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Criatividade, Humor e Hiperfoco: Os Pontos Fortes do TDAH

  • Foto do escritor: Lidi Garcia
    Lidi Garcia
  • 6 de jan.
  • 7 min de leitura

Abordagens baseadas em pontos fortes têm ganhado destaque no estudo de condições do neurodesenvolvimento, mas ainda são pouco exploradas no transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH). Comparando uma grande amostra de adultos com e sem TDAH, os autores observaram que pessoas com TDAH relatam maior afinidade por alguns pontos fortes específicos, como hiperfoco, criatividade e humor, mas não diferem significativamente dos controles quanto ao conhecimento e uso geral de suas forças pessoais. Em ambos os grupos, maior conhecimento e uso dos pontos fortes estiveram associados a melhor bem-estar, qualidade de vida e saúde mental.


O transtorno de déficit de atenção com hiperatividade é uma condição do neurodesenvolvimento, ou seja, uma forma diferente de desenvolvimento do cérebro que se inicia na infância e costuma acompanhar a pessoa ao longo da vida. Estima-se que cerca de cinco a sete por cento das crianças e aproximadamente dois a quatro por cento dos adultos em todo o mundo apresentem esse transtorno. 


Ele se manifesta principalmente por dificuldades persistentes de atenção, impulsividade e, em muitos casos, níveis elevados de atividade física ou mental. Do ponto de vista biológico, estudos de neuroimagem mostram que o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade está associado a diferenças no funcionamento e na comunicação entre áreas do cérebro responsáveis pelo controle da atenção, do planejamento, da regulação emocional e da tomada de decisões, especialmente regiões do córtex pré-frontal, dos gânglios da base e de circuitos ligados ao sistema de recompensa. 


Essas diferenças não indicam um cérebro “defeituoso”, mas sim um cérebro que funciona de maneira distinta, com desafios e também potenciais específicos.

Tradicionalmente, a psiquiatria e a psicologia abordaram o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade quase exclusivamente a partir de suas dificuldades e prejuízos, como problemas acadêmicos, instabilidade emocional e desafios no trabalho e nos relacionamentos. No entanto, nas últimas décadas, tem ganhado força uma nova perspectiva chamada paradigma da neurodiversidade. 



Essa abordagem parte do princípio de que variações neurológicas fazem parte da diversidade humana e que condições como o transtorno do espectro autista e o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade não devem ser compreendidas apenas em termos de déficits, mas também em termos de habilidades, talentos e características positivas que podem ser mais frequentes ou mais intensas nessas populações.


No campo do transtorno do espectro autista, essa mudança de perspectiva já é relativamente avançada. Pesquisas e intervenções passaram a valorizar características como atenção intensa aos detalhes, pensamento lógico, reconhecimento de padrões, preferência por rotinas e elevada capacidade de concentração em interesses específicos. 



Essas qualidades vêm sendo utilizadas para melhorar o bem-estar psicológico, a qualidade de vida, o desempenho educacional e as oportunidades de emprego de pessoas autistas. Embora ainda exista debate científico sobre a robustez de parte dessas evidências, há hoje um número crescente de estudos sustentando a ideia de que focar em pontos fortes pode ser uma estratégia válida e benéfica.


Em contraste, o estudo dos pontos fortes associados ao transtorno de déficit de atenção com hiperatividade ainda é bastante limitado. A maior parte das pesquisas quantitativas concentrou-se quase exclusivamente na criatividade, entendida como a capacidade de gerar ideias originais e úteis, e no chamado pensamento divergente, que se refere à habilidade de pensar de forma não convencional e explorar múltiplas soluções para um mesmo problema. 


Muitos estudos encontraram uma associação positiva entre o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade e esses tipos de pensamento criativo, mas outros, especialmente aqueles realizados com crianças e adolescentes, não observaram diferenças claras entre pessoas com e sem o transtorno.



Essas inconsistências podem ser explicadas, em parte, por limitações metodológicas importantes, como amostras pequenas, que reduzem a confiabilidade dos resultados, e pela falta de controle de fatores como nível educacional e condições socioeconômicas, que influenciam fortemente o desempenho cognitivo.


Além disso, concentrar-se apenas na criatividade pode oferecer uma visão muito restrita das possíveis forças psicológicas associadas ao transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. Estudos qualitativos, que utilizam entrevistas abertas e relatos pessoais, trouxeram uma visão mais ampla das experiências vividas por adultos com o transtorno. 


Nesses estudos, muitos participantes relataram características positivas como altos níveis de energia, entusiasmo, capacidade de realizar várias tarefas ao mesmo tempo, facilidade para se envolver profundamente em atividades de interesse, disposição para assumir riscos, espírito aventureiro e empatia. Algumas pessoas também reinterpretaram características tradicionalmente vistas como sintomas, como impulsividade e hiperatividade, como fontes de espontaneidade, criatividade e vitalidade.


Apesar do valor dessas descobertas, grande parte desses estudos qualitativos envolveu amostras pequenas ou focadas em adultos considerados “bem-sucedidos”, como aqueles com ensino superior, emprego estável e relacionamentos duradouros.


Isso limita a possibilidade de generalizar os resultados para a população mais ampla de pessoas com transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, que é extremamente diversa em termos de trajetórias de vida. 



