Como o Cérebro Raciocina Quando as Palavras Desaparecem?

Pensamos usando palavras? Um novo estudo mostrou que pessoas que perderam grande parte de sua capacidade de falar ainda conseguem raciocinar normalmente. Essa descoberta desafia uma das ideias mais antigas da filosofia e revela que o cérebro pode pensar sem depender da linguagem.
Durante séculos, filósofos e cientistas debateram uma questão fascinante: será que conseguimos pensar sem usar palavras? Quando resolvemos um problema de lógica, realizamos um cálculo mental ou chegamos a uma conclusão, será que nosso cérebro está, na verdade, "conversando consigo mesmo"? Ou existe um sistema de pensamento que independe da linguagem?
Um novo estudo utilizou técnicas modernas de neuroimagem e analisou indivíduos com comprometimentos graves de linguagem para investigar essa questão; os resultados podem mudar a forma como entendemos o pensamento humano.
Os pesquisadores examinaram dois tipos de raciocínio. O primeiro é o raciocínio dedutivo, no qual chegamos a uma conclusão lógica com base em informações conhecidas. Por exemplo: "Todos os mamíferos têm coração. Um cachorro é um mamífero. Portanto, um cachorro tem coração".
O segundo é o raciocínio indutivo, que ocorre quando observamos vários exemplos e formulamos uma regra geral, como notar que o Sol nasce todos os dias e concluir que ele nascerá novamente amanhã. Ambos fazem parte do nosso cotidiano e são fundamentais para o aprendizado, o planejamento e a tomada de decisões.

Para descobrir como o cérebro realiza essas tarefas, os cientistas utilizaram a ressonância magnética funcional (fMRI), um exame capaz de mostrar quais regiões específicas se tornam mais ativas enquanto uma pessoa executa uma atividade mental específica. Os voluntários saudáveis resolveram diversos problemas de lógica enquanto seus cérebros eram monitorados.
Além disso, os pesquisadores avaliaram indivíduos com afasia grave, uma condição decorrente de lesão cerebral que compromete profundamente a capacidade de compreender ou produzir linguagem. Se a linguagem fosse necessária para o raciocínio lógico, esses indivíduos deveriam ter apresentado uma dificuldade significativa na resolução dos problemas.
Os resultados surpreenderam os pesquisadores. Durante os testes, as áreas responsáveis pela linguagem foram bastante inativas, enquanto os participantes resolveram problemas de lógica. Mais surpreendente ainda, os indivíduos com afasia, apesar de enfrentarem enormes desafios para falar e compreender frases, conseguem concluir as tarefas de cálculo lógico com um nível de desempenho muito semelhante ao de indivíduos sem comprometimentos de linguagem.
Isso indica que o cérebro pode continuar a raciocinar mesmo quando sua capacidade de utilizar palavras está severamente comprometida.

Cientistas também descobriram que diferentes formas de raciocínio utilizam circuitos cerebrais distintos. O raciocínio indutivo ativou regiões associadas ao planejamento, à atenção e à resolução geral de problemas. O raciocínio dedutivo, por sua vez, recrutou um conjunto diferente e específico de áreas cerebrais, distintas tanto das regiões relacionadas à linguagem quanto daquelas envolvidas em outras tarefas cognitivas. Em outras palavras, o cérebro parece possuir sistemas especializados para diferentes formas de pensar.
Essas descobertas reforçam a ideia de que o pensamento lógico não depende, necessariamente, da linguagem. Embora as palavras sejam essenciais para comunicar ideias, ensinar e compartilhar conhecimento, elas podem não ser o "motor" do raciocínio. Em vez disso, nosso cérebro pode empregar uma espécie de linguagem interna própria, composta por representações mentais que transcendem as palavras.
Se essa hipótese continuar a ser sustentada por pesquisas futuras, ela poderá transformar nossa compreensão sobre a inteligência, o aprendizado e o desenvolvimento infantil, e até mesmo orientar a forma como construímos sistemas de inteligência artificial capazes de raciocinar de maneira semelhante aos seres humanos.
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Evidence from formal logical reasoning reveals that the language of thought is not natural language
Hope Kean, Alexander Fung, Paris Jaggers, Jason Chen, Joshua S. Rule, Yael Benn, Joshua B. Tenenbaum, Steven T. Piantadosi, Rosemary A. Varley, and Evelina Fedorenko
Proceedings of the National Academy of Sciences. July 6, 2026, Vol. 123 | No. 28
DOI: 10.1073/pnas.2520095123
Abstract:
Humans are endowed with a powerful capacity for inductive and deductive logical thought: we easily form generalizations based on a few examples and draw conclusions from known premises. Humans also arguably have the most sophisticated communication system in the animal kingdom: natural language allows us to express complex and structured meanings. Some have therefore argued for a tight relationship between complex thought and language, postulating that reasoning, including logical reasoning, relies on linguistic representations. We systematically investigated the relationship between logical reasoning and language using two complementary approaches. First, we used noninvasive brain imaging (fMRI) to examine neural activity as healthy adults engaged in logical reasoning tasks. And second, we behaviorally evaluated logical abilities in individuals with extensive lesions to the language brain areas and consequent severe linguistic impairment. Our findings reveal that the language brain network is not engaged during logical reasoning, and patients with severe aphasia exhibit intact performance on logic tasks. Instead, inductive reasoning recruits the domain-general multiple demand network implicated broadly in goal-directed behaviors, whereas deductive reasoning draws on brain regions that are distinct from both the language and the multiple demand networks. Together, these results indicate that linguistic representations are neither utilized nor required for inductive or deductive logical reasoning.



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