Como a Meditação Altera a Forma Como o Fluido Se Move no Cérebro Auxiliando na Limpeza
- Lidi Garcia
- há 3 dias
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A meditação mindfulness é amplamente conhecida por seus benefícios psicológicos, como redução do estresse e melhora da atenção. Este estudo amplia essa compreensão ao mostrar que a meditação também pode afetar processos físicos fundamentais do cérebro. Os resultados indicam que a meditação de atenção focada pode modular a circulação do líquido cefalorraquidiano de forma semelhante ao sono, mas enquanto a pessoa permanece acordada. Isso sugere que a meditação pode funcionar como uma estratégia não farmacológica para apoiar a limpeza cerebral e potencialmente proteger contra os efeitos do envelhecimento e da neurodegeneração.
O cérebro possui um sistema próprio de circulação de fluidos, formado principalmente pelo líquido cefalorraquidiano (LCR) e pelo fluido intersticial. Esses neurofluidos desempenham um papel essencial na remoção de resíduos metabólicos, na distribuição de nutrientes e na manutenção da saúde cerebral.
Alterações nessa circulação estão associadas ao envelhecimento e a doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. Em especial, o aumento do fluxo anormal do líquido cefalorraquidiano e seu movimento de retorno pelo aqueduto cerebral têm sido observados como sinais de disfunção nesses estados.
Sabe-se que o sono exerce uma forte influência sobre a circulação dos neurofluidos, promovendo a limpeza do cérebro de forma mais eficiente. Durante o sono profundo, o fluxo do líquido cefalorraquidiano aumenta e se torna mais organizado, facilitando a remoção de substâncias potencialmente tóxicas.
No entanto, ainda não está claro se outros estados de consciência, como a meditação, poderiam produzir efeitos semelhantes enquanto a pessoa permanece acordada.
A meditação mindfulness, em particular, compartilha várias características fisiológicas com o sono, como redução da atividade mental espontânea e alterações na respiração e no estado de alerta.

Neste estudo, os pesquisadores investigaram se a meditação mindfulness do tipo atenção focada, uma prática na qual o indivíduo mantém a atenção sustentada em um objeto, como a respiração, poderia modificar a dinâmica dos neurofluidos de forma semelhante ao sono e oposta ao envelhecimento.
Para isso, foram comparados indivíduos sem experiência prévia em meditação e meditadores experientes, avaliando seus cérebros durante diferentes estados mentais, como devaneio mental (quando a mente vagueia livremente) e meditação propriamente dita.
O experimento utilizou técnicas avançadas de ressonância magnética. Para medir diretamente o fluxo do líquido cefalorraquidiano, foi empregada a ressonância magnética de contraste de fase, que permite quantificar a velocidade e o volume do líquido cefalorraquidiano que passa pelo aqueduto cerebral, um canal estreito que conecta os ventrículos do cérebro.
Além disso, foi usada a ressonância magnética funcional (BOLD), uma técnica que detecta flutuações associadas à atividade cerebral e à oxigenação do sangue, permitindo observar oscilações do líquido cefalorraquidiano próximo à base do crânio e da substância cinzenta.

Os participantes foram divididos em três grupos principais: adultos sem experiência em meditação avaliados durante devaneio mental comum, adultos sem experiência avaliados durante devaneio mental com controle da respiração, e meditadores experientes avaliados tanto durante devaneio mental quanto durante a meditação de atenção focada.
Esse desenho experimental permitiu separar os efeitos da meditação propriamente dita daqueles causados apenas por mudanças respiratórias ou repetição da tarefa.
Os resultados mostraram que, nos indivíduos sem experiência em meditação, não houve mudanças significativas no fluxo do líquido cefalorraquidiano em nenhuma das condições testadas. Em contraste, nos meditadores experientes, a prática da meditação de atenção focada reduziu o movimento total do líquido cefalorraquidiano pelo aqueduto cerebral.
Essa redução ocorreu principalmente devido à diminuição do fluxo regurgitante do líquido cefalorraquidiano em direção à cabeça, um padrão oposto ao observado no envelhecimento e na neurodegeneração. Em outras palavras, durante a meditação, o líquido cefalorraquidiano se moveu de forma mais controlada e menos desorganizada.

As análises de ressonância magnética funcional revelaram ainda que, durante a meditação, houve um aumento das flutuações lentas do líquido cefalorraquidiano próximo à junção entre o cérebro e a medula espinhal.
Essas flutuações estavam inversamente relacionadas à atividade da substância cinzenta, um padrão semelhante ao observado durante o sono profundo.
Esse achado sugere que a meditação mindfulness pode induzir um estado fisiológico específico em vigília, no qual o cérebro entra em um modo de funcionamento favorável à circulação dos neurofluidos e à manutenção da saúde cerebral.
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Neurofluid circulation changes during a focused attention style of mindfulness meditation
Bryce. Keating, David Vago, Kilian Hett, Ciaran Considine, Maria Garza, Caleb Han, Colin McKnight, Daniel O. Claassen, and Manus J. Donahue
PNAS. December 3, 2025, 122 (49) e2504961122
Abstract|:
Neurofluids, including cerebrospinal fluid (CSF) and interstitial fluid, circulate through regulated central nervous system pathways to clear cerebral waste and support brain health, with elevated CSF flow hyperdynamicity and regurgitation through the cerebral aqueduct associating with aging and neurodegeneration. Sleep exerts state-dependent effects on neurofluid circulation, yet similar modulation during unique waking states, such as meditation, remains underexplored. Notably, mindfulness meditation shares several regulatory features with sleep, with core meditation practices representing distinct arousal states. We investigated whether the focused attention (FA) style of mindfulness meditation modulates neurofluid dynamics directionally opposite to aging and consistent with sleep. Using phase-contrast MRI, we assessed absolute CSF flow and velocity through the aqueduct, and using blood oxygenation level–dependent (BOLD) MRI, we assessed CSF fluctuations near the cervicomedullary junction together with total supratentorial gray matter fluctuations. Assessments were repeated in meditation-naïve adults during mind wandering (MW) without (n = 13; repeatability controls) and with (n = 14; breath controls) respiration rate modulation and in adept meditators (n = 23) during MW and FA meditation. No aqueduct CSF flow changes were observed in control groups. In meditators, aqueduct absolute CSF flow motion decreased from MW to FA meditation (4.60 ± 2.27 mL/min to 4.17 ± 2.10 mL/min, P = 0.005) owing to reduced regurgitant cranially directed CSF flow velocity. On BOLD, this paralleled increased low-frequency (0.0614 to 0.0887 Hz) CSF fluctuations (P = 0.0138), which were inversely correlated with gray matter fluctuations during FA meditation. Findings suggest that mindfulness meditation may represent a nonpharmacological, waking state capable of modulating neurofluid dynamics in a directionally similar manner to sleep and opposite to aging and neurodegeneration.



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