Da Mente ao Coração: Depressão e Ansiedade Aumentam o Risco Cardiovascular
- Lidi Garcia
- 15 de jan.
- 4 min de leitura

Pessoas com depressão e ansiedade têm maior risco de eventos cardíacos graves. Parte desse risco pode ser explicada por alterações no cérebro relacionadas ao estresse, inflamação crônica e desregulação do sistema nervoso.
A depressão e a ansiedade são conhecidas principalmente por seus efeitos na saúde mental, mas, cada vez mais, estudos mostram que elas também afetam profundamente o corpo, especialmente o coração. Pessoas com depressão têm maior risco de sofrer eventos cardiovasculares graves, como infarto, AVC ou morte de causa cardíaca. Esses eventos são chamados, na medicina, de eventos cardíacos adversos maiores.
O que ainda não estava totalmente claro é como a depressão e a ansiedade “conversam” com o coração. Um dos principais suspeitos é o estresse crônico, que ativa continuamente circuitos específicos do cérebro e desencadeia respostas físicas que, ao longo do tempo, podem prejudicar o sistema cardiovascular.
No cérebro, uma região chamada amígdala funciona como um alarme emocional. Ela detecta ameaças, perigo e situações estressantes, preparando o corpo para reagir. Quando a amígdala está muito ativa por longos períodos, como acontece em pessoas com depressão e ansiedade, o corpo permanece em um estado de alerta constante.
Já o córtex pré-frontal ajuda a regular essas respostas emocionais, “freando” o excesso de estresse. Um desequilíbrio entre essas duas regiões pode indicar um cérebro preso em modo de ameaça.

Os pesquisadores levantaram a hipótese de que pessoas com depressão e/ou ansiedade apresentam maior atividade cerebral relacionada ao estresse, especialmente na amígdala, e que isso poderia explicar, ao menos em parte, o maior risco de problemas cardíacos. Além disso, esse estresse cerebral poderia afetar:
O sistema nervoso autônomo, que controla funções automáticas como batimentos cardíacos;
O sistema imunológico, aumentando a inflamação no corpo.
Para investigar isso, os cientistas analisaram dados de mais de 85 mil pessoas participantes de um grande biobanco hospitalar nos Estados Unidos, acompanhadas ao longo de vários anos. No início do estudo, foi registrado se cada pessoa tinha diagnóstico de depressão, ansiedade, ambas ou nenhuma das duas.
Uma parte dos participantes realizou exames avançados de imagem cerebral (PET-CT), que permitem medir a atividade metabólica do cérebro. Com esses exames, os pesquisadores calcularam uma razão entre a atividade da amígdala e a do córtex pré-frontal, um indicador indireto de atividade neural relacionada ao estresse.

Além disso, eles analisaram dois marcadores importantes no corpo, como a variabilidade da frequência cardíaca, que reflete o equilíbrio do sistema nervoso autônomo. Valores baixos indicam que o corpo tem dificuldade de se adaptar ao estresse; e a proteína C-reativa (PCR), um marcador de inflamação no sangue. Valores elevados indicam inflamação sistêmica, um fator conhecido de risco cardiovascular.
Durante o período de acompanhamento, os pesquisadores observaram quem desenvolveu eventos cardiovasculares graves.
Os resultados mostraram que pessoas com depressão apresentaram um risco significativamente maior de sofrer eventos cardíacos graves, mesmo após levar em conta idade, sexo, estilo de vida, condições médicas prévias e fatores socioeconômicos. Esse risco foi ainda maior em pessoas que tinham depressão e ansiedade ao mesmo tempo, sugerindo um efeito combinado.
Quando olharam mais de perto os mecanismos biológicos, os pesquisadores encontraram um padrão claro:
Pessoas com depressão apresentavam maior atividade da amígdala em relação ao córtex pré-frontal, indicando um cérebro mais reativo ao estresse;
Apresentavam menor variabilidade da frequência cardíaca, sinal de um sistema nervoso menos flexível;
Tinham níveis mais altos de inflamação, medidos pela PCR.

