Crise de Identidade ou Impulso Escondido? O Poder Psicológico da Dúvida
- Lidi Garcia
- há 5 dias
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Este estudo mostra que duvidar de um objetivo importante nem sempre reduz o comprometimento com ele. Quando as pessoas passam a duvidar das próprias dúvidas, elas podem, paradoxalmente, sentir-se mais confiantes e engajadas com seus objetivos de identidade. O efeito da crise de ação depende de como o indivíduo avalia e valida seus próprios pensamentos.
Ao longo da vida, as pessoas costumam imaginar quem desejam se tornar no futuro. Essas imagens mentais de si mesmas em estados futuros, como “quero ser médica”, “quero ser uma pessoa confiante” ou até “não quero acabar frustrada”, são chamadas de possíveis eus ou objetivos de identidade. Eles funcionam como guias internos que orientam escolhas, esforços e persistência ao longo do tempo.
Diferentemente de metas simples e rápidas, esses objetivos de identidade geralmente levam anos para serem perseguidos e alcançados, exigindo dedicação contínua e superação de obstáculos.
Durante esse caminho longo, é muito comum que surjam dificuldades, fracassos, atrasos ou frustrações. Quando esses contratempos se acumulam ou parecem especialmente significativos, a pessoa pode entrar em um estado psicológico chamado de crise de ação. Essa crise acontece quando o indivíduo começa a questionar seriamente se vale a pena continuar perseguindo aquele objetivo ou se seria melhor desistir.
Em termos simples, é aquele momento em que surgem pensamentos como: “Será que isso ainda faz sentido para mim?”, “Estou no caminho certo?” ou “Será que devo continuar insistindo nisso?”.

Pesquisas anteriores mostram de forma bastante consistente que, quanto maior é essa crise de ação, menor tende a ser o comprometimento da pessoa com seu objetivo de identidade. Ou seja, quanto mais dúvidas alguém sente sobre continuar ou não, menos motivada e engajada ela tende a ficar.
Outros estudos reforçam essa ideia, sugerindo que questionar profundamente um objetivo importante pode levar a uma revisão negativa do compromisso com ele, abrindo espaço para o abandono da meta.
No entanto, o presente trabalho propõe que essa relação não é tão simples quanto parece. Os autores sugerem que existe um nível mais profundo de processamento psicológico que pode mudar completamente o efeito da crise de ação sobre o comprometimento. Esse nível é chamado de metacognição.
Enquanto a cognição diz respeito aos pensamentos em si (por exemplo, “quero ser médica”), a metacognição se refere ao que a pessoa pensa sobre seus próprios pensamentos (por exemplo, “tenho certeza de que quero ser médica” ou “não confio muito nesses pensamentos”). Em outras palavras, não importa apenas o que pensamos, mas o quanto confiamos nesses pensamentos.
Para explorar essa ideia, o estudo se baseia na Teoria da Autovalidação, que propõe que nossos pensamentos só influenciam nosso comportamento de forma forte quando confiamos neles. Segundo essa teoria, pensamentos acompanhados de confiança tendem a guiar decisões e ações, enquanto pensamentos acompanhados de dúvida têm menos impacto.

A partir disso, os autores levantam uma hipótese contraintuitiva: adicionar dúvida metacognitiva às dúvidas já existentes sobre um objetivo (ou seja, duvidar das próprias dúvidas) pode, paradoxalmente, fortalecer o comprometimento com esse objetivo, em vez de enfraquecê-lo.
Para testar essa ideia, foi realizado o Estudo 1. Primeiro, os participantes responderam a um questionário que media o nível de crise de ação em relação ao seu objetivo de identidade mais importante.
Em seguida, foram convidados a relembrar e descrever uma situação passada em que se sentiram muito confiantes em seus próprios pensamentos ou, em outro grupo, uma situação em que sentiram muita dúvida sobre o que estavam pensando. Depois disso, responderam a perguntas sobre o quanto estavam comprometidos com seu objetivo de identidade.
Os resultados mostraram um padrão interessante. Quando as pessoas com alta crise de ação foram levadas a lembrar de uma experiência de confiança em seus pensamentos, elas apresentaram menor comprometimento com seus objetivos, confirmando o que estudos anteriores já indicavam.
No entanto, quando essas mesmas pessoas foram induzidas a lembrar de uma experiência de dúvida em seus pensamentos, elas mostraram maior comprometimento com seus objetivos. Em outras palavras, duvidar das próprias dúvidas pareceu proteger, e até fortalecer, o vínculo com o objetivo de identidade.

O Estudo 2 confirmou esses resultados em uma população diferente e usando uma forma alternativa de induzir dúvida metacognitiva. Além disso, esse segundo estudo mostrou que o fator central por trás desse efeito era, de fato, o nível de confiança que as pessoas tinham em seus pensamentos. A confiança no próprio pensamento funcionou como uma ponte explicativa entre a crise de ação e o comprometimento com o objetivo, demonstrando que a metacognição desempenha um papel crucial nesse processo.
No conjunto, esses achados mostram que uma crise de ação não leva automaticamente à desistência de objetivos importantes. Dependendo de como a pessoa se relaciona com seus próprios pensamentos, se confia neles ou se os questiona, a crise pode enfraquecer ou até fortalecer o comprometimento com aquilo que dá sentido à sua identidade.
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Increasing identity goal commitment by inducing doubt in goal doubts
Patrick Carroll
Self and Identity, 1–20. 02 Dec 2025.
Abstract|:
Although most work shows that an action crisis lowers goal commitment, the present work shows that it can lead to more or less commitment depending upon whether one is induced to experience meta-cognitive confidence or doubt. In Study 1, participants first completed the action crisis measure and, then, wrote about a time when they had experienced confidence or doubt in their thinking. Next, they completed the measure of commitment to their most important identity goal. As predicted, whereas people higher on action crisis showed lower commitment than those lower on action crisis when they wrote about an experience of confidence, they showed higher commitment when writing about an experience of doubt. Study 2 replicated and generalized these findings using a different population and induction of doubt. Moreover, Study 2 demonstrated that thought confidence mediated these effects on identity goal commitment.



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