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🎗️Exposição a Pesticidas na Infância é Ligada a Mudanças na Idade da Primeira Menstruação

28 de set.
5 min de leitura

Pesticidas podem mexer com o relógio da puberdade? Pesquisadores acompanharam meninas desde a infância e encontraram associações entre substâncias presentes no organismo após a exposição a alguns pesticidas e o momento da primeira menstruação. Os resultados são intrigantes, mas ainda não provam uma relação de causa e efeito.


A primeira menstruação é um dos sinais mais importantes de que o corpo de uma menina está entrando na puberdade. A idade da primeira menstruação não é apenas uma informação sobre quando uma menina começa a menstruar. Ela também pode indicar quando o organismo começou a passar pelas grandes mudanças hormonais da puberdade. Ao longo do século XIX e do século XX, a idade média da primeira menstruação caiu de aproximadamente 16 ou 17 anos para cerca de 13 anos. 


Atualmente, ela costuma acontecer entre os 12 e 13 anos. Uma das razões para essa mudança provavelmente foi a melhora da alimentação e das condições de saúde, mas os pesquisadores acreditam que outros fatores também possam estar envolvidos. O excesso de peso durante a infância, por exemplo, está relacionado a uma puberdade mais precoce. 


Além disso, algumas substâncias químicas presentes no ambiente podem interferir nos hormônios responsáveis pelo crescimento e pela reprodução. Essas substâncias são chamadas de desreguladores endócrinos porque podem imitar, bloquear ou modificar a ação dos hormônios naturais do organismo.



Os pesticidas são usados para proteger plantações contra insetos, fungos e outras ameaças. Embora sejam importantes para a produção de alimentos, pequenas quantidades dessas substâncias ou de seus produtos de transformação podem chegar ao organismo humano. 


Para a população em geral, uma das principais fontes de contato é a alimentação, especialmente frutas e verduras produzidas de maneira convencional. Alguns pesticidas são capazes de interferir no sistema hormonal e, por isso, os pesquisadores queriam saber se uma exposição durante a infância poderia influenciar o momento da puberdade. 


Para investigar essa possibilidade, eles analisaram especificamente cinco substâncias que aparecem no organismo depois que diferentes tipos de pesticidas são processados pelo corpo. Entre elas estava uma substância relacionada ao clorpirifós, um inseticida, e outra chamada etilenotioureia, que é produzida a partir da transformação de determinados fungicidas.



Os pesquisadores acompanharam 506 meninas espanholas que faziam parte de um grande projeto de pesquisa sobre saúde infantil. Quando elas tinham entre 7 e 10 anos, foram coletadas amostras de urina. Essa etapa é importante porque os cientistas não precisaram simplesmente perguntar às famílias se as meninas haviam entrado em contato com pesticidas. Em vez disso, procuraram na urina pequenas moléculas que são produzidas quando o organismo quebra determinados pesticidas. 


É como procurar uma “impressão digital” da exposição. Foram analisados cinco indicadores: um relacionado ao clorpirifós, um ao diazinon, um grupo de produtos resultantes da transformação de inseticidas organofosforados, um indicador de exposição a inseticidas piretroides e a etilenotioureia, relacionada a determinados fungicidas. 


Depois da coleta inicial, as meninas continuaram sendo acompanhadas por vários anos. Entre os 7 e os 16 anos, elas e, em alguns casos, seus pais responderam questionários informando se a primeira menstruação já havia acontecido e em que idade.


Os pesquisadores não olharam apenas para os pesticidas. Eles também registraram a altura e o peso das meninas quando as amostras de urina foram coletadas. Isso permitiu calcular o índice de massa corporal e verificar se o peso poderia modificar a relação entre a exposição aos pesticidas e a idade da primeira menstruação. 



Essa é uma questão importante porque o tecido adiposo participa do funcionamento hormonal e meninas com sobrepeso ou obesidade podem apresentar alterações no momento em que a puberdade começa. Depois, os pesquisadores utilizaram modelos estatísticos para comparar o momento da primeira menstruação entre meninas com diferentes níveis de exposição. 


Também levaram em consideração outros fatores que poderiam influenciar os resultados, como idade, crescimento, escolaridade materna, concentração da urina e exposição simultânea a outros pesticidas. Dessa maneira, tentaram separar o possível efeito dos pesticidas de outras características que também poderiam estar relacionadas à puberdade.


