Um Vírus Resistente a Febre: A evolução Da Gripe Aviária e o Risco De Uma Nova Pandemia
- Lidi Garcia
- 19 de dez. de 2025
- 5 min de leitura

A febre não é apenas um sinal de doença, mas uma defesa natural do corpo contra infecções. Este estudo mostrou que um pequeno aumento na temperatura corporal pode dificultar a multiplicação do vírus da gripe e proteger contra doenças graves. No entanto, vírus da gripe originários de aves conseguem resistir a essa defesa porque estão adaptados a temperaturas mais altas. Isso ajuda a explicar por que algumas gripes são mais perigosas e destaca a importância de monitorar vírus aviários que podem causar futuras pandemias.
A gripe é uma doença infecciosa causada por vírus que circulam continuamente entre humanos e animais, especialmente aves. Entre esses vírus, os chamados vírus da influenza do tipo A são os mais preocupantes, pois têm grande capacidade de mudar geneticamente e de atravessar a barreira entre espécies. As aves são o principal reservatório natural desses vírus, e nelas a infecção costuma ocorrer no sistema digestivo, sem causar grandes danos.
Um detalhe importante é que as aves mantêm naturalmente uma temperatura corporal muito elevada, geralmente entre quarenta e quarenta e dois graus Celsius. Já os seres humanos têm uma temperatura corporal mais baixa, em torno de trinta e sete graus, e mesmo quando apresentam febre, raramente ultrapassam trinta e nove graus. Essa diferença de temperatura entre espécies tem implicações profundas na forma como os vírus da gripe se adaptam e se comportam.
Os vírus da gripe que circulam em humanos ao longo dos anos, chamados de vírus sazonais, são adaptados a se multiplicar melhor nas partes mais frias do corpo, como o nariz e a garganta, onde a temperatura é cerca de trinta e três graus. Por isso, na maioria das pessoas saudáveis, esses vírus causam sintomas leves a moderados.

Em contraste, os vírus da gripe de origem aviária estão adaptados a temperaturas muito mais altas e conseguem se replicar com eficiência em ambientes que seriam hostis para os vírus humanos. Esse detalhe ajuda a explicar por que infecções por vírus aviários em humanos tendem a ser mais graves.
Quando o corpo humano detecta uma infecção, uma das respostas mais antigas e universais é o aumento da temperatura corporal, conhecido como febre. A febre não é apenas um sintoma desagradável, mas uma estratégia de defesa que surgiu ao longo da evolução.
Ao elevar a temperatura do corpo, o organismo cria um ambiente menos favorável para a multiplicação de muitos microrganismos, ao mesmo tempo em que acelera processos do sistema imunológico. No entanto, por muito tempo, não ficou claro se a febre combate os vírus diretamente, dificultando sua replicação, ou se seu efeito é apenas indireto, ao estimular a resposta imune.
Para esclarecer essa questão, os pesquisadores decidiram investigar se o aumento da temperatura corporal, por si só, seria capaz de impedir a multiplicação do vírus da gripe dentro do organismo. A hipótese era que vírus da gripe adaptados a humanos seriam sensíveis à febre, enquanto vírus de origem aviária, acostumados a temperaturas mais altas, poderiam resistir a essa defesa natural.

Para testar essa ideia de forma controlada, os cientistas criaram versões de vírus que eram praticamente idênticas entre si, diferindo apenas na capacidade de se multiplicar em temperaturas elevadas. Isso foi possível porque o material genético do vírus da gripe é dividido em segmentos, que podem ser trocados ou modificados.
Os pesquisadores focaram em uma proteína essencial do vírus, responsável por copiar seu material genético dentro das células infectadas. Essa proteína funciona como parte de uma “máquina” viral de replicação. Descobriu-se que versões dessa proteína provenientes de vírus aviários permitiam que o vírus continuasse se multiplicando mesmo em temperaturas altas.
Curiosamente, análises históricas mostraram que os grandes vírus pandêmicos da gripe, responsáveis pelas pandemias de 1918, 1957 e 1968, continham justamente essa versão da proteína de origem aviária. Esses vírus causaram doenças muito mais graves do que os vírus sazonais que circularam depois deles, o que sugere uma ligação direta entre resistência à temperatura elevada e maior gravidade da infecção.