Análises estatísticas mais avançadas mostraram que esses fatores, atividade cerebral relacionada ao estresse, desregulação do sistema nervoso autônomo e inflamação, explicam parte da ligação entre depressão e problemas cardíacos.
Ou seja, a depressão não afeta apenas o “estado emocional”, mas ativa circuitos cerebrais e respostas corporais que, ao longo do tempo, aumentam o risco cardiovascular.
O mesmo padrão foi observado em pessoas com ansiedade isolada e, de forma ainda mais intensa, naquelas com ansiedade e depressão juntas.
Este estudo mostra que a depressão e a ansiedade não são apenas condições psicológicas, mas doenças que envolvem o cérebro, o sistema nervoso e o sistema imunológico.
O estresse crônico altera a atividade cerebral, aumenta a inflamação e prejudica o controle dos batimentos cardíacos, criando um ambiente biológico propício ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Quando depressão e ansiedade coexistem, esses efeitos parecem se somar, elevando ainda mais o risco.
READ MORE:
Depression and Anxiety Associate With Adverse Cardiovascular Events via Neural, Autonomic, and Inflammatory Pathways
Shady Abohashem, Iqra Qamar, Simran S. Grewal, Giovanni Civieri,
Sabeeh Islam, Wesam Aldosoky, Sandeep Bollepalli, Rachel P. Rosovsky, Antonia V. Seligowski, Lisa M. Shin, Antonis A. Armoundas, Michael T. Osborne, and Ahmed Tawakol
Circulation, 17 December 2025
Abstract|:
Depression is linked to major adverse cardiac events (MACE), yet the role of stress-related neural activity–previously implicated in stress and anxiety—in mediating this association remains unclear. Because anxiety and depression frequently co-occur and share neurobiological pathways, we hypothesized that the relationship between depression, anxiety, and their co-occurrence with MACE is partially mediated by increased stress-related neural activity and related autonomic-immune mechanisms. Data were obtained from participants enrolled in the Mass General Brigham Biobank (2010–2020). A subset underwent 18F-fluorodeoxyglucose positron emission tomography/computed tomography imaging to assess stress-related neural activity, defined as the ratio of amygdala to background prefrontal cortical activity. Heart rate variability and CRP (C-reactive protein) served as indicators of autonomic activity and systemic inflammation. Depression and anxiety were determined at enrollment, and MACE was identified during follow-up using International Classification of Diseases codes. Each exposure (depression, anxiety, or concurrent anxiety plus depression) was modeled separately against study outcomes using linear and Cox regressions. Of 85 551 study subjects, 3078 (3.6%) participants developed MACE, over a median 3.4 years follow-up (interquartile range, 1.9–4.8). Depression was associated with higher MACE risk (hazard ratio, 1.24 [95% CI, 1.14–1.34]; P<0.001), with stronger associations for concurrent anxiety plus depression (hazard ratio, 1.35 [1.23–1.49]; P<0.001) and remained significant after adjustment for demographics, lifestyle, cardiovascular, and socioeconomic factors. In subsamples with available imaging (N=1123) or biomarkers (heart rate variability, N=7862; CRP, N=12 906), depression was linked to higher amygdala-to-cortex activity ratio (β=0.16; P=0.006), lower heart rate variability (β=−0.20; P<0.001), and higher CRP (β=0.14; P<0.001). Mediation analyses showed indirect effects of amygdala-to-cortex activity ratio, heart rate variability, and CRP on the depression–MACE relationship (log odds ratios, 0.04, 0.04, and 0.02, respectively; all P<0.05). Similar associations were observed for anxiety or concurrent anxiety plus depression. Depression and anxiety independently associate with increased MACE risk, partly mediated by heightened stress-related neural activity and autonomic-immune dysregulation. The risk is greatest among those with both conditions, underscoring shared stress-related pathophysiology.



Comentários