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Falar Vários Idiomas Pode Ajudar o Cérebro a Envelhecer Mais Devagar

19 de ago.
4 min de leitura

Falar mais de um idioma pode fazer mais do que facilitar uma conversa, pode estar relacionado à forma como envelhecemos. Em uma análise com mais de 86 mil pessoas de 27 países europeus, o multilinguismo esteve associado a menor risco de envelhecimento acelerado. A descoberta reforça a ideia de que manter o cérebro cognitivamente ativo pode fazer parte de uma trajetória de envelhecimento mais saudável.


O envelhecimento não acontece da mesma maneira para todas as pessoas. Algumas mantêm suas capacidades físicas e cognitivas por muitos anos, enquanto outras apresentam sinais de envelhecimento mais cedo. Entre os fatores que podem influenciar esse processo estão educação, capacidade física, saúde metabólica, cognição e condições cardiovasculares.


Uma nova pesquisa sugere que falar mais de um idioma também pode estar relacionado a um envelhecimento mais lento, levantando a possibilidade de que o uso frequente de diferentes línguas ajude a manter o cérebro e o organismo mais resilientes ao longo da vida.


Para investigar essa relação, os pesquisadores analisaram dados de 86.149 pessoas de 27 países europeus. Em vez de olhar apenas para a idade cronológica, ou seja, o número de anos que cada pessoa havia vivido, eles construíram uma medida chamada idade biocomportamental. 


Ela combina diferentes características relacionadas à saúde e ao funcionamento do indivíduo para estimar se seu envelhecimento parecia estar acontecendo de maneira mais rápida ou mais lenta. Entre os fatores considerados estavam capacidade funcional, escolaridade e desempenho cognitivo, mas também problemas cardiometabólicos e alterações sensoriais.



Os pesquisadores então compararam essa medida com o número de idiomas falados em cada país e analisaram os dados de duas maneiras. Primeiro, observaram as diferenças existentes entre os participantes em um determinado momento. Depois, utilizaram dados acompanhados ao longo do tempo para verificar se o multilinguismo estava associado à probabilidade de apresentar sinais de envelhecimento acelerado posteriormente.


Essa abordagem longitudinal é especialmente importante porque permite observar a relação entre o uso de idiomas e a trajetória de envelhecimento, e não apenas uma fotografia daquele momento.


Os resultados foram bastante interessantes. O multilinguismo apareceu associado a uma menor probabilidade de envelhecimento acelerado. Nas análises realizadas em um determinado momento, falar mais de um idioma esteve associado a uma redução de aproximadamente 54% nas chances de apresentar um perfil de envelhecimento acelerado. Na análise longitudinal, o risco relativo também foi menor, chegando a aproximadamente 30% de redução.


Por outro lado, o monolinguismo apareceu associado a maior risco de envelhecimento acelerado. Essas associações permaneceram mesmo depois que os pesquisadores consideraram diferentes características linguísticas, físicas, sociais e sociopolíticas.



Uma possível explicação é que utilizar diferentes idiomas exige que o cérebro selecione constantemente uma língua, iniba outra e alterne entre diferentes sistemas linguísticos. Esse processo envolve várias funções cognitivas e pode contribuir para a chamada reserva cognitiva, embora este estudo específico não tenha demonstrado diretamente esse mecanismo. 


O resultado também não significa que aprender uma segunda língua seja uma garantia contra demência ou que pessoas que falam apenas um idioma necessariamente envelheçam mais rapidamente. O estudo encontrou uma associação populacional, e não provou que o multilinguismo seja sozinho a causa de um envelhecimento mais lento.



O tamanho da pesquisa, envolvendo dezenas de milhares de pessoas de diferentes países, torna os resultados particularmente interessantes. Ainda assim, os próprios dados devem ser interpretados com cautela: fatores como educação, condições sociais, acesso à saúde e características culturais podem estar relacionados tanto ao multilinguismo quanto ao envelhecimento saudável.


O que o estudo acrescenta é uma evidência de que o repertório linguístico pode fazer parte do conjunto de fatores associados à forma como envelhecemos, abrindo novas perguntas sobre a relação entre linguagem, cognição e saúde cerebral ao longo da vida.



LEIA MAIS: 


Multilingualism protects against accelerated aging in cross-sectional and longitudinal analyses of 27 European countries

Lucia Amoruso, Hernan Hernandez, Hernando Santamaria-Garcia, Sebastian Moguilner, Agustina Legaz, Pavel Prado, Jhosmary Cuadros, Liset Gonzalez, Raul Gonzalez-Gomez, Joaquín Migeot, Carlos Coronel-Oliveros, Josephine Cruzat, Manuel Carreiras, Vicente Medel, Marcelo Adrián Maito, Claudia Duran-Aniotz, Enzo Tagliazucchi, Sandra Baez, Adolfo M. García, and Agustin Ibanez

Nature Aging. 5, pages 2340-2354 (10 November 2025)DOI: 10.1038/s43587-025-01000-2


Abstract: 


Aging trajectories are influenced by modifiable risk factors, and prior evidence has hinted that multilingualism may have protective potential. However, reliance on suboptimal health markers, small samples, inadequate confounder control and a focus on clinical cohorts led to mixed findings and limited applicability to healthy populations. Here, we developed biobehavioral age gaps, quantifying delayed or accelerated aging in 86,149 participants across 27 European countries. National surveys provided individual-level positive (functional ability, education, cognition) and adverse (cardiometabolic conditions, female sex, sensory impairments) factors, while country-level multilingualism served as an aggregate exposure. Biobehavioral factors predicted age (R2 = 0.24, r = 0.49, root mean squared error = 8.61), with positive factors linked to delayed aging and adverse factors to accelerated aging. Multilingualism emerged as a protective factor in cross-sectional (odds ratio = 0.46) and longitudinal (relative risk = 0.70) analyses, whereas monolingualism increased risk of accelerated aging (odds ratio = 2.11; relative risk = 1.43). Effects persisted after adjusting for linguistic, physical, social and sociopolitical exposomes. These results underscore the protective role of multilingualism and its broad applicability for global health initiatives.

 
 
 

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