Para estudar o efeito da febre em um organismo vivo, os cientistas usaram um vírus da gripe de origem humana adaptado em laboratório, que não causa doença grave em pessoas, mas provoca infecção severa em camundongos. Esse vírus se comporta de forma semelhante aos vírus humanos comuns, multiplicando-se mal em temperaturas próximas a quarenta graus.
A partir dele, os pesquisadores criaram uma versão modificada, alterando apenas dois pequenos componentes da proteína de replicação, de modo que o vírus passasse a se comportar como um vírus aviário em relação à temperatura.
Nos experimentos, camundongos infectados com qualquer uma das duas versões do vírus desenvolveram doença grave quando mantidos em condições normais. Porém, quando os pesquisadores elevaram a temperatura ambiente para induzir um aumento da temperatura corporal dos animais, simulando uma febre moderada semelhante à humana, os resultados mudaram drasticamente.

Os camundongos infectados com o vírus humano comum ficaram muito menos doentes e foram amplamente protegidos. Em contraste, os camundongos infectados com o vírus modificado resistente à temperatura continuaram desenvolvendo doença grave, mesmo com a temperatura corporal elevada.
Esses resultados mostraram de forma direta que o aumento da temperatura corporal, por si só, pode atuar como uma poderosa defesa antiviral. Um aumento relativamente pequeno, de cerca de dois graus Celsius, foi suficiente para transformar uma infecção potencialmente grave em uma doença leve. No entanto, essa proteção falha quando o vírus é capaz de se multiplicar eficientemente em temperaturas altas, como ocorre com vírus de origem aviária.
Essas descobertas ajudam a explicar por que vírus da gripe transmitidos por aves e certos vírus pandêmicos causam doenças mais severas em humanos. Eles carregam adaptações que lhes permitem ignorar uma das defesas mais antigas do corpo: a febre.
Isso também levanta um alerta importante para a vigilância epidemiológica. Se um vírus aviário resistente à febre adquirir a capacidade de se transmitir facilmente entre humanos, ele poderá representar um alto risco pandêmico.

A gripe aviária não sente o calor. Quando os mamíferos são infectados por vírus da gripe, eles frequentemente elevam a temperatura corporal como resposta imunológica. A febre resultante pode proteger contra doenças graves, mas essa defesa é superada pelos vírus da gripe aviária que evoluíram para se replicar na temperatura corporal mais alta das aves.
Além disso, o estudo contribui para o debate sobre o uso de medicamentos que reduzem a febre. Embora esses remédios aliviem o desconforto, eles podem, em alguns casos, eliminar uma defesa natural importante contra certos vírus. Compreender quando a febre é benéfica e quando não é pode ajudar a guiar decisões clínicas mais precisas no futuro.
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Avian-origin influenza A viruses tolerate elevated pyrexic temperatures in mammals
Matthew L. Turnbull, Yingxue Wang, Simon Clare, Gauthier Lieber, Stephanie L. Williams, Marko Noerenberg, Akira J. T. Alexander, Sara Clohisey Hendry, Douglas G. Stewart, Joseph Hughes, Simon Swingler, Spyros Lytras, Emma L. Davies, Katherine Harcourt, Katherine Smollett, Rute M. Pinto, Hui-Min Lee, Eleanor R. Gaunt, Colin Loney, Johanna S. Jung, Paul A. Lyons, Darrell R. Kapczynski, Edward Hutchinson, Ana da Silva Filipe, Jeffery K. Taubenberger, Suzannah J. Rihn, J. Kenneth Baillie, Ervin Fodor, Alfredo Castello, Kenneth G. C. Smith, Paul Digard and Sam J. Wilson
Science. Vol 390, Issue 6776, 27 November 2025.
DOI: 10.1126/science.adq4691
Abstract:
Host body temperature can define a virus’s replicative profile, influenza A viruses (IAVs) adapted to 40° to 42°C in birds are less temperature sensitive in vitro compared with human isolates adapted to 33° to 37°C. In this work, we show that avian-origin PB1 polymerase subunits enable IAV replication at elevated temperatures, including avian-origin PB1s from the 1918, 1957, and 1968 pandemic viruses. Using a model system to ensure biosafety, we show that a small increase in body temperature protects against severe disease in mice and that this protection is overcome by a febrile temperature-resistant PB1. These findings indicate that although elevated temperature itself can be a potent antiviral defense, it may not be effective against all influenza strains. These data inform both the clinical use of antipyretics and IAV surveillance efforts.



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