🎗️A Solidão Pode Estar Colocando a Saúde Mental Dos Veteranos Em Risco

Quase 6 em cada 10 veteranos americanos relatam algum nível de solidão, e quanto maior a solidão, maior o peso do sofrimento psicológico. Um novo estudo encontrou uma associação forte entre isolamento social, depressão, ansiedade, estresse pós-traumático e pensamentos suicidas. Os resultados chamam atenção para algo que muitas vezes é invisível: a ausência de conexão social também pode ser um importante sinal de alerta para a saúde mental.
A solidão pode ser muito mais do que simplesmente estar sozinho. Ela acontece quando uma pessoa sente que não tem companhia suficiente, que está isolada ou que não pertence a uma rede de relações significativa. Entre veteranos militares dos Estados Unidos, esse sentimento parece ser particularmente importante.
Uma pesquisa anterior havia mostrado que mais da metade dos veteranos apresentava pelo menos algum nível de solidão. Agora, pesquisadores quiseram saber se esse problema havia mudado nos últimos anos e, principalmente, se níveis maiores de solidão estavam associados a problemas como depressão, ansiedade, estresse pós-traumático e pensamentos relacionados ao suicídio.

Para responder a essas perguntas, os pesquisadores analisaram dados de uma grande pesquisa nacional realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. Participaram inicialmente 2.636 veteranos americanos, selecionados por meio de um painel de pesquisa que reúne dezenas de milhares de famílias dos Estados Unidos.
Esse sistema permite construir uma amostra que represente melhor a população de veteranos do país. Vinte e quatro pessoas não tinham informações suficientes sobre solidão e foram retiradas das análises, deixando 2.612 participantes.
Mas como saber se alguém está solitário? Os pesquisadores utilizaram uma escala curta com três perguntas. Os participantes indicavam com que frequência se sentiam excluídos, isolados ou sem companhia, escolhendo respostas que iam de “quase nunca” até “frequentemente”. A partir dessas respostas, os pesquisadores dividiram os participantes em três grupos.
O primeiro reunia pessoas que praticamente nunca se sentiam sozinhas. O segundo incluía aquelas que apresentavam algum nível de solidão moderada. O terceiro reunia as pessoas que relatavam solidão frequente. Essa divisão permitiu comparar diretamente a saúde mental de pessoas com diferentes níveis de solidão.

Depois, os pesquisadores verificaram se esses grupos também apresentavam diferenças em várias medidas relacionadas à saúde mental. Eles analisaram, entre outras coisas, depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, uso prejudicial de álcool e pensamentos suicidas no último ano. Também investigaram histórico de tentativa de suicídio e pensamentos ou intenção de suicídio no futuro.
Para evitar que diferenças demográficas, experiências militares, exposição a traumas ou outras características explicassem sozinhas os resultados, os pesquisadores utilizaram modelos estatísticos que permitiram levar vários desses fatores em consideração simultaneamente. Assim, puderam perguntar algo mais específico: mesmo depois de considerar essas outras características, a solidão continuava associada aos problemas de saúde mental?
Os resultados foram preocupantes. 58,7% dos veteranos apresentavam pelo menos solidão moderada, sendo 36,3% classificados como moderadamente solitários e 22,4% como frequentemente solitários. Quando os pesquisadores compararam esses números com os dados de 2019 e 2020, perceberam que a solidão frequente havia aumentado de 19,7% para 22,4%.
Os pesquisadores estimaram que essa diferença representa aproximadamente 460 mil veteranos a mais vivendo com solidão frequente. Já a parcela com solidão moderada não mudou de maneira estatisticamente significativa. É importante lembrar que esse aumento não pode ser atribuído diretamente à pandemia ou a qualquer outra causa específica: os autores levantam essas possibilidades, mas o estudo não foi desenhado para descobrir por que a solidão aumentou.

A relação com a saúde mental foi ainda mais marcante. Quanto maior o nível de solidão, maior era a probabilidade de encontrar diversos problemas psicológicos. Entre os veteranos que raramente se sentiam sozinhos, 3,8% relataram pensamentos suicidas no último ano.
Esse número passou para 14,8% entre aqueles com solidão moderada e chegou a 32,3% entre os frequentemente solitários. Depois dos ajustes estatísticos, a relação entre solidão e vários problemas permaneceu. Entre os veteranos frequentemente solitários, algumas associações foram particularmente fortes: a chance de apresentar depressão foi quase dez vezes maior do que entre aqueles que raramente se sentiam sozinhos, enquanto a associação com intenção suicida futura foi ainda mais elevada.
Esses números representam associações estatísticas, não uma prova de que a solidão provoque diretamente esses problemas. O estudo analisou pessoas em um determinado período, portanto não consegue determinar o que veio primeiro: a solidão, o sofrimento psicológico ou ambos.

