🎗️O Que a Serotonina Tem a Ver Com a Raiva e Controle de Impulsos Antes da Menstruação?

E se a irritabilidade antes da menstruação não estivesse apenas no humor, mas também na maneira como o cérebro controla nossos impulsos? Um estudo com mulheres que apresentavam forte irritabilidade pré-menstrual descobriu que o escitalopram, além de reduzir raiva e irritabilidade, também alterou o desempenho em uma tarefa que avaliava controle das respostas. Os resultados ajudam a revelar uma conexão fascinante entre ciclo menstrual, serotonina, emoções e comportamento.
Muitas mulheres percebem mudanças importantes no humor nos dias que antecedem a menstruação. Para algumas, porém, essas alterações são muito mais intensas: irritabilidade, raiva, mudanças bruscas de humor, dificuldade de concentração e sensação de perda de controle podem interferir no trabalho, nos relacionamentos e na vida cotidiana.
Quando vários sintomas aparecem de forma repetida nessa fase do ciclo e desaparecem depois do início da menstruação, pode existir um quadro chamado transtorno disfórico pré-menstrual. Embora já se saiba que medicamentos que aumentam a disponibilidade de serotonina no cérebro podem aliviar principalmente a irritabilidade e a raiva, ainda não estava claro se esse tratamento também poderia modificar comportamentos relacionados à impulsividade quando eles são medidos diretamente em laboratório.

Para investigar essa questão, os pesquisadores acompanharam 27 mulheres durante três ciclos menstruais. Primeiro, elas registraram regularmente como estavam se sentindo, utilizando escalas nas quais indicavam a intensidade de diferentes sintomas de humor. Essa primeira etapa foi importante porque permitiu aos pesquisadores verificar se os sintomas realmente acompanhavam o ciclo menstrual, em vez de simplesmente acontecerem de maneira aleatória.
O foco especial estava na irritabilidade e na raiva: as participantes precisavam apresentar uma mudança claramente relacionada à fase pré-menstrual para continuar na parte principal do estudo.
Nos dois ciclos seguintes, as participantes receberam, em momentos diferentes, escitalopram ou placebo, sem saber qual dos dois estavam tomando. O escitalopram é um medicamento que aumenta a quantidade de serotonina disponível para a comunicação entre as células nervosas. O estudo utilizou um desenho chamado cruzado: cada participante passou pelas duas condições em momentos diferentes, permitindo comparar o desempenho da mesma pessoa quando estava usando o medicamento e quando estava recebendo o placebo.

O tratamento era feito apenas durante a fase do ciclo em que os sintomas costumavam aparecer, em vez de ser tomado continuamente durante todo o mês. Isso é particularmente interessante porque estudos anteriores já haviam mostrado que os sintomas pré-menstruais podem responder rapidamente a esse tipo de medicamento.
Mas os pesquisadores queriam ir além do simples relato das participantes. Durante a fase pré-menstrual dos ciclos em que estavam recebendo escitalopram ou placebo, elas realizaram um teste computadorizado de atenção e controle das respostas. A tarefa apresentava estímulos na tela e exigia que as participantes respondessem rapidamente, mas somente quando aparecessem determinados sinais.
O objetivo era observar o que acontecia quando uma pessoa precisava controlar o impulso de responder antes da hora e manter uma velocidade de resposta estável ao longo da tarefa. Em outras palavras, o teste permitia investigar, de maneira mais objetiva, aspectos relacionados à atenção e ao controle do comportamento. As participantes também responderam a um questionário sobre impulsividade em dois momentos do ciclo durante a condição com placebo: antes da menstruação e na fase do ciclo que ocorre depois da menstruação.

Esse questionário avaliava diferentes características da impulsividade, porque ser impulsivo não significa apenas agir rapidamente: também pode envolver dificuldade para resistir a emoções intensas ou uma tendência maior a buscar experiências novas e estimulantes.
Os resultados mostraram que o escitalopram realmente reduziu a irritabilidade e a raiva durante a fase pré-menstrual. Mas apareceu também uma diferença interessante no teste de laboratório. Enquanto utilizavam o medicamento, as mulheres apresentaram menos respostas antecipadas, ou seja, cometeram menos vezes o erro de responder antes do momento adequado.
Além disso, a velocidade das respostas ficou mais consistente. Os questionários também revelaram que, durante a fase pré-menstrual no ciclo em que receberam placebo, as participantes apresentavam maior tendência à chamada urgência, uma maior propensão a agir sob influência de emoções intensas, quando comparadas à fase do ciclo posterior à menstruação.
Curiosamente, elas também apresentaram menor tendência à busca por sensações nessa comparação. Isso mostra que a impulsividade relacionada ao ciclo menstrual não é necessariamente um fenômeno único e simples, mas pode envolver diferentes aspectos do comportamento.

O estudo, portanto, sugere que a irritabilidade pré-menstrual pode estar acompanhada não apenas por uma mudança subjetiva no humor, mas também por alterações mensuráveis na maneira como o cérebro controla respostas impulsivas. Como a serotonina participa de circuitos envolvidos na regulação das emoções e do comportamento, os efeitos observados com o escitalopram levantam a possibilidade de que esses mecanismos estejam relacionados às mudanças comportamentais que acontecem em algumas mulheres antes da menstruação.
É importante, porém, não interpretar os resultados como prova de que toda impulsividade pré-menstrual seja causada por uma deficiência de serotonina, nem que o medicamento seja indicado para qualquer mulher com irritabilidade.
O estudo foi pequeno e avaliou especificamente mulheres com forte irritabilidade pré-menstrual. O principal achado foi que tratar os sintomas emocionais também pareceu modificar uma medida objetiva de controle das respostas, reforçando a ideia de que o transtorno disfórico pré-menstrual envolve uma interação complexa entre ciclo menstrual, cérebro, emoções e comportamento.
LEIA MAIS:
The effects of intermittent escitalopram treatment on impulsivity and inattention in women with premenstrual irritability and anger
Gröndal M, Englund C, Näslund J, Ask K, Eriksson E, and Winblad S. Psychological Medicine. 2025;55:e301.
doi:10.1017/S0033291725102055
Abstract:
Women diagnosed with premenstrual dysphoric disorder (PMDD) report significant symptom relief when treated with selective serotonin reuptake inhibitors, but few studies have addressed the possibility of capturing this effect in behavioral, laboratory-based tests. This study examined the effects of intermittent treatment with escitalopram (vs. placebo) on a behavioral measure of impulsivity and inattentiveness in women reporting high levels of premenstrual irritability and anger. Participants (N = 27) rated cardinal PMDD mood symptoms over three menstrual cycles using Visual Analogue Scales. In Cycles 2 and 3, participants displaying cyclicity with respect to the irritability/anger item received escitalopram (20 mg) or placebo in a randomized, single-blind, crossover design. The participants completed the Conners Continuous Performance Test (CPT 3) in the luteal phase of the intervention cycles. Additionally, they filled out the UPPS Impulsive Behavior Scale, once in the luteal phase and once in the follicular phase of the placebo cycle. In line with previous reports, escitalopram caused a significant reduction in self-rated irritability and anger in the luteal phase. When on escitalopram, the participants demonstrated a lower frequency of anticipatory responses and greater consistency in response speed in the CPT 3. With respect to self-reported impulsivity, participants reported higher levels of urgency and lower levels of sensation seeking in the luteal placebo phase versus the follicular phase. The finding that escitalopram impacted the outcome of the CPT 3 test in women with premenstrual irritability highlights the possible role of impulsivity in this condition.



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