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Autismo: Descoberta Pode Revolucionar Diagnósticos e Tratamentos

  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

E se o autismo não fosse uma única condição? Uma pesquisa impressionante analisou cérebros de quase 2 mil pessoas e descobriu que existem pelo menos dois padrões biológicos distintos por trás do autismo. A descoberta pode mudar a forma como entendemos o transtorno e abrir caminho para tratamentos muito mais personalizados no futuro.


Por muitos anos, o autismo foi tratado como uma única condição que se manifesta de formas diferentes em cada pessoa. No entanto, médicos, psicólogos e neurocientistas sempre observaram algo intrigante: duas pessoas diagnosticadas com autismo podem ser extremamente diferentes entre si.


Algumas apresentam grandes dificuldades de comunicação, enquanto outras possuem linguagem fluente. Algumas têm deficiência intelectual, enquanto outras possuem inteligência acima da média. 


Essa enorme diversidade levou cientistas a questionarem se o autismo seria realmente uma única condição ou se poderia representar vários subtipos biológicos diferentes agrupados sob o mesmo diagnóstico.


A dificuldade para responder essa pergunta é que a genética do autismo é extremamente complexa. Já foram identificadas centenas de genes associados ao risco da condição, mas nenhum deles explica a maioria dos casos. Além disso, fatores ambientais, como inflamações durante a gravidez e alterações do sistema imunológico, também parecem contribuir para o desenvolvimento do transtorno. Isso significa que pessoas diferentes podem chegar ao mesmo diagnóstico por caminhos biológicos completamente distintos.



Para investigar essa questão, pesquisadores adotaram uma estratégia inovadora. Primeiro, eles estudaram 20 diferentes modelos de camundongos geneticamente modificados para apresentar alterações relacionadas ao autismo. Cada grupo de animais possuía alterações biológicas diferentes, permitindo aos cientistas observar como essas mudanças afetavam o funcionamento cerebral. 


Para isso, utilizaram ressonância magnética funcional, uma técnica que mede a atividade cerebral observando o fluxo sanguíneo em diferentes regiões do cérebro. O objetivo era descobrir se existiam padrões consistentes de comunicação cerebral associados a diferentes mecanismos biológicos.


Ao analisar os dados, os pesquisadores perceberam que os cérebros dos camundongos não apresentavam um único padrão de alteração. Em vez disso, surgiram dois grandes grupos. No primeiro, diferentes regiões cerebrais se comunicavam menos do que o esperado, um fenômeno chamado hipoconectividade. 


No segundo, as regiões apresentavam comunicação excessiva, conhecida como hiperconectividade. Curiosamente, esses dois padrões estavam ligados a mecanismos biológicos distintos. A hipoconectividade estava mais associada a problemas nas sinapses, as conexões que permitem que os neurônios troquem informações. Já a hiperconectividade parecia estar relacionada a alterações envolvendo o sistema imunológico e processos que regulam a atividade dos genes.


Exame de ressonância magnetica funcional em camundongo


A etapa seguinte foi verificar se o mesmo acontecia em seres humanos. Para isso, os cientistas analisaram exames cerebrais de mais de 1.900 pessoas, incluindo 940 indivíduos com autismo e 1.036 participantes neurotípicos. Utilizando os mesmos métodos de análise empregados nos camundongos, eles procuraram identificar padrões semelhantes de conectividade cerebral. 


O resultado foi surpreendente: os mesmos dois grandes perfis apareceram nos participantes autistas. Algumas pessoas apresentavam predominância de hipoconectividade, enquanto outras apresentavam hiperconectividade. Além disso, esses grupos também exibiam diferenças comportamentais e cognitivas, sugerindo que não se tratava apenas de uma variação aleatória.



Essa descoberta é importante porque pode ajudar a explicar por que tratamentos e intervenções funcionam muito bem para algumas pessoas e têm pouco efeito para outras. Se diferentes grupos de indivíduos autistas possuem mecanismos biológicos distintos por trás dos sintomas, é possível que também precisem de abordagens terapêuticas diferentes.


Em outras palavras, o que hoje chamamos de autismo pode representar um conjunto de condições relacionadas, mas não necessariamente idênticas.


Embora ainda sejam necessárias novas pesquisas para confirmar esses achados e transformá-los em aplicações clínicas, o estudo oferece uma das evidências mais fortes até agora de que existem subtipos biológicos distintos dentro do espectro autista.


Em vez de enxergar o autismo como uma única condição, a ciência começa a considerar a possibilidade de que ele seja composto por diferentes perfis cerebrais, genéticos e biológicos. Essa mudança de perspectiva pode abrir caminho para diagnósticos mais precisos e tratamentos mais personalizados no futuro.



O pesquisador Alessandro Gozzi, PhD, diretor do Centro de Neurociência e Sistemas Cognitivos (CNCS) do IIT em Rovereto (Itália), que coordenou o estudo com Adriana Di Martino, MD, diretora fundadora do Centro de Autismo do Child Mind Institute em Nova York. Crédito: IIT - Instituto Italiano de Tecnologia



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Autism subtypes identified using cross-species functional connectivity analyses

Marco Pagani, Valerio Zerbi, Silvia Gini, Filomena Grazia Alvino, Abhishek Banerjee, Andrea Barberis, M. Albert Basson, Yuri Bozzi, Alberto Galbusera, Jacob Ellegood, Michela Fagiolini, Jason P. Lerch, Michela Matteoli, Caterina Montani, Davide Pozzi, Giovanni Provenzano, Maria Luisa Scattoni, Nicole Wenderoth, Ting Xu, Michael V. Lombardo, Michael P. Milham, Adriana Di Martino, and Alessandro Gozzi

Nature Neuroscience.  29, pages 1476-1487 (2026) 15 May 2026DOI: 10.1038/s41593-026-02287-z


Abstract: 


It is often assumed that phenotypic heterogeneity in autism reflects underlying pathobiological variation. However, direct evidence supporting this link is lacking. Leveraging cross-species functional neuroimaging, we show that brain dysconnectivity patterns in autism can be parsed into biologically dissociable subtypes. Specifically, we found that functional magnetic resonance imaging (fMRI) connectivity alterations in 20 distinct genetic mouse models of autism cluster into hypoconnectivity-dominant and hyperconnectivity-dominant subtypes. These subtypes are linked to distinct biological pathways, with hypoconnectivity being associated with synaptic dysfunction and hyperconnectivity reflecting transcriptional and immune-related alterations. Here we identified analogous hypoconnectivity and hyperconnectivity subtypes in a multicenter human fMRI dataset of n = 940 individuals with idiopathic autism and n = 1,036 neurotypical individuals. The human autism subtypes are highly replicable, are associated with distinct functional network architectures and behavioral profiles and recapitulate the synaptic and immune-related pathways identified in the rodent dataset. Our work provides a new empirical framework for targeted subtyping of the autism spectrum.

 
 
 

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