Mesmo com essa limitação, os pesquisadores consideram a solidão um possível alvo importante para prevenção e cuidados em saúde mental. A ideia é que, se a solidão puder ser identificada durante o atendimento, talvez seja possível oferecer intervenções antes que o sofrimento se agrave. Entre as possibilidades estão grupos de apoio, programas de contato entre veteranos, atividades comunitárias e estratégias que ajudem as pessoas a reconstruir vínculos sociais.
O estudo não mostra que simplesmente “ter mais amigos” resolverá problemas complexos de saúde mental, mas reforça uma ideia importante: as conexões sociais podem fazer parte da proteção da saúde mental. Para uma população que pode enfrentar mudanças profundas depois do serviço militar, reconhecer e tratar a solidão pode ser uma peça importante dentro de uma estratégia maior de prevenção do sofrimento psicológico e do suicídio.
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A Growing Epidemic of Loneliness Among US Military Veterans: National Trends, Psychiatric Burden, and Suicide Risk
Robert H. Pietrzak, Ian C. Fischer, and Peter J. Na
J Clin Psychiatry 2026;87(3):26br16494
Abstract:
Loneliness is prevalent and clinically significant among US military veterans. Nationally representative data from 2019–2020 indicate that 56.9% of US veterans endorsed at least moderate levels of loneliness, with nearly 1 in 5 (19.7%) experiencing frequent loneliness.1 Loneliness is independently associated with substantial health burden and heightened suicide risk,1–5 underscoring its importance as a transdiagnostic risk factor.
Given recent changes in the social context for veterans, including COVID-19 pandemic effects6 and demographic shifts toward younger, female, and racially/ethnically diverse veterans,7 groups at elevated risk for loneliness,1 updated data are needed to inform prevention, treatment, and policy initiatives aimed at reducing loneliness and its consequences.2,8,9 This study used 2025–2026 National Health and Resilience in Veterans Study (NHRVS) data to estimate loneliness prevalence and changes since 2019–2020 and examine the association of loneliness with psychiatric disorders and suicidal thoughts and behaviors. Data were analyzed from the 2025–2026 NHRVS, a nationally representative survey of 2,636 US veterans conducted December 16, 2025–January 12, 2026. Of the 2,636 veterans surveyed, 24 (0.9%) had missing data on the loneliness measure and were excluded from analyses, yielding an effective analytic sample of 2,612. The sample was drawn from KnowledgePanel, a probability-based panel of >50,000 US households.10 Poststratification weights were applied in inferential analyses to enable generalizability to the US veteran population.11 All participants provided electronic informed consent; the study was approved by the VA Connecticut Healthcare System Human Subjects Committee. Loneliness was assessed using a 3-item measure,12 which evaluates the degree to which respondents feel left out, isolated, and lacking in companionship (response options: 1=hardly ever to 3=often). Consistent with prior NHRVS studies,1 loneliness levels were categorized as “hardly ever lonely” (score of 1 on all items), “moderate loneliness” (score of 2 on at least 1 item), or “frequent loneliness” (score of 3 on at least 1 item) to facilitate comparison and clinical interpretability. Other measures are described in the Table 1 footnote.
Prevalence estimates of loneliness were calculated and compared between survey waves (2019–2020 vs 2025–2026) using 2-proportion z-tests. Bivariate analyses compared study variables by loneliness level. Multivariable regression models examined independent associations between loneliness levels and mental health measures. A total of 58.7% (95% CI =56.4%–61.0%; n= 1,467) of veterans reported moderate (36.3%, 95% CI =34.1%–38.6%; n= 961) or frequent (22.4%, 95% CI =20.4%–24.6%; n= 506) loneliness.
Compared with 2019–2020 estimates (37.2% moderate; 19.7% frequent), the prevalence of frequent loneliness increased significantly (z=2.65, P=.008), whereas the prevalence of moderate loneliness did not differ (z=0.74, P=.46). Compared with hardly ever lonely veterans, moderately lonely veterans had significantly greater odds of 5 of 8 mental health measures: depression, anxiety, posttraumatic stress disorder, hazardous alcohol use, and past-year suicidal ideation, with odds ratios ranging from 1.6 to 3.3; drug use disorder, lifetime suicide attempt, and future suicidal intent did not differ significantly. Compared with hardly ever lonely veterans, frequently lonely veterans had significantly greater odds of 6 of 8 measures, with the exceptions being drug use disorder and lifetime suicide attempt; odds ratios ranged from 2.0 to 32.1. Finally, relative to moderately lonely veterans, frequently lonely veterans had significantly greater odds of all measures except hazardous alcohol use, with particularly pronounced associations with depression (OR=9.7) and future suicidal intent (OR =15.9; Table 1). Loneliness remains highly prevalent among US veterans, with nearly 6 in 10 reporting at least moderate loneliness and more than 1 in 5 reporting frequent loneliness. The prevalence of frequent loneliness increased from 19.7% in 2019–20201 to 22.4% in 2025–2026, representing an estimated additional 460,000 affected veterans based on population benchmarks.11 This increase may partly reflect enduring effects of the COVID-19 pandemic6; shifts in the demographic composition of the veteran population toward younger, female, and more racially and ethnically diverse groups1,7,13; broader societal and economic stressors; and potential period or reporting effects that may influence willingness to endorse loneliness and emotional distress.14–16 A clear dose-response association was observed between loneliness and mental health measures, with higher loneliness levels associated with greater odds of psychiatric disorders and suicidality. For example, the prevalence of suicidal ideation increased systematically as a function of loneliness levels (3.8% vs 14.8% vs 32.3%), even after adjusting for sociodemographic, military, trauma, and health factors. Although limited by reliance on self-report measures, a cross-sectional design that precludes directional inference, and the possibility that adjustment for psychiatric conditions may have attenuated associations with suicide-related outcomes, these findings suggest that loneliness represents a potentially modifiable intervention target for screening, prevention, and intervention efforts (eg, peer support initiatives, social prescribing, and group-based and community engagement interventions),17–20 with implications for VA clinical practice and population-level policy initiatives.



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