Os resultados mostraram duas associações que chamaram a atenção. Meninas que apresentavam na urina sinais de exposição ao clorpirifós tiveram a primeira menstruação mais tarde do que aquelas nas quais esse indicador não foi detectado. A diferença foi mais evidente entre meninas que apresentavam sobrepeso ou obesidade, embora os pesquisadores não tenham encontrado uma interação estatisticamente significativa entre o peso corporal e a exposição. 



O resultado mais curioso apareceu com a etilenotioureia. Quanto maior a concentração dessa substância na urina, maior foi a tendência de a primeira menstruação acontecer mais cedo. As meninas com níveis mais elevados apresentaram uma probabilidade cerca de 39% maior de já terem chegado à menarca em determinado momento do acompanhamento em comparação com aquelas nas quais a substância não foi detectada.


A associação pareceu ainda mais forte entre meninas com baixo peso ou peso considerado normal, mas essa diferença também não foi estatisticamente significativa.


O estudo prova que os pesticidas causam alterações na puberdade?

Não. Esse é um ponto fundamental. O estudo encontrou associações, mas não consegue provar que os pesticidas foram os responsáveis por fazer a primeira menstruação acontecer mais cedo ou mais tarde. A exposição foi medida em uma determinada fase da infância, e existem muitos outros fatores que podem influenciar o desenvolvimento puberal. 


Além disso, a interação entre o peso corporal e os pesticidas não foi estatisticamente significativa, portanto os pesquisadores consideram essa parte do resultado ainda incerta. Mesmo assim, a descoberta é importante porque acrescenta evidências de que algumas exposições ambientais durante uma fase particularmente sensível do desenvolvimento podem estar relacionadas ao momento da puberdade. 


Os próprios pesquisadores destacam que novos estudos, com outras populações e acompanhamento mais detalhado da exposição ao longo da infância, serão necessários para confirmar os resultados e entender exatamente como essas substâncias poderiam interferir nos hormônios que controlam a puberdade.



LEIA MAIS: 


Age at menarche and exposure to non-persistent pesticides in Spanish girls from the INMA (environment and childhood) project

Carmen Freire, Alicia Olivas-Martinez, Francesca Castiello, Alba Jimeno-Romero, Sara Lopez de Calle, Beatriz Suárez, Adonina Tardón, Marta M. Rodriguez-Suarez, Mònica Guxens, Martine Vrijheid, Andrea Beneito, and Maria-Jose Lopez-Espinosa

Environmental Research. Volume 300, 15 June 2026, 124450

DOI: 10.1016/j.envres.2026.124450


Abstract: 


Our objective was to assess the longitudinal association between exposure to non-persistent pesticides and the age of menarche in Spanish girls. The study was conducted in a sample of 506 girls from the INMA Project. Pesticide exposure was assessed by quantifying four insecticide metabolites (TCPy, chlorpyrifos metabolite; IMPy, diazinon metabolite; DETP, non-specific organophosphate metabolite; 3-PBA, pyrethroid metabolite) and the dithiocarbamate fungicides metabolite ethylene thiourea (ETU) in spot urine samples collected at the age of 7-10 years (2013-2016). Information on the age at menarche was collected from questionnaires completed by the girls and/or parents at successive visits from the age of 7 to 16 years. Associations between categorical exposure biomarkers and age at menarche were examined using Cox regression models adjusted for sub-cohort; maternal schooling; age, urinary creatinine, body mass index (BMI) z-score, and height of girls at the age of 7-10 years; and other pesticide biomarkers. Effect modification by BMI was also examined. Menarche was later in girls with detected versus undetected concentrations of urinary TCPy (Hazard ratio [HR] = 0.71; 95%CI = 0.54–0.92); this association was stronger among those with overweight or obesity (HR = 0.69; 95%CI = 0.47–0.99), although the interaction was not statistically significant. By contrast, menarche was earlier in girls with increasing ETU (HR = 1.32; 95%CI = 1.00–1.73 for concentrations between limit of detection and 75th percentile [P75]; HR = 1.39, 95%CI = 1.03–1.89 for concentrations > P75 versus undetected ETU); this association was stronger but not significant in girls with underweight/normal weight. These results are in line with previous findings from the INMA Project on the association of ETU exposure with earlier puberty onset in girls and provide previously unreported evidence of its association with TCPy. Further studies are needed to verify these findings and to elucidate the role of BMI in these associations.

 
 
 

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