Menos Açúcar no Começo da Vida, Menos Demência Décadas Depois

E se a proteção contra a demência começasse antes mesmo de nascermos? Um estudo que aproveitou o fim do racionamento de açúcar no Reino Unido encontrou uma associação surpreendente: pessoas que tiveram menor disponibilidade de açúcar durante a gestação e os primeiros anos de vida apresentaram, décadas depois, menor risco de demência, cérebros com características mais favoráveis e melhor desempenho em alguns testes cognitivos.
A alimentação durante a gestação e os primeiros anos de vida é importante para o desenvolvimento do cérebro e também pode influenciar a saúde ao longo da vida. Como o consumo excessivo de açúcar pode contribuir para problemas como obesidade, diabetes tipo 2 e pressão alta, fatores associados ao risco de demência, os pesquisadores quiseram investigar se a quantidade de açúcar disponível no começo da vida poderia estar relacionada à saúde do cérebro décadas depois.
Para fazer isso, eles aproveitaram uma situação histórica muito particular no Reino Unido. Durante e após a Segunda Guerra Mundial, o açúcar era racionado, mas essa restrição terminou de forma abrupta em setembro de 1953.

Assim, pessoas nascidas próximas a essa data tiveram experiências diferentes: algumas passaram a gestação e os primeiros anos de vida quando o açúcar ainda era limitado, enquanto outras nasceram depois do fim do racionamento e tiveram maior disponibilidade. Essa mudança permitiu aos pesquisadores comparar grupos semelhantes, mas com diferentes níveis de exposição ao açúcar no início da vida.
O estudo analisou 64.737 participantes do UK Biobank, nascidos em torno do fim do racionamento. A partir da data de nascimento e do período provável de gestação, os pesquisadores classificaram as pessoas de acordo com o tempo que passaram sob o racionamento: apenas durante a gestação, durante a gestação e o primeiro ano de vida, durante a gestação e os dois primeiros anos, ou sem exposição.
Depois, cruzaram essas informações com registros médicos para descobrir quem desenvolveu demência, doença de Alzheimer ou demência vascular ao longo da vida.

Os pesquisadores também avaliaram a saúde cerebral de parte dos participantes. Para isso, utilizaram imagens de ressonância magnética para medir características do cérebro, como o volume de substância cinzenta e alterações na substância branca.
Também aplicaram testes de raciocínio e de velocidade de processamento das informações. Além disso, utilizaram análises estatísticas que permitiram considerar diferenças entre os participantes e fatores que poderiam influenciar o risco de demência. Eles ainda investigaram se diabetes tipo 2 e pressão alta poderiam ajudar a explicar os resultados.

Os resultados mostraram que as pessoas expostas ao racionamento durante a gestação e o primeiro ano de vida apresentaram 21% menos risco de demência em geral e cerca de 23% menos risco de doença de Alzheimer. Quando a exposição se estendeu até os dois primeiros anos de vida, a redução foi de aproximadamente 23% para demência e 28% para doença de Alzheimer. Nesse grupo, a demência também começou, em média, cerca de 2,55 anos mais tarde, enquanto a doença de Alzheimer começou quase três anos mais tarde.
As imagens do cérebro reforçaram essa associação. Pessoas que passaram pelos primeiros anos de vida durante o racionamento apresentaram, em média, maior volume de substância cinzenta, menos alterações na substância branca e melhor desempenho em testes de velocidade de processamento e raciocínio.
Diabetes tipo 2 e pressão alta explicaram conjuntamente cerca de 25,5% da associação observada, sugerindo que parte do efeito pode estar relacionada à saúde metabólica ao longo da vida.

Os pesquisadores destacam, porém, que o estudo mostra uma associação, e não prova que comer menos açúcar na infância previna a demência. Ainda não está claro quais mecanismos explicariam a relação. Os resultados levantam a possibilidade de que a alimentação durante a gestação e os primeiros anos de vida possa influenciar o desenvolvimento cerebral e a saúde metabólica de maneiras que só se tornam evidentes muitas décadas depois.
LEIA MAIS:
Association of Sugar Restriction in Utero Through Age 2 Years on Dementia Risk Later in Life
Jiazhen Zheng, Gregory Y.H. Lip, Zhuoni Zhang, and S. W. Ricky Lee
Neurology. August 25, 2026 issue 107 (4) e218313
DOI: 10.1212/WNL.0000000000218313
Abstract:
Excess sugar intake in early life may affect long-term brain health, but evidence for dementia is limited. We used the abrupt end of UK sugar rationing in September 1953 as a natural experiment to test whether exposure to sugar rationing during different windows within the first 1,000 days from conception was associated with adult risk of all-cause dementia, Alzheimer disease (AD), and vascular dementia (VaD). We analyzed UK Biobank participants born around the end of UK sugar rationing. Exposure was classified as rationing in utero only, in utero plus the first year of life, in utero plus 1–2 years of life, or no exposure. Incident dementia was identified from linked ICD-10 records. MRI of the brain and cognitive function were assessed in the imaging subcohort. Adjusted Cox and Gompertz models estimated HRs and 95% CIs, Fine–Gray models accounted for competing risk, and mediation analyses evaluated type 2 diabetes and hypertension. Among 64,737 participants included in the analysis, the mean age at recruitment was 54.6 years, and 56.4% were women; 40,963 were exposed to sugar rationing during fetal and/or early-childhood life, and 23,774 were unexposed. Compared with unexposed individuals, sugar rationing in utero plus the first year of life was associated with lower hazards of all-cause dementia (HR, 0.79; 95% CI 0.66–0.94) and AD (HR, 0.77; 95% CI 0.59–1.00). Similar or slightly stronger associations were observed for exposure in utero plus 1–2 years (all-cause dementia: HR, 0.77; 95% CI 0.63–0.95; AD: HR, 0.72; 95% CI 0.53–0.98). Exposure in utero plus 1–2 years was associated with delayed onset of all-cause dementia by 2.55 years, AD by 2.87 years, and VaD by 2.49 years. Early-life sugar rationing was also associated with higher total gray matter volume (β, 3.27; 95% CI 0.46–6.07), lower white matter hyperintensity volume (β, −0.64; 95% CI −0.97 to −0.31), and better performance in processing speed and reasoning. Incident type 2 diabetes and hypertension jointly mediated 25.5% of the association. Sugar restriction in the first 1,000 days was associated with lower dementia hazards, delayed onset, and more favorable brain-health profiles. These results support early-life sugar reduction as a potential strategy for dementia prevention.



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