A Solidão Pode Envelhecer a Saúde Mental Antes Mesmo de o Corpo Adoecer

Estar socialmente desconectado pode deixar marcas que vão muito além da sensação de solidão. Em quase 280 mil adultos, pesquisadores encontraram uma associação entre solidão, isolamento social e menos anos de vida sem doenças, com um impacto particularmente grande sobre a saúde mental.
Sentir-se sozinho pode afetar muito mais do que o nosso estado emocional. A solidão e o isolamento social já foram associados a um maior risco de problemas de saúde e morte, mas ainda não estava claro quanto essas experiências poderiam influenciar os anos de vida vividos com boa saúde.
Neste estudo, pesquisadores analisaram quase 280 mil adultos para descobrir se pessoas que se sentem sozinhas ou que têm pouco contato social passam menos anos de vida sem doenças físicas ou transtornos mentais. Os resultados sugerem que o impacto pode ser especialmente importante para a saúde mental.
Para realizar a pesquisa, os cientistas utilizaram informações de 277.489 adultos participantes do UK Biobank, um grande banco de dados que acompanha informações de saúde de centenas de milhares de pessoas no Reino Unido.
Os pesquisadores selecionaram pessoas que, no início da análise, não tinham sete importantes problemas de saúde: diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, doenças respiratórias crônicas, doenças neurodegenerativas, câncer, depressão e ansiedade. Isso permitiu começar a análise com pessoas que não apresentavam essas condições e acompanhar posteriormente o aparecimento delas.

Os participantes também forneceram informações que permitiram aos pesquisadores avaliar dois aspectos diferentes: solidão, relacionada à sensação subjetiva de estar sozinho ou de não ter relações sociais satisfatórias, e isolamento social, que está mais relacionado à quantidade de contato e interação que uma pessoa mantém com outras pessoas.
Depois, os pesquisadores utilizaram esses dados para calcular a expectativa de vida livre de doenças. Esse conceito não significa simplesmente quantos anos uma pessoa vai viver. Imagine, por exemplo, que duas pessoas cheguem aos 50 anos. Os pesquisadores podem estimar quantos anos, em média, cada uma delas poderá viver sem desenvolver uma das doenças estudadas. Também é possível fazer o mesmo cálculo para os anos vividos sem depressão ou ansiedade.
Dessa maneira, o estudo consegue avaliar não apenas a duração da vida, mas também quanto tempo uma pessoa pode permanecer sem determinadas doenças ou transtornos mentais. É uma forma de observar a chamada “qualidade dos anos vividos” do ponto de vista da saúde.

Os resultados mostraram diferenças importantes. Aos 50 anos, mulheres que apresentavam tanto solidão quanto isolamento social tinham uma expectativa de viver cerca de 2,4 anos a menos sem as doenças físicas analisadas do que mulheres que não apresentavam nenhuma dessas condições. Entre os homens, a diferença foi de aproximadamente 1,7 ano.
Quando os pesquisadores analisaram especificamente a saúde mental, a diferença foi ainda maior: mulheres que vivenciavam solidão e isolamento social tinham cerca de 3,7 anos a menos de vida sem os transtornos mentais estudados, enquanto entre os homens a diferença chegava a 5,8 anos. Portanto, o resultado que chama mais atenção não é que essas pessoas necessariamente morram quase seis anos antes, mas que podem passar menos anos de vida sem desenvolver os problemas de saúde analisados, principalmente problemas relacionados à saúde mental.
Os pesquisadores também observaram que o efeito do isolamento social sobre os anos vividos sem doenças físicas diminuía entre pessoas que tinham hábitos de vida mais saudáveis. Isso significa que fatores como atividade física, alimentação e outros comportamentos relacionados à saúde podem modificar parte dessa associação.

Para a solidão, porém, essa relação não foi estatisticamente significativa nessa análise. É importante lembrar que este foi um estudo observacional: os pesquisadores encontraram uma associação entre solidão, isolamento social e menor expectativa de vida livre de doenças, mas isso não prova que a solidão, sozinha, seja a causa desses problemas.
Outros fatores podem participar dessa relação. Ainda assim, os resultados mostram que a experiência de estar sozinho ou socialmente desconectado pode estar relacionada a uma parte importante dos anos de vida vividos com saúde, especialmente no que diz respeito ao bem-estar mental.
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Associations of loneliness, social isolation and healthy lifestyle with life expectancy free of major physical disease and mental disorder
Xuan Wang, Hao Ma, Yoriko Heianza, Zhaoxia Liang, Oscar H. Franco and Lu Qi
Nature Communications. 17, Article number: 6816 (2026) DOI: 10.1038/s41467-026-74498-8
Abstract:
Loneliness and social isolation are linked to higher risks of mortality and a range of adverse physical diseases and mental disorders, yet the extent to which they affect overall health and quality of life remains unclear. Here we show that loneliness and social isolation are more strongly associated with life expectancy free of mental disorder than with life expectancy free of physical disease. This study includes 277,489 adults from the UK Biobank who are initially free of seven major chronic diseases (type 2 diabetes, cardiovascular disease, chronic respiratory disease, neurodegenerative disease, cancer, depression, and anxiety). At age 50, women and men experiencing both loneliness and social isolation, as compared to their counterparts experiencing neither, live 2.4 and 1.7 fewer years free of physical disease and 3.7 and 5.8 fewer years free of mental disorder, respectively. Notably, the loss of disease-free life expectancy associated with social isolation narrows with healthier lifestyles, but the corresponding association for loneliness was not statistically significant.



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