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Trabalhar Fisicamente é Diferente de Fazer Exercício: O Que Isso Tem a Ver Com Demência?

há 19 horas
5 min de leitura

Uma análise de 74 estudos, envolvendo mais de 4,2 milhões de pessoas, encontrou uma relação surpreendente entre atividade física e demência. Exercícios realizados no tempo livre estavam associados a menor risco, enquanto atividades físicas relacionadas ao trabalho e ao deslocamento apareceram associadas a maior risco. Mas os pesquisadores alertam: isso não significa que atividade física ocupacional cause demência. O ambiente, o estresse, as condições de trabalho e vários outros fatores podem ajudar a explicar essa diferença.


Quando pensamos em atividade física, é comum imaginar que quanto mais uma pessoa se movimenta, melhor será sua saúde. Mas um novo estudo sugere que a história pode ser mais complicada quando falamos sobre demência.


Pesquisadores analisaram dezenas de estudos e descobriram que a relação entre atividade física e risco de demência parecia depender de onde e por que a pessoa se movimentava. 


Atividades físicas realizadas no tempo livre estavam associadas a um menor risco de demência, enquanto atividades realizadas durante o trabalho ou no deslocamento estavam associadas a um risco maior. Isso não significa, porém, que trabalhar fisicamente cause demência. Os resultados mostram apenas uma associação e podem envolver muitos outros fatores.



Para investigar essa questão, os pesquisadores fizeram uma revisão sistemática, um tipo de estudo que reúne e avalia de maneira organizada as pesquisas já publicadas sobre determinado assunto. Eles procuraram estudos em seis grandes bancos de dados científicos, buscando pesquisas que acompanhassem adultos ao longo do tempo e registrassem tanto a atividade física quanto o desenvolvimento posterior de problemas cognitivos ou demência. 


Depois de analisar milhares de registros, encontraram 17 estudos novos que atendiam aos critérios definidos. Esses trabalhos foram combinados com outros 57 estudos encontrados em uma revisão anterior, totalizando 74 estudos e mais de 4,2 milhões de participantes. Os participantes tinham, em média, cerca de 67 anos e foram acompanhados por aproximadamente dez anos.


Mas os pesquisadores não trataram toda atividade física como se fosse igual. Eles separaram os movimentos realizados durante o tempo de lazer, nas tarefas domésticas, no trabalho e durante o deslocamento, como caminhar ou andar de bicicleta para chegar a algum lugar. Essa divisão é importante porque duas pessoas podem realizar uma quantidade semelhante de atividade física, mas em circunstâncias completamente diferentes. 



Uma pessoa pode fazer uma caminhada porque escolheu se exercitar e outra pode passar várias horas realizando tarefas físicas repetitivas ou trabalhando em pé. Para cada categoria, os pesquisadores compararam a frequência de demência entre pessoas com níveis diferentes de atividade e calcularam uma medida chamada risco relativo. De forma simples, esse número permite estimar se determinado grupo apresentou mais ou menos casos do que outro.


Os resultados mostraram que, de maneira geral, pessoas fisicamente mais ativas apresentaram cerca de 20% menos risco de desenvolver demência por qualquer causa durante o período analisado. O risco também foi menor para a doença de Alzheimer e para a demência vascular. 


Porém, quando os pesquisadores separaram os diferentes tipos de atividade, a situação mudou. A atividade física realizada no lazer esteve associada a aproximadamente 24% menos risco de demência. Já a atividade física relacionada ao trabalho esteve associada a cerca de 20% mais risco, enquanto a atividade física durante o deslocamento esteve associada a aproximadamente 10% mais risco. 


A atividade doméstica também apareceu associada a um risco menor, embora essa conclusão tenha sido baseada em apenas um estudo, portanto deve ser interpretada com muito mais cautela.



Por que uma atividade física pode aparecer associada a benefícios e outra a um risco maior? O estudo não consegue responder definitivamente a essa pergunta. É possível que atividades ocupacionais e de deslocamento estejam relacionadas a outras características, como condições de trabalho, nível socioeconômico, estresse, exposição a poluentes, longas jornadas ou menor possibilidade de escolher quando e como realizar a atividade. 


