxicidade sistêmica, ou seja, efeitos tóxicos importantes causados pela chegada do medicamento a outras partes do organismo. 


Os resultados ainda são experimentais e foram obtidos em animais, mas mostram uma maneira relativamente simples de transformar medicamentos de ação curta em tratamentos capazes de permanecer concentrados em um local específico por muito mais tempo.



LEIA MAIS: 


Ultra-slow release of hydrophilic drugs via multilamellar–multivesicular liposomes formed by unsaturated phospholipids

Yuan Wang, Tianrui Xue, Matthew Torre, Yiyuan Han, Rachelle Shao, and Daniel S. Kohane

Nature Biomedical Engineering. 23 September 2026DOI: 10.1038/s41551-026-01793-6


Abstract: 


Maintaining therapeutic drug concentrations at a target site while limiting systemic exposure is difficult for hydrophilic drugs, which rapidly diffuse from the injection site. Liposomes are widely used carriers, yet designs based on rigid, saturated phospholipids aim to reduce membrane permeability but often yield modest loading and substantial burst release. Here we compared liposomes composed of phospholipids of identical chain length but varying unsaturation, prepared under matched conditions. Contrary to the expectation that unsaturation accelerates release, liposomes based on 1,2-dioleoyl-sn-glycero-3-phosphocholine (DOPC) showed approximately 3-fold higher loading, 11-fold lower initial release and 4-fold lower release at 7 days than saturated analogues. These effects correlated with the emergence of multilamellar and multivesicular structures and extended across diverse hydrophilic drugs. In a rat sciatic nerve block model, tetrodotoxin-loaded liposomes produced 2–3 weeks of blockade without systemic toxicity, establishing a simple platform for sustained local delivery.


 
 
 

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