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Falta de Sono Pode Comprometer Confissões e Depoimentos Na Justiça

  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

Um estudo recente analisou como a falta de sono pode afetar depoimentos e confissões usados em processos judiciais. Quando uma pessoa permanece muitas horas sem dormir, áreas do cérebro responsáveis por memória, raciocínio e tomada de decisões funcionam pior. Isso pode levar a lembranças imprecisas, maior vulnerabilidade a informações falsas e decisões impulsivas durante interrogatórios. Os pesquisadores sugerem que tribunais considerem o nível de fadiga das pessoas envolvidas em investigações e proponham limites baseados no número de horas sem dormir, já que a privação extrema pode comprometer seriamente a confiabilidade das declarações.


Todos sabemos que dormir pouco deixa a pessoa cansada, irritada e com dificuldade para se concentrar. No entanto, pesquisadores estão começando a investigar um problema ainda mais sério: A falta de sono pode afetar diretamente a qualidade de depoimentos e confissões usados em processos judiciais?


Apesar de parecer um fator importante, esse tema ainda recebeu pouca atenção sistemática na pesquisa científica e na legislação. Um novo estudo reuniu as evidências disponíveis para entender como o cansaço extremo pode influenciar a forma como as pessoas lembram, pensam e tomam decisões durante investigações policiais e julgamentos.


Para entender esse problema, é importante primeiro saber como funciona o ciclo natural de sono e vigília. O corpo humano segue um ritmo biológico interno, muitas vezes chamado de “relógio biológico”, que regula quando sentimos sono e quando estamos alertas. Esse sistema envolve várias regiões do cérebro e depende de sinais químicos que controlam o nível de energia e atenção.


Quando uma pessoa passa muitas horas sem dormir, esse equilíbrio se rompe. Como resultado, o cérebro começa a funcionar de maneira menos eficiente, afetando atenção, memória, capacidade de julgamento e controle emocional.



Essas mudanças no funcionamento do cérebro são particularmente preocupantes em situações de interrogatórios policiais ou depoimentos formais, nos quais as pessoas precisam lembrar detalhes com precisão e tomar decisões cuidadosas sobre o que dizer. A falta de sono afeta especialmente as chamadas funções executivas do cérebro, um conjunto de habilidades mentais que permitem planejar, avaliar consequências e controlar impulsos. 


Essas funções dependem fortemente do córtex pré-frontal, uma região do cérebro responsável pelo raciocínio e pela tomada de decisões. Quando alguém está muito cansado, essa área do cérebro funciona pior, fazendo com que a pessoa pense menos nas consequências futuras e se concentre apenas em aliviar o desconforto imediato, como terminar rapidamente um interrogatório.


Outro problema importante é o impacto da privação de sono na memória. Pessoas muito cansadas tornam-se mais vulneráveis a um fenômeno conhecido como efeito da desinformação. Isso acontece quando alguém começa a incorporar informações falsas em suas próprias lembranças. 


Por exemplo, durante um interrogatório, um investigador pode mencionar um detalhe que não aconteceu, e uma pessoa exausta pode acabar acreditando que aquilo realmente faz parte de sua memória. Com o tempo, essa informação errada pode parecer tão real quanto uma lembrança verdadeira.



Os pesquisadores também chamam atenção para o fato de que muitas pessoas que entram em contato com o sistema de justiça criminal já apresentam problemas de sono antes mesmo de qualquer interrogatório. Situações como trauma, violência, pobreza ou estresse crônico podem causar distúrbios de sono prolongados. Isso significa que essas pessoas chegam às investigações já mais vulneráveis aos efeitos da fadiga mental. Assim, a privação de sono pode amplificar dificuldades cognitivas que já existiam.


Ao analisar estudos anteriores, os cientistas identificaram três principais efeitos da fadiga extrema em depoimentos e confissões. Primeiro, as lembranças podem se tornar menos confiáveis, pois o cérebro cansado tem dificuldade em recuperar memórias com precisão. Segundo, os interrogatórios tendem a durar mais, já que pessoas exaustas demoram mais para processar perguntas e formular respostas. Terceiro, o raciocínio se torna menos eficiente, aumentando a probabilidade de decisões precipitadas, como concordar com acusações ou fazer confissões para encerrar a situação rapidamente.



Para ajudar tribunais e investigadores a avaliar melhor esses riscos, os pesquisadores sugeriram um sistema simples de classificação baseado no número de horas que uma pessoa permanece acordada. Após cerca de vinte e quatro horas sem dormir, o funcionamento mental já pode se tornar semelhante ao de alguém sob efeito de álcool.


Após quarenta e oito horas, o comprometimento cognitivo é muito mais grave e pode afetar seriamente a capacidade de julgamento. Já após setenta e duas horas sem dormir, algumas pessoas podem começar a apresentar sintomas semelhantes aos de um episódio psicótico, como confusão extrema ou percepções distorcidas da realidade.


Essas descobertas sugerem que a privação de sono pode representar uma “brecha invisível” no sistema de justiça. Se depoimentos e confissões forem obtidos quando uma pessoa está extremamente cansada, a confiabilidade dessas informações pode ser comprometida. Por isso, os pesquisadores defendem que tribunais e investigadores considerem o estado de sono das pessoas envolvidas em interrogatórios e depoimentos, documentando quantas horas elas passaram acordadas e desenvolvendo políticas que reduzam o risco de erros judiciais.



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How sleep disruption impacts the evidentiary value of statements and confessions: Toward evidence-based standards

Krizan Z, Curran B, and Leo RA

Psychology, Public Policy, and Law. 2026

DOI:10.1037/law0000487


Abstract:


Although sleep disruption carries implications for the evidentiary value of legal statements and confessions, there is only limited evidence and little systematic attention to this topic. In response, we reviewed existing research regarding the impact of sleep-related fatigue on psychological functioning in the context of investigative and legal processes, alongside its policy implications. First, we outline the sleep–wake mechanisms and the consequences of their disruption for psychological functioning. Second, we summarize the prevalence and severity of sleep disruption among populations interacting with the criminal justice system. Third, we review relevant U.S. law on the admissibility of statements under sleep deprivation, with a particular focus on confessions. Fourth, we tie the discussed processes and relevant evidence together to posit three dose-dependent consequences of sleep-related fatigue for the validity of statements provided by subjects involved in legal processes—(a) unreliable recollections, (b) increased duress, and (c) poor reasoning. Finally, we integrate these findings by considering how sleep disruption impacts the evidentiary basis of statements, while providing the first evidence-based guidelines on what level of sleep-related fatigue may be influential for statements in evidence. We conclude by suggesting practical steps to document its influence and advance the understanding of the impacts that sleep disruption has on legal processes. (PsycInfo Database Record (c) 2026 APA, all rights reserved)


 
 
 

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