Medicamentos Populares Para Emagrecer Podem Ajudar a Tratar o Vício em Álcool e Drogas
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Medicamentos usados para tratar diabetes tipo 2 e obesidade podem ter um benefício inesperado: ajudar a reduzir o risco e as consequências do vício. Em um estudo com veteranos dos Estados Unidos, pessoas que começaram a usar esses medicamentos apresentaram menor probabilidade de desenvolver dependência e menos eventos graves, como hospitalizações ou overdose, quando já tinham transtornos por uso de substâncias. Embora os resultados sejam promissores, especialistas afirmam que ensaios clínicos ainda são necessários para confirmar esse possível novo uso terapêutico.
Os transtornos por uso de substâncias, como dependência de álcool, opioides, nicotina ou outras drogas, são um grande desafio de saúde pública em todo o mundo. Eles afetam não apenas a saúde das pessoas que sofrem com o vício, mas também suas famílias e os sistemas de saúde.
Embora existam tratamentos eficazes para algumas dessas condições, eles ainda são pouco utilizados e nem sempre funcionam para todos os pacientes. Por isso, pesquisadores estão investigando se medicamentos já usados para outras doenças poderiam ajudar no tratamento da dependência.
Um grupo de medicamentos que tem chamado atenção são os chamados agonistas do receptor GLP-1, usados principalmente no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Esses medicamentos ficaram bastante conhecidos nos últimos anos porque também ajudam na perda de peso. Estudos recentes sugerem que eles podem afetar regiões do cérebro envolvidas na sensação de recompensa e no controle do estresse, os mesmos sistemas que desempenham papel importante no desenvolvimento do vício.

Para investigar essa possibilidade, pesquisadores analisaram dados de saúde de milhares de veteranos militares dos Estados Unidos que tinham diabetes tipo 2. Em vez de realizar um novo experimento clínico tradicional, os cientistas utilizaram registros médicos já existentes e criaram um método estatístico que simula vários ensaios clínicos ao mesmo tempo.
Eles compararam pacientes que iniciaram tratamento com medicamentos da classe GLP-1 com pacientes que começaram a usar outro tipo de medicamento para diabetes que tem benefícios metabólicos semelhantes, mas não atua nos mesmos circuitos cerebrais.
Os pesquisadores acompanharam os pacientes por cerca de três anos. Entre aqueles que não tinham histórico de dependência, as pessoas que usaram medicamentos da classe GLP-1 apresentaram menor risco de desenvolver problemas relacionados ao uso de álcool, nicotina, opioides, cannabis e outras drogas. Embora as diferenças individuais fossem relativamente pequenas, elas foram consistentes em vários tipos de substâncias.

Pesquisadores da WashU Medicine descobriram, em um novo estudo, que o uso de GLP-1 está associado à redução de transtornos por uso de substâncias e consequências graves para todos os tipos de substâncias viciantes. Crédito: Sara Moser / WashU Medicine/ scitechdaily
Os resultados foram ainda mais relevantes entre pacientes que já tinham algum transtorno por uso de substâncias. Nesse grupo, o início do tratamento com medicamentos da classe GLP-1 foi associado a menos visitas ao pronto-socorro relacionadas ao vício, menos hospitalizações e menor risco de overdose.
Também houve redução no risco de morte e de pensamentos ou tentativas de suicídio. Em termos práticos, isso significou alguns casos a menos desses eventos graves para cada mil pacientes acompanhados ao longo de três anos.
Ainda não se sabe exatamente por que esses medicamentos podem ter esse efeito. Uma hipótese é que eles reduzam a intensidade do desejo por recompensas, o que poderia diminuir o impulso de consumir substâncias como álcool ou drogas. Estudos anteriores com um desses medicamentos, a semaglutida, já haviam mostrado redução no desejo por álcool em pessoas com transtorno por uso de álcool. Outros estudos observacionais também sugerem efeitos semelhantes para nicotina e opioides.

Um estudo realizado por pesquisadores da WashU Medicine descobriu que o uso de GLP-1 está associado a sete casos a menos de novos casos de transtorno por uso de substâncias e 12 eventos adversos a menos relacionados ao uso de substâncias a cada 1.000 pessoas que tomam GLP-1 para diabetes, em comparação com aquelas que tomam um medicamento sem GLP-1. Crédito: Sara Moser / WashU Medicine/ scitechdaily
Mesmo assim, os pesquisadores alertam que esses resultados devem ser interpretados com cautela. Como o estudo foi baseado em registros médicos e não em um experimento controlado clássico, outros fatores podem ter influenciado os resultados.
Além disso, a maioria dos participantes era composta por homens mais velhos, o que significa que ainda não está claro se os efeitos seriam os mesmos em mulheres, jovens ou pessoas de outros países. Por isso, cientistas defendem a realização de novos ensaios clínicos controlados para confirmar se esses medicamentos realmente podem ajudar no tratamento da dependência.
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Fares Qeadan
BMJ. 4 March 2026;392:s325
DOI: 10.1136/bmj.s325
Abstract:
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