Pesquisas mais recentes, com amostras maiores, identificaram como domínios centrais de força psicológica no transtorno de déficit de atenção com hiperatividade:


  • a criatividade


  • a flexibilidade mental


  • o dinamismo


  • habilidades sociais e emocionais, como empatia e sensibilidade


  • e habilidades cognitivas complexas, como pensamento analítico 


  • hiperfoco, que é a capacidade de se concentrar intensamente em tarefas de grande interesse.


Mesmo com esse avanço, várias questões fundamentais ainda permanecem sem resposta. Ainda não está claro se essas características positivas são realmente mais reconhecidas por pessoas com transtorno de déficit de atenção com hiperatividade do que por aquelas sem o transtorno. Também não se sabe em que medida essas pessoas têm consciência de seus próprios pontos fortes, nem com que frequência conseguem utilizá-los de forma intencional no dia a dia. 


Pesquisas realizadas com pessoas autistas indicam que reconhecer e usar os próprios pontos fortes está associado a melhor saúde mental, maior bem-estar e melhor qualidade de vida, o que levanta a hipótese de que o mesmo possa ser verdadeiro para o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade.


Para investigar essas questões, os pesquisadores realizaram um estudo comparando adultos com e sem transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. Participaram do estudo quatrocentos adultos, sendo duzentos com diagnóstico do transtorno e duzentos sem diagnóstico, cuidadosamente pareados para garantir que os grupos fossem semelhantes em aspectos como idade e sexo. 



Todos os participantes foram recrutados pela internet e responderam a questionários detalhados. Esses questionários pediam que os participantes indicassem o quanto se identificavam com uma lista de vinte e cinco características consideradas possíveis pontos fortes relacionados ao transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, como criatividade, senso de humor, empatia e capacidade de hiperfoco.


Além disso, os participantes responderam a perguntas sobre o quanto conheciam seus próprios pontos fortes, ou seja, se tinham clareza sobre quais eram suas qualidades pessoais, e com que frequência conseguiam utilizá-las na vida cotidiana, no trabalho, nos estudos e nos relacionamentos. 


O estudo também avaliou indicadores de bem-estar subjetivo, qualidade de vida e saúde mental, como níveis de satisfação com a vida, sentimentos positivos e negativos e presença de sintomas emocionais, como ansiedade e depressão. Para analisar os dados, os pesquisadores utilizaram diferentes métodos estatísticos, incluindo abordagens tradicionais e métodos baseados em probabilidade, com o objetivo de obter conclusões mais robustas e confiáveis.



Os resultados mostraram que adultos com transtorno de déficit de atenção com hiperatividade relataram maior identificação com dez dos vinte e cinco pontos fortes avaliados, incluindo hiperfoco, criatividade e senso de humor, quando comparados aos participantes sem o transtorno. No entanto, para a maioria das características, não houve diferença significativa entre os grupos. 


De forma surpreendente, adultos com e sem transtorno de déficit de atenção com hiperatividade não diferiram quanto ao nível de conhecimento que tinham sobre seus próprios pontos fortes nem quanto à frequência com que os utilizavam. Em ambos os grupos, pessoas que demonstravam maior consciência de suas qualidades e que conseguiam usá-las com mais frequência apresentavam maior bem-estar, melhor qualidade de vida e menos sintomas de sofrimento psicológico.


Com base nesses achados, os autores concluíram que, embora existam algumas diferenças específicas nos pontos fortes relatados por adultos com e sem transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, o reconhecimento e o uso consciente das próprias qualidades parecem ser fatores importantes para o bem-estar humano de maneira geral. 


Isso sugere que intervenções psicológicas e educacionais que ajudem as pessoas a identificar, valorizar e aplicar seus pontos fortes podem beneficiar não apenas indivíduos com transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, mas adultos em geral, contribuindo para uma vida mais satisfatória e mentalmente saudável.



LEIA MAIS:


The role of psychological strengths in positive life outcomes in adults with ADHD

Luca D. Hargitai, Emma L. M. Laan, Lessa M. Schippers, Lucy A. Livingston, Graeme Fairchild, Punit Shah, and Martine Hoogman

Psychological Medicine. Volume 55. 6 October 2025

DOI: 10.1017/S0033291725101232


Abstract:


Strength-based approaches are increasingly common in neurodevelopmental research, but the positive characteristics that may be features of attention-deficit/hyperactivity disorder (ADHD) remain underexplored. The extent to which people with ADHD recognize and use their personal strengths, and whether these play a role in their life outcomes, is also unknown. Tackling these gaps in the literature, we conducted the first study of self-reported strengths, strengths knowledge, and strengths use in ADHD. Adults with (n = 200) and without (n = 200) ADHD were recruited online and rated their endorsement of 25 putative ADHD-related strengths. Participants also completed self-report measures assessing strengths knowledge, strengths use, subjective wellbeing, quality of life, and mental health. Using both Frequentist and Bayesian methods, we compared the groups and explored the associations of strengths knowledge and use with outcomes across both groups. The ADHD group endorsed 10 strengths more strongly than the non-ADHD group, including hyperfocus, humor, and creativity, but reported similar endorsement for 14 of the strengths. Adults with and without ADHD did not differ on their strengths knowledge and use but, in both groups, increased strengths knowledge and, to some extent, greater strengths use were associated with better wellbeing, improved quality of life, and fewer mental health symptoms. We conclude that, while adults with and without ADHD may have both similarities and differences in strengths, interventions that focus on enhancing people’s strength knowledge and promoting the everyday use of their personal strengths could have universal applications to improve wellbeing in adulthood.


 
 
 

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