Também existe a possibilidade de diferenças entre os próprios participantes influenciarem os resultados. Além disso, a certeza das evidências foi considerada baixa ou muito baixa para os diferentes tipos de atividade. 


Portanto, a principal mensagem não é que exercício faz mal quando é realizado no trabalho, mas que o contexto da atividade física pode ser importante e que simplesmente contar quanto uma pessoa se movimenta talvez não seja suficiente para compreender sua relação com a saúde cerebral. Estudos futuros precisarão investigar melhor quais fatores estão por trás dessas associações.



LEIA MAIS: 


Domain-specific physical activity levels and risk of dementia: a systematic review and meta-analysis

Natan Feter, Paula Iso-Markku, Tiladia Markarian, Dylan M Luong, Jack Gunnink, Natália Schröder, Eduardo Lucia Caputo, Jayne Feter, Anamika Nanda, Sarah Hourihan, Gustavo S da Silva, Ashley Ventura, Daniela Benzano Bumaguin, Yann C Klimentidis, Gene E Alexander, Daniel Umpierre, Pedro C Hallal, Airton José Rombaldi, and David A Raichlen

The Lancet Public Health. Volume 11, Issue 9E650-E664. September 2026DOI: 10.1016/S2468-2667(26)00142-8


Abstract: 


Associations between physical activity and distinct health outcomes vary by domain (eg, leisure-time, occupational, household, or commuting); however, comparable evidence on dementia risk remains scarce. We aimed to examine the associations between domain-specific physical activity and risk of all-cause dementia, Alzheimer's disease, and vascular dementia. In this systematic review and meta-analysis, we systematically searched PubMed, CINAHL, Scopus, PsycINFO, SPORTDiscus, and Web of Science for cohort and case–control studies published between Jan 1, 2021, and May 2, 2026. We also included studies from a previous systematic review (from database inception to Oct 21, 2021) with the same search strategy and eligibility criteria. Eligible studies included adults aged 20 years or older with cognitive function assessed at baseline, physical activity measures, and at least 1 year of follow-up. Studies were appraised with the Rayyan web-based platform and summary data (relative risk [RR] and 95% CI) were extracted by up to six independent reviewers. Outcomes were all-cause dementia, Alzheimer's disease, and vascular dementia, analysed by multilevel random-effects meta-analyses. Study quality was assessed with an adapted scale. This study is registered with PROSPERO (CRD420251010899). Among 6270 identified records, 17 studies were eligible for inclusion. Combined with 57 studies in the previous systematic review, we included 74 studies totalling 4 227 297 participants (2 230 046 [52·8%] female and 1 997 251 [47·2%] male; median age 67·3 years [IQR 56·5–74·1]). 40 (54%) studies were of moderate or high quality and 69 (93%) were conducted in high-income countries. Over a median follow-up of 10·0 years (IQR 5·1–21·3), high physical activity levels were associated with reduced risks of all-cause dementia (n=146 effect sizes; RR 0·80 [95% CI 0·75–0·86]; I2=97·4%), Alzheimer's disease (n=59; 0·79 [0·70–0·90]; I2=91·3%), and vascular dementia (n=21; 0·71 [0·58–0·87]; I2=77·5%); however, associations varied by domain. Leisure-time (k=20 studies; n=33 effect sizes; RR 0·76 [95% CI 0·65–0·88]; I2=96·6%) and household (k=1; 0·85 [0·74–0·98]) physical activity were associated with a reduced risk of all-cause dementia. By contrast, occupational (k=5; 1·20 [1·01–1·42]; I2=85·6%) and commuting (k=2; 1·10 [1·03–1·18]; I2=0·0%) physical activity were associated with an increased risk. Dose–response meta-analyses showed non-linear inverse associations for leisure-time and occupational activity. Certainty of evidence ranged from very low to low across domains. The association between physical activity and dementia risk might be domain-specific. Public health strategies for the prevention of dementia should address equitable access to safe spaces for exercise, adequate leisure time, and mitigation strategies in occupational settings. US National Institutes of Health, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul; the Brazilian National Council for Scientific and Technological Development; and Department of Science and Technology of Secretariat of Science, Technology, Innovation and Health Complex of Ministry of Health of Brazil.

 
 
 

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