Por Que Algumas Crianças Autistas Não Desenvolvem a Fala, Mesmo Com Intervenção Precoce?
- Lidi Garcia
- 4 de fev.
- 4 min de leitura

Este estudo analisou dados de mais de 700 crianças autistas que receberam intervenções precoces focadas no desenvolvimento da linguagem oral. Embora a maioria tenha apresentado progresso, cerca de um terço permaneceu com fala limitada ou ausente. Dificuldades iniciais em cognição, habilidades sociais e imitação estiveram associadas à falta de avanço. Os resultados destacam a necessidade de intervenções mais individualizadas.
Aproximadamente uma em cada três crianças em idade escolar diagnosticadas com transtorno do espectro autista não utiliza a linguagem falada como principal forma de comunicação. Embora as habilidades de linguagem no autismo variem bastante e possam mudar conforme o contexto, há um grupo específico de crianças que chega à idade escolar com fala muito limitada ou inexistente.
Esse grupo é clinicamente importante, pois a ausência de linguagem oral nessa fase da vida está associada a maiores dificuldades ao longo do desenvolvimento e da vida adulta.
Crianças que não desenvolvem a fala de forma consistente durante a fase pré-escolar tendem a apresentar mais desafios acadêmicos, sociais e adaptativos no futuro. Por isso, desde os primeiros estudos sobre intervenção no autismo, o desenvolvimento da linguagem oral tem sido considerado um dos principais objetivos terapêuticos.
Ao longo das últimas décadas, diferentes tipos de intervenções precoces mostraram resultados positivos para muitas crianças, especialmente quando iniciadas cedo e realizadas de forma estruturada.

Apesar desses avanços, uma parcela significativa das crianças não apresenta progresso expressivo na linguagem oral, mesmo após receber intervenções consideradas eficazes. Os estudos existentes mostram resultados muito variados sobre quantas crianças continuam sem falar após a intervenção precoce, e ainda há pouca clareza sobre quem são essas crianças e quais características estão associadas à falta de progresso.
Evidências iniciais sugerem que dificuldades em habilidades básicas, como cognição, interação social, imitação e comunicação pré-verbal, podem estar relacionadas à persistência da fala mínima.
A falta de informações consistentes sobre a proporção e o perfil dessas crianças representa um grande obstáculo para a personalização das intervenções. Entender por que algumas crianças avançam na linguagem oral e outras não é essencial para ajustar estratégias terapêuticas, definir expectativas realistas e melhorar os resultados a longo prazo.
Este estudo foi desenvolvido justamente para preencher essas lacunas. Os pesquisadores realizaram uma análise retrospectiva em larga escala para investigar quantas crianças autistas não adquiriram linguagem oral, mesmo após receberem intervenções precoces baseadas em evidências, e para identificar características comuns entre aquelas que avançaram e aquelas que não avançaram no desenvolvimento da fala.
Para isso, foi utilizado um grande conjunto de dados reunindo informações individuais de setecentas e sete crianças pré-escolares no espectro do autismo. Os dados analisados neste estudo foram obtidos a partir de programas de intervenção precoce realizados em centros de pesquisa universitários. As crianças incluídas no estudo haviam recebido tratamentos estruturados e baseados em evidências científicas, nos quais o desenvolvimento da linguagem oral era um objetivo central.

O progresso da linguagem oral foi avaliado de forma cuidadosa e combinando diferentes fontes de informação. Os pais relataram como seus filhos se comunicavam no dia a dia, e essas informações foram confirmadas por meio de avaliações diretas realizadas por profissionais e pela análise de amostras de linguagem espontânea das crianças, observadas em contextos naturais.
Além da linguagem oral, os pesquisadores também analisaram outras habilidades presentes no início da intervenção, como cognição, habilidades sociais, comportamento adaptativo e capacidade de imitação motora. Essas informações foram usadas para identificar quais fatores estavam associados ao progresso ou à ausência de progresso na linguagem falada.
Entre as crianças que não falavam no início do estudo, cerca de dois terços passaram a usar pelo menos palavras isoladas ou formas mais complexas de linguagem oral após a intervenção. No entanto, aproximadamente um terço continuou sem utilizar a fala. Essas crianças apresentavam, desde o início, maiores dificuldades na imitação de movimentos, uma habilidade importante para o aprendizado da linguagem.

Entre as crianças que falavam muito pouco no início, aproximadamente metade conseguiu avançar para a combinação de palavras ao final da intervenção. As crianças que não alcançaram esse nível apresentavam, desde o começo, maiores dificuldades cognitivas, sociais, adaptativas e de imitação, além de terem participado de intervenções por períodos mais curtos.
A idade em que a intervenção foi iniciada também teve impacto, mas de forma diferente dependendo do nível inicial de linguagem da criança. Curiosamente, o tipo específico de intervenção recebida não pareceu influenciar diretamente a probabilidade de aquisição da linguagem oral, desde que fosse uma intervenção baseada em evidências.
Esses achados reforçam a importância de identificar precocemente perfis de risco e adaptar as intervenções às necessidades específicas de cada criança, em vez de adotar uma abordagem única para todos.
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Proportion and Profile of Autistic Children Not Acquiring Spoken Language Despite Receiving Evidence-Based Early Interventions
Giacomo Vivanti,Michael V. Lombardo,Ashley Zitter,Brian Boyd,Cheryl Dissanayake,Sarah Dufek,Helen E. Flanagan,Suzannah Iadarola,Ann Kaiser,So Hyun Kim,Lynne Levato,Catherine Lord,Joshua Plavnick,Diana L. Robins,Sally J. Rogers,Isabel M. Smith,Tristram Smith,Aubyn Stahmer, and Linda Watson
Journal of Clinical Child & Adolescent Psychology, 1-18.
Abstract:
To determine the proportion and profile of preschoolers on the autism spectrum who do not acquire spoken language despite receiving evidence-supported interventions that target spoken language. We examined an aggregate dataset comprising 707 preschoolers on the autism spectrum who had received evidence-supported interventions to determine the proportion and profile of those who experienced limited progress in spoken language. Interventions were delivered through programs affiliated with university research settings and ranged in duration from 6 to 24 months. Spoken language outcomes were determined from parent-report measures, which were validated against direct assessments and natural language samples. Approximately two-thirds of children who were non-speaking at baseline were using single words or more complex spoken language by intervention exit. Those who remained non-speaking had lower baseline motor imitation scores, derived mainly from parent reports. Approximately half of the children who were minimally speaking (i.e. had single words or no words) at baseline were combining words by intervention exit. Those who did not acquire word combinations had lower baseline scores in cognitive, social, adaptive and motor imitation measures, and shorter intervention duration. Age at intervention start influenced spoken language advancement differently depending on the initial spoken language level. The odds of acquiring spoken language did not differ based on the intervention received. Approximately one-third of children who had limited or no spoken language at baseline did not advance to spoken language stages following intervention. Development of spoken language was associated with modifiable factors at the child and intervention level.



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