Mesmo Vacinado, Contraiu Covid-19 de Novo? Novo Estudo Mostra o Porque
- Lidi Garcia
- 11 de nov
- 4 min de leitura

Pesquisadores japoneses acompanharam mais de 2.500 pessoas por 18 meses e descobriram que parte da população perde a imunidade da vacina contra a COVID-19 mais rapidamente, mesmo começando com altos níveis de anticorpos. Esse “grupo de declínio rápido” tem menor produção de anticorpos IgA, essenciais para proteger nariz e garganta, e maior risco de infecção precoce. Monitorar essas respostas pode permitir estratégias de reforço mais personalizadas e eficazes.
A definição de quem deve receber doses de reforço da vacina contra a COVID-19 continua sendo uma questão central na fase pós-pandemia. Até o momento, as decisões sobre a revacinação baseiam-se principalmente em fatores como idade e presença de doenças crônicas.
No entanto, essas estratégias não levam em conta o perfil imunológico individual, isto é, como o sistema imunológico de cada pessoa reage e mantém sua proteção ao longo do tempo.
Um grande estudo japonês, conduzido por pesquisadores da Universidade de Nagoya e realizado na província de Fukushima, acompanhou 2.526 pessoas durante 18 meses, entre abril de 2021 e novembro de 2022, para responder a essa pergunta.
Utilizando modelagem matemática e inteligência artificial (IA), os cientistas monitoraram as respostas de anticorpos e células T após duas doses iniciais e uma dose de reforço das vacinas de RNA mensageiro contra o SARS-CoV-2.

A equipe identificou padrões distintos de resposta imunológica, agrupando os participantes em quatro categorias:
Respondedores duradouros: apresentaram níveis altos e estáveis de anticorpos ao longo do tempo;
Respondedores vulneráveis: tiveram níveis baixos de anticorpos, que caíram rapidamente;
Respondedores de declínio rápido: começaram com altos níveis de anticorpos, mas perderam essa proteção de forma acelerada;
Respondedores intermediários: situaram-se entre os outros grupos.
Cerca de metade dos participantes permaneceu no mesmo grupo após a dose de reforço, mostrando que a forma como o sistema imunológico reage à vacina tende a ser uma característica pessoal e estável.
O grupo de declínio rápido chamou especialmente a atenção dos pesquisadores. Apesar de desenvolverem uma resposta imunológica inicial muito forte, esses indivíduos perderam a proteção mais cedo e tiveram maior risco de infecção precoce pelo SARS-CoV-2.

Foram identificados quatro padrões de resposta de anticorpos, com infecções subsequentes associadas a níveis mais baixos de anticorpos IgA(S). Crédito: Kana Ariga
Os cientistas observaram que, nesse grupo, os níveis de anticorpos IgA específicos contra a proteína spike, responsáveis por proteger o nariz e a garganta, as principais portas de entrada do vírus, eram significativamente mais baixos nas semanas seguintes à vacinação.
Essa descoberta é crucial porque os anticorpos IgA (também chamados de IgA(S), por se ligarem à proteína spike) são parte essencial da primeira linha de defesa imunológica do corpo contra vírus respiratórios. Baixos níveis desses anticorpos no sangue se correlacionaram fortemente com baixos níveis nas vias nasais, indicando que um simples exame de sangue pode servir como marcador confiável da proteção real contra infecções.
Os resultados também revelaram que, após as doses de reforço, 29% dos participantes foram classificados como respondedores duradouros, 28% como vulneráveis, 19% como de declínio rápido, e o restante apresentou respostas intermediárias.
As taxas de infecção pós-vacinação variaram pouco entre os grupos (em torno de 5% a 6%), mas os casos entre os indivíduos com queda rápida de anticorpos ocorreram mais precocemente, sugerindo uma vulnerabilidade maior logo após o pico da imunidade.

Segundo o professor Shingo Iwami, autor sênior do estudo, “foi surpreendente observar que pessoas com respostas iniciais muito fortes podiam perder essa proteção em questão de meses. Isso não seria detectado por um teste pontual de anticorpos, só conseguimos perceber esse padrão acompanhando a evolução ao longo do tempo”.
Além de revelar o fenômeno do “declínio rápido”, o estudo propõe que o monitoramento contínuo dos níveis de anticorpos, especialmente IgA(S), pode ajudar autoridades de saúde a identificar quem realmente precisa de reforços adicionais e quando. Essa abordagem permitiria uma vacinação mais personalizada e eficiente, evitando tanto a revacinação desnecessária quanto a perda de proteção em grupos de risco.

Embora a pesquisa ainda não tenha determinado por que algumas pessoas perdem imunidade mais rapidamente, os cientistas sugerem que fatores como idade, genética, tipo de vacina, qualidade do sono, níveis de estresse e uso de medicamentos podem influenciar esse declínio.
O estudo fornece uma base valiosa para o futuro das campanhas de imunização: compreender como a imunidade individual evolui é essencial para maximizar a proteção populacional e otimizar recursos de saúde pública. Em um cenário de novas variantes e imunidade variável, acompanhar a dinâmica dos anticorpos pode ser tão importante quanto medir sua quantidade.
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Science Translational Medicine, 17 Sep 2025, Vol 17, Issue 816
DOI: 10.1126/scitranslmed.adv4214
Abstract:
A key issue in the post–COVID-19 pandemic era is the ongoing administration of COVID-19 vaccines. Repeated vaccination is essential for preparing against currently circulating and newly emerging severe acute respiratory syndrome coronavirus 2 (SARS-CoV-2) variants. However, optimizing vaccination strategies is crucial to efficiently manage medical resources and establish an effective vaccination framework. Therefore, a strategy to identify poor responders with lower sustained antibody titers would be beneficial because these individuals should be considered high priority for revaccination. We investigated longitudinal antibody titer data in a cohort of 2526 people in Fukushima, Japan, collected between April 2021 and November 2022. Using mathematical modeling and machine learning, we stratified the time-course patterns of antibody titers after two primary doses and one booster dose of COVID-19 messenger RNA vaccines. We identified three populations, which we refer to as the durable, the vulnerable, and the rapid-decliner populations, and approximately half of the participants remained in the same population after the booster dose. The rapid-decliner population experienced earlier infections than the others. Furthermore, when comparing spike protein–specific immunoglobulin G (IgG) titers, spike protein–specific IgA titers, and SARS-CoV-2–specific T cell responses between participants who experienced subsequent infections after booster vaccination and those who did not, we found that spike protein–specific IgA titers were lower during the early stage after booster vaccination in participants who went on to become infected with SARS-CoV-2. This approach could be used to inform policy decisions on vaccine distribution to maximize population-level immunity both in future pandemics and in the post–COVID-19 pandemic era.



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