O Autismo é Mesmo Mais Comum Em Meninos? Um Estudo Diz Que Não
- 13 de fev.
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Um grande estudo na Suécia mostrou que a diferença entre homens e mulheres no diagnóstico de autismo diminui com a idade. Muitas meninas são diagnosticadas mais tarde, o que sugere que o autismo pode ser igualmente comum em ambos os sexos. Isso aponta para falhas no reconhecimento precoce do TEA em mulheres.
O transtorno do espectro autista, conhecido como TEA, é uma condição do desenvolvimento do cérebro que acompanha a pessoa desde a infância. Ele está ligado principalmente a diferenças na comunicação social, interesses muito específicos e comportamentos repetitivos.
Ao longo das últimas décadas, o número de diagnósticos de autismo aumentou bastante em vários países, especialmente a partir dos anos 2000, o que chamou a atenção de pesquisadores e profissionais da saúde.
Atualmente, estima-se que entre uma e três em cada cem pessoas tenham diagnóstico de TEA nos Estados Unidos e na Europa Ocidental. Durante muito tempo, acreditou-se que o autismo era muito mais comum em meninos do que em meninas.
Essa diferença entre os sexos levou ao surgimento de várias teorias para explicá-la, incluindo a ideia de que as mulheres teriam algum tipo de “proteção biológica” ou que os homens apresentariam maior variação genética ligada ao autismo.

Outras explicações apontam para fatores sociais e comportamentais. Muitas meninas, por exemplo, aprendem desde cedo a imitar comportamentos sociais, esconder dificuldades e se adaptar melhor às expectativas sociais. Esse fenômeno é conhecido como “camuflagem” e pode fazer com que os sinais de autismo passem despercebidos. Além disso, sintomas em meninas podem ser confundidos com outros problemas, como ansiedade ou depressão, atrasando ou até impedindo o diagnóstico correto.
Embora o autismo esteja presente desde os primeiros anos de vida, nem sempre ele é identificado cedo. Em alguns países, como a Suécia, avaliações no período pré-escolar ajudam no diagnóstico, mas ainda assim muitas pessoas só recebem o diagnóstico na adolescência ou na vida adulta.

Mudanças nos critérios médicos ao longo do tempo também contribuíram para o aumento dos diagnósticos, já que o conceito de “espectro” passou a incluir uma gama maior de características e níveis de suporte.
Fatores sociais também influenciam esses números. A idade dos pais no momento do nascimento dos filhos aumentou nas últimas décadas, e isso pode ter impacto nas taxas de diagnóstico entre diferentes gerações. Esses efeitos combinados, idade ao diagnóstico, mudanças nos critérios médicos e diferenças entre gerações, tornam o cenário do autismo mais complexo do que parece à primeira vista.
Para entender melhor essas mudanças, pesquisadores analisaram dados de quase três milhões de crianças nascidas na Suécia entre 1985 e 2020. O estudo acompanhou essas pessoas ao longo do tempo e observou quando e como os diagnósticos de TEA foram feitos, levando em conta idade, sexo e ano de nascimento. Esse tipo de análise só foi possível graças aos registros médicos detalhados e ao sistema de saúde público do país.

Os resultados mostraram algo surpreendente: a diferença entre meninos e meninas diminui conforme a idade do diagnóstico aumenta. Enquanto os meninos tendem a ser diagnosticados mais cedo, muitas meninas recebem o diagnóstico apenas na adolescência ou no início da vida adulta. Com o passar do tempo, essa diferença entre os sexos praticamente desaparece, chegando muito perto da igualdade na idade adulta.
Essas descobertas indicam que o autismo pode não ser tão mais comum em homens quanto se acreditava. Em vez disso, muitas meninas e mulheres podem estar sendo diagnosticadas tarde demais. Isso reforça a necessidade de melhorar os critérios diagnósticos, aumentar a conscientização sobre como o autismo se manifesta em diferentes pessoas e garantir que meninas e mulheres tenham acesso mais rápido a avaliações e apoio adequados.
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Time trends in the male to female ratio for autism incidence: population based, prospectively collected, birth cohort study
Caroline Fyfe, Henric Winell, Joseph Dougherty, David H Gutmann, Donald O Schnuck, Alexander Kolevzon, Natasha Marrus, Kristina Tedroff, Tychele N Turner, Lauren A Weiss, Benjamin H K Yip, Weiyao Yin, and Sven Sandin
BMJ. 392: e084164, 04 February 2026
Abstract:
To examine changes in the male to female ratio in diagnoses of autism spectrum disorder (ASD) over a 35 year period, providing temporal trends in diagnosis (incidence rate), the male to female ratio, and the age-cohort specific cumulative male to female ratio (cMFR). Population based, prospectively collected birth cohort study. Participants 2 756 779 liveborn children recorded in the Swedish medical birth register between 1985 and 2020. Main outcome measure Age-period cohort analysis investigating associations between ASD and age at diagnosis, calendar period, birth cohort, and sex, quantified by incidence rate ratios and associated two sided 95% confidence intervals. Among 2 756 779 individuals born in Sweden between 1985 and 2020, ASD was diagnosed in 78 522 (2.8%) by the end of follow-up (2022). The incidence rate for ASD increased with each five year age interval throughout childhood, peaking at 645.5 (per 100 000 person years) for the male cohort at age 10-14 years and 602.6 for the female cohort at age 15-19 years in 2020-2022, and then decreased. Age specific incidence of ASD increased for each calendar period and birth cohort between 1985 and 2020. The male to female ratio decreased with increasing age at diagnosis and, for those older than 10 years, by calendar period. For the final year of follow-up in 2022, the cumulative male to female ratio for incidence of ASD was 1.2 by age 20 years. Further projection of these trends suggested that the cumulative male to female ratio would reach parity at age 20 years by 2024. Findings indicate that the male to female ratio for ASD has decreased over time and with increasing age at diagnosis. This male to female ratio may therefore be substantially lower than previously thought, to the extent that, in Sweden, it may no longer be distinguishable by adulthood. This finding highlights a need to investigate why girls and women receive diagnoses of ASD later than boys and men.



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