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A Guerra Acaba No Campo De Batalha, Mas Continua Na Mente: A Crise Silenciosa Enfrentada Por Voluntários Que Combateram Na Ucrânia

  • 20 de jul.
  • 4 min de leitura

Eles sobreviveram aos combates mais intensos da guerra na Ucrânia, mas muitos voltaram para casa enfrentando outro inimigo: traumas psicológicos, culpa, ansiedade e dificuldade para conseguir atendimento médico. Um novo estudo revela que esses veteranos voluntários podem estar sendo esquecidos pelos sistemas de saúde.


Desde o início da guerra na Ucrânia, milhares de estrangeiros viajaram voluntariamente para combater ao lado das forças ucranianas. Entre eles estavam muitos veteranos militares dos Estados Unidos e do Reino Unido, homens e mulheres que já haviam servido em conflitos como Iraque e Afeganistão. 


No entanto, ao contrário das missões militares oficiais, esses voluntários entraram em uma guerra muito diferente: um conflito marcado pelo uso intenso de drones, inteligência artificial, ataques constantes e um cenário extremamente instável, muitas vezes sem o treinamento, o suporte médico e a estrutura oferecidos por seus exércitos de origem.


Os pesquisadores decidiram investigar o que aconteceu com esses veteranos após retornarem para casa. Embora muita atenção tenha sido dada aos aspectos militares da guerra, pouco se sabia sobre como essa experiência afetou a saúde física e mental dos voluntários estrangeiros.


A preocupação dos cientistas era que muitos deles estivessem sofrendo em silêncio, sem acesso aos serviços de saúde destinados aos militares, já que sua participação no conflito ocorreu de forma voluntária e fora das missões oficiais.



Para responder a essa questão, a equipe recrutou 31 veteranos militares dos Estados Unidos e do Reino Unido que haviam atuado voluntariamente na Ucrânia entre outubro e dezembro de 2025. Os participantes responderam a questionários científicos amplamente utilizados para avaliar sintomas de transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade, depressão, consumo problemático de álcool, qualidade de vida e um fenômeno conhecido como lesão moral. 


Além disso, 21 desses veteranos também participaram de entrevistas abertas, nas quais puderam relatar, com suas próprias palavras, as experiências vividas durante a guerra, as dificuldades enfrentadas e os desafios encontrados ao buscar atendimento médico após o retorno.


A chamada lesão moral merece destaque porque é diferente do transtorno de estresse pós-traumático. Enquanto este costuma surgir após situações de extremo perigo ou ameaça à vida, a lesão moral aparece quando a pessoa presencia ou participa de acontecimentos que entram em profundo conflito com seus valores éticos e morais.


Isso pode gerar culpa intensa, vergonha, sensação de fracasso, perda de propósito e dificuldade para reconstruir a própria identidade, mesmo muito tempo depois do fim do conflito.



Os resultados revelaram um cenário preocupante. Muitos veteranos apresentavam fortes indícios de transtorno de estresse pós-traumático, sintomas de ansiedade e depressão, uso abusivo de álcool, sofrimento relacionado à lesão moral e uma qualidade de vida bastante reduzida. Nas entrevistas, eles descreveram uma guerra muito diferente daquela vivida em conflitos anteriores. 


Relataram ataques constantes por drones, combates em trincheiras, elevado número de ferimentos físicos e uma sensação permanente de vulnerabilidade. Muitos afirmaram que o atendimento médico disponível durante o conflito era insuficiente e que, ao retornarem para seus países, encontraram novas dificuldades para conseguir tratamento psicológico ou psiquiátrico. Alguns disseram ter sido recusados pelos próprios serviços de apoio a veteranos por não terem participado de uma missão militar oficial.


Diante da falta de assistência institucional, muitos relataram que seu principal apoio emocional passou a ser outros veteranos que viveram experiências semelhantes. Os pesquisadores alertam que isso revela uma importante lacuna nos sistemas de saúde. 



Embora o estudo tenha sido pequeno e não permita generalizar os resultados para todos os voluntários da guerra, ele chama atenção para um grupo que pode estar "invisível" para os serviços de saúde. Segundo os autores, à medida que conflitos modernos se tornam cada vez mais tecnológicos e atraem voluntários internacionais, será necessário desenvolver formas específicas de identificar, acolher e tratar essas pessoas, evitando que carreguem por muitos anos feridas que não aparecem em exames físicos, mas que podem ser profundamente incapacitantes.



LEIA MAIS:


Volunteering for Ukraine: scoping the operational experiences and impacts among UK and US veterans

Victoria Williamson, Gavin M. Campbell, Nadav Liam Modlin, Walter Busuttil, Neil Greenberg, and Dominic Murphy

European Journal of Psychotraumatology. 17(1). 22 March 2026DOI: 10.1080/20008066.2026.2641410


Abstract: 


Since the armed conflict in Ukraine escalated in 2022, UK and US military veterans have volunteered in substantial numbers to support the Ukrainian Armed Forces. They are operating in an exceptionally intense and technologically advanced environment, often exposed to high levels of combat. Little is known about the health impact of this voluntary service. We carried out a mixed-methods observational study of UK and US military veterans who self-reported travelling to Ukraine to support the Ukrainian Armed Forces. Participants were recruited between October and December 2025. Measures assessed probable post-traumatic stress disorder (PTSD), common mental health disorders (CMD), alcohol misuse, moral injury, and health-related quality of life. Open response items were used to qualitatively explore motivations for volunteering, experiences of service in Ukraine, and access to healthcare. Thirty-one UK and US military veterans completed psychometric measures and 21 provided qualitative data. High levels of probable PTSD, CMD alcohol misuse, and moral injury-related distress were identified, alongside low health-related quality of life. Veterans described extremely intense combat exposure, including drone warfare and trench fighting, and frequent physical injury. Physical healthcare was often described as poor or inadequate. Mental health care was widely sought but rarely accessible, both in Ukraine and after return home, with veterans reporting being turned away from support services. Consequently, emotional support primarily came from peers rather than formal care systems. This study provides early evidence on the experiences and health needs of UK and US veterans who volunteered in Ukraine, an under-researched group falling outside existing military care structures. Many report significant unmet mental and physical health needs and face barriers to care both in Ukraine and after returning home. Without targeted support, these veterans risk remaining invisible within health systems, highlighting the need for coordinated pathways and prioritised clinical care.

 
 
 

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