Como Uma Dose Certa Pode Transformar o THC Em Aliado Contra o Alzheimer
- Lidi Garcia
- há 5 dias
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O estudo mostrou que doses baixas de tetraidrocanabinol, especialmente quando combinadas com um anti-inflamatório, podem reduzir alterações cerebrais do Alzheimer e proteger a memória em modelos animais. Por serem medicamentos já aprovados, essa combinação tem grande potencial para testes clínicos em humanos.
A doença de Alzheimer é a causa mais comum de demência em pessoas idosas e representa um dos maiores desafios da saúde pública atual. Milhões de pessoas em todo o mundo vivem com essa doença, e esse número deve crescer rapidamente nas próximas décadas. Apesar dos avanços científicos, ainda não existem tratamentos realmente eficazes capazes de prevenir, interromper ou reverter a progressão do Alzheimer. Por isso, encontrar novas estratégias terapêuticas é urgente.
Uma abordagem promissora é o reaproveitamento de medicamentos que já são aprovados e utilizados para outras condições. Esse caminho pode acelerar o desenvolvimento de novas terapias, pois esses medicamentos já têm sua segurança testada em humanos. Dentro desse contexto, a cannabis e, em especial, seu principal composto ativo, o tetraidrocanabinol, passaram a ser investigados como possíveis aliados no combate ao Alzheimer.
Estudos anteriores em laboratório e em animais mostraram que o tetraidrocanabinol pode reduzir o acúmulo de proteínas associadas ao Alzheimer, especialmente a beta-amiloide, uma substância que se deposita no cérebro e está ligada à morte de neurônios.
Esses resultados sugerem que o tetraidrocanabinol poderia ter um efeito protetor no cérebro. No entanto, seu uso terapêutico é limitado pelos efeitos colaterais psiquiátricos e cognitivos, como confusão mental e prejuízo da memória, especialmente em doses mais altas.

Outro desafio importante é que o tetraidrocanabinol apresenta efeitos diferentes dependendo da dose utilizada. Doses altas tendem a prejudicar a cognição, enquanto doses mais baixas parecem melhorar o aprendizado e a memória em animais mais velhos.
Essa diferença dificulta encontrar uma dose segura e eficaz, o que atrasou o avanço de pesquisas focadas no uso desse composto para tratar ou prevenir o Alzheimer.
Além disso, a inflamação no cérebro desempenha um papel central no desenvolvimento da doença de Alzheimer. A inflamação pode tanto acelerar a progressão da doença quanto atuar como um gatilho inicial. Medicamentos anti-inflamatórios já foram testados no passado, mas, quando usados isoladamente, não demonstraram benefícios claros para a prevenção do Alzheimer em humanos.
Curiosamente, o tetraidrocanabinol pode reduzir a inflamação em alguns contextos, mas também pode ativar vias inflamatórias específicas no cérebro, o que contribui para seus efeitos negativos sobre a memória.

Diante disso, os pesquisadores levantaram a hipótese de que combinar uma dose baixa de tetraidrocanabinol com um medicamento anti-inflamatório específico poderia manter os benefícios do tetraidrocanabinol e, ao mesmo tempo, bloquear seus efeitos prejudiciais. Para testar essa ideia, eles utilizaram um anti-inflamatório que inibe uma enzima diretamente envolvida na inflamação cerebral associada ao prejuízo cognitivo.
No estudo, animais modelo da doença de Alzheimer receberam doses baixas de tetraidrocanabinol, isoladamente ou em combinação com esse anti-inflamatório. Os pesquisadores avaliaram vários aspectos: o acúmulo de proteínas tóxicas no cérebro, a saúde das conexões entre neurônios, o desempenho em testes de memória e aprendizado e a atividade de genes relacionados à inflamação e à função cerebral.
Os resultados mostraram que o tratamento com baixa dose de tetraidrocanabinol reduziu significativamente os depósitos de proteínas associadas ao Alzheimer, melhorou a comunicação entre os neurônios e preveniu o início do declínio cognitivo.
Esses efeitos foram ainda mais fortes quando o tetraidrocanabinol foi combinado com o anti-inflamatório. A combinação também ajudou a normalizar a atividade de genes que estavam desregulados no Alzheimer, incluindo genes ligados à inflamação e à função sináptica.

Em conclusão, o estudo sugere que a combinação de uma dose baixa de tetraidrocanabinol com um anti-inflamatório específico pode transformar um composto conhecido por seus efeitos colaterais em uma estratégia terapêutica promissora contra o Alzheimer.
Como ambos os medicamentos já são aprovados e utilizados clinicamente, essa abordagem tem alto potencial de ser testada rapidamente em estudos com humanos, especialmente para prevenir ou retardar o início da doença.
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A Combination of Low-Dose Δ9-THC and Celecoxib as a Therapeutic Strategy for Alzheimer’s Disease
Jian Zhang, Dexiao Zhu, Mei Hu, Mingzhe Pan, and Chu Chen
Aging and Disease. 18 December 2025.
DOI: 10.14336/AD.2025.1206
Abstract:
Alzheimer’s disease (AD) is the leading cause of dementia in the elderly, and no effective therapies are currently available to prevent, treat, or halt its progression. Δ9-Tetrahydrocannabinol (Δ9-THC), the primary psychoactive compound in marijuana, has been considered a potential therapeutic agent, but clear evidence for its ability to prevent cognitive decline is lacking. Previous studies have demonstrated that Δ9-THC-induced cognitive impairments are associated with the induction of cyclooxygenase-2 (COX-2). In this study, we aimed to evaluate whether Δ9-THC alone or in combination with Celecoxib, a selective COX-2 inhibitor, could reduce neuropathology and improve cognitive function in AD model animals. We observed that Δ9-THC (3.0 mg/kg), either alone or with Celecoxib (1.0 mg/kg), significantly reduced Aβ and tau pathologies, enhanced synaptic marker expression, and prevented the onset of cognitive decline. Notably, the combination treatment produced greater improvements in spatial learning and effectively mitigated Δ9-THC-induced neuroinflammatory responses. Furthermore, Δ9-THC reversed or attenuated the dysregulated expression of synaptic and immune/inflammation-related genes and restored the downregulated expression of genes linked to AD observed in both AD patients and AD animal models, with greater efficacy when combined with Celecoxib in AD model mice. These findings suggest that the combination of low-dose Δ9-THC and Celecoxib holds promise as an early intervention strategy for preventing AD onset or treating mild cognitive impairment (MCI). Importantly, both Δ9-THC (in the form of Dronabinol and Nabilone) and Celecoxib are FDA-approved medications already in clinical use, supporting the strong translational potential of this combination therapy and its feasibility for rapid advancement to clinical trials to assess its efficacy in preventing or delaying AD onset in humans.



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