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A Origem da Fala Humana: Cultura, Biologia e Evolução Trabalhando Juntas

  • Foto do escritor: Lidi Garcia
    Lidi Garcia
  • 9 de jan.
  • 4 min de leitura

Esta pesquisa mostra que a linguagem humana não surgiu de uma vez, mas foi construída ao longo do tempo. Ela se desenvolveu a partir de habilidades já presentes em outras espécies, como a comunicação e a interação social, que foram ampliadas e reorganizadas pela cultura e pela vida em sociedade humana. O estudo destaca que a linguagem é resultado da combinação entre biologia e cultura, moldada pela forma como os seres humanos pensam, aprendem e se relacionam.


Desde que os seres humanos desenvolveram a capacidade de usar a linguagem, surgiu também o desejo de entender de onde ela veio e como se formou ao longo da evolução. Embora a linguagem humana seja altamente sofisticada e tenha características únicas, pesquisas recentes mostram que a linguagem não é algo totalmente exclusivo da nossa espécie. 


Alguns animais também apresentam formas complexas de comunicação, o que leva à ideia de que a linguagem humana pode ter se desenvolvido a partir de capacidades compartilhadas com outras espécies.


Esta pesquisa descreve uma estrutura científica para estudar como a linguagem evoluiu. Essa estrutura combina fatores culturais e fatores biológicos, porque a linguagem não depende apenas de genes ou apenas de aprendizado social, mas da interação entre os dois. 


Os autores mostram essa ideia usando três estudos de caso, cada um abordando um aspecto diferente da linguagem humana: a capacidade de aprender sons, o surgimento das regras estruturais das línguas e os fundamentos sociais da comunicação.



O primeiro estudo de caso analisa como seres humanos aprendem a produzir sons da fala. Essa habilidade é chamada de aprendizagem vocal. Ela envolve a capacidade de ouvir, imitar e ajustar sons ao longo do tempo. Nos seres humanos, essa habilidade é essencial para aprender a falar, mas ela não se desenvolveu apenas em nossa espécie. 


Algumas aves, como os pássaros canoros, assim como morcegos, elefantes, cetáceos e pinípedes, também apresentam essa habilidade. Ao observar esses animais e ao combinar estudos genéticos, pesquisas neurobiológicas e análises de DNA antigo, os cientistas propõem que a nossa capacidade vocal surgiu a partir da modificação e recombinação de sistemas biológicos mais antigos, que já existiam antes da linguagem humana evoluir.



O segundo estudo de caso explora o surgimento da estrutura linguística. Isso inclui padrões e regras, como gramática, sintaxe e organização de palavras. Essa característica é considerada uma das marcas mais importantes da linguagem humana. 


Os cientistas estudaram como línguas surgem em condições em que elas não existiam antes, por exemplo, em comunidades com linguagem de sinais criada espontaneamente. Também realizaram experimentos em laboratório que imitam a evolução cultural da linguagem ao longo de várias gerações e compararam o comportamento linguístico humano com o de outras espécies, como primatas e aves. 


Essa abordagem mostra que a estrutura linguística depende de uma combinação de fatores biológicos, cognitivos e culturais. Algumas dessas capacidades aparecem isoladamente em outras espécies, mas apenas nos humanos elas se juntam de maneira que permita uma linguagem altamente estruturada.



O terceiro estudo de caso foca na base social da comunicação. A linguagem humana não é apenas um sistema de sons e regras; ela também é impulsionada pela necessidade social de compartilhar informações, ensinar, cooperar e criar vínculos. 


Embora animais como pássaros canoros também aprendam comunicação de forma social e transmitam sinais entre gerações, os seres humanos demonstram uma motivação particularmente forte e espontânea para compartilhar conhecimento, o que raramente é observado em outras espécies. Essa motivação pode ter sido um passo decisivo no surgimento da linguagem.


Juntos, os estudos de caso mostram que a linguagem humana provavelmente surgiu a partir da combinação e transformação de capacidades já presentes em outras espécies, mas reorganizadas ao longo da evolução humana. 



Além disso, a transmissão cultural, ou seja, aprender com os outros e passar o conhecimento adiante,  teve um papel tão importante quanto a evolução biológica. Por isso, os autores propõem que a linguagem deve ser entendida em três escalas de tempo: a escala individual, quando cada pessoa aprende a linguagem; a escala cultural, quando a linguagem muda ao longo das gerações; e a escala evolutiva, quando mudanças biológicas tornam possíveis novas formas de comunicação. Essas escalas não funcionam isoladamente, mas influenciam umas às outras.


A pesquisa também sugere que sistemas de recompensa no cérebro podem ter desempenhado um papel essencial. Isso significa que o desenvolvimento da linguagem pode ter sido favorecido porque comunicar-se bem traz benefícios sociais e emocionais, como aceitação do grupo, cooperação e sobrevivência. Dessa forma, a motivação interna para comunicar pode ter sido tão importante  quanto a capacidade física e cognitiva para produzir sons e criar estruturas linguísticas.



No geral, essa abordagem mostra que entender a evolução da linguagem exige a colaboração de diversas áreas científicas, como biologia, linguística, psicologia, genética e antropologia. Essa integração ajuda a construir um quadro mais completo sobre como uma das habilidades mais importantes da espécie humana se formou.



LEIA MAIS:


What enables human language? A biocultural framework

INBAL ARNON,  LIRAN CARMEL, NICOLAS CLAIDIÈRE, W. TECUMSEH FITCH, SUSAN GOLDIN-MEADOW, SIMON KIRBY, 

KAZUO OKANOYA, LIMOR RAVIV, LUCIE WOLTERS, and SIMON E. FISHER 

SCIENCE, 20 Nov 2025, Vol 390, Issue 6775

DOI: 10.1126/science.adq8303


Abstract:


Explaining the origins of language is a key challenge in understanding ourselves as a species. We present an empirical framework that draws on synergies across fields to facilitate robust studies of language evolution. The approach is multifaceted, seeing language emergence as dependent on the convergence of multiple capacities, each with their own evolutionary trajectories. It is explicitly biocultural, recognizing and incorporating the importance of both biological preparedness and cultural transmission as well as interactions between them. We demonstrate this approach through three case studies that examine the evolution of different facets involved in human language (vocal production learning, linguistic structure, and social underpinnings).

 
 
 

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