top of page

Transtornos Compulsivos Não São Apenas Hábito: O Papel da Neuroinflamação

  • Foto do escritor: Lidi Garcia
    Lidi Garcia
  • 26 de jan.
  • 5 min de leitura

Este estudo mostrou que a inflamação em uma região específica do cérebro associada ao controle das ações pode levar a um comportamento excessivamente orientado por objetivos, em vez de hábitos automáticos. Em ratos, a indução de inflamação estriatal fez com que os animais mantivessem ações guiadas por consequências mesmo em situações que normalmente gerariam hábitos. Esse efeito esteve ligado à ativação de astrócitos, sugerindo que essas células desempenham um papel central na compulsividade. Os resultados desafiam teorias tradicionais e indicam novos caminhos para compreender e tratar transtornos compulsivos.


Diversos transtornos mentais caracterizados por comportamentos compulsivos, como o transtorno obsessivo-compulsivo e o transtorno por uso de substâncias, compartilham uma alteração importante no cérebro chamada neuroinflamação estriatal. Essa inflamação ocorre em uma região profunda do cérebro conhecida como estriado, que desempenha um papel central no controle das ações e decisões.


Pessoas com esses transtornos costumam repetir comportamentos de forma persistente, mesmo quando sabem que essas ações trazem prejuízos e mesmo quando gostariam de parar, o que levanta a questão de por que o cérebro passa a funcionar dessa maneira.


Durante muitos anos, a principal explicação para as compulsões foi a ideia de que elas surgem quando o cérebro deixa de agir com base em objetivos conscientes e passa a funcionar predominantemente por hábitos automáticos. Em outras palavras, acreditava-se que pessoas com transtornos compulsivos agem menos guiadas por metas e consequências e mais por respostas repetidas e rígidas. 


No entanto, estudos recentes começaram a questionar essa visão tradicional, especialmente no caso do transtorno por uso de substâncias, sugerindo que esses indivíduos podem, na verdade, estar excessivamente focados em objetivos, ainda que esses objetivos sejam prejudiciais. Essa contradição gerou um debate intenso na área da neurociência. 



Para esclarecer essa questão, os pesquisadores deste estudo buscaram compreender o problema a partir dos mecanismos neurais básicos. Em vez de apenas observar o comportamento, eles investigaram como a inflamação em regiões específicas do cérebro pode alterar o equilíbrio entre dois sistemas fundamentais de controle da ação: o sistema orientado por objetivos e o sistema baseado em hábitos.


Esses dois sistemas funcionam de maneira paralela no cérebro e foram amplamente estudados em animais e humanos, mostrando grande semelhança entre espécies.


Estudos anteriores demonstraram que esses dois tipos de controle da ação dependem de circuitos cerebrais distintos dentro da rede que conecta o córtex cerebral ao estriado. Quando um desses circuitos é danificado ou desligado experimentalmente, o outro tende a dominar o comportamento. 


No entanto, esses modelos clássicos geralmente utilizam lesões cerebrais ou bloqueios farmacológicos intensos, que não refletem com precisão o que acontece em transtornos psiquiátricos reais. Nessas condições clínicas, não há destruição maciça de neurônios, especialmente nas fases iniciais, mas sim alterações mais sutis no funcionamento cerebral.



Pesquisas mais recentes indicam que o estresse crônico é um fator comum a muitos transtornos psiquiátricos e que seus efeitos no cérebro são frequentemente mediados por processos inflamatórios. De fato, estudos com neuroimagem e análises post-mortem mostram consistentemente sinais de inflamação no estriado de pessoas com transtornos compulsivos.


Com base nisso, os autores decidiram reproduzir esse tipo de inflamação de forma controlada em ratos, para observar como isso afetaria o controle das ações.



Para isso, os pesquisadores induziram uma resposta inflamatória localizada no estriado dorsomedial posterior, uma área conhecida por ser essencial para ações orientadas por objetivos. Eles utilizaram uma substância derivada de bactérias, o lipopolissacarídeo, que é amplamente empregada em pesquisas para simular inflamação no cérebro.


Essa substância foi injetada diretamente nessa região específica do cérebro dos ratos, permitindo que os efeitos observados fossem atribuídos com precisão à inflamação local.


Após a indução da inflamação, os ratos foram submetidos a uma série de testes comportamentais que avaliam como os animais escolhem suas ações. Alguns testes mediam escolhas guiadas por sinais do ambiente, enquanto outros avaliavam escolhas livres. Um dos testes mais importantes foi o procedimento de desvalorização de resultados, que permite distinguir claramente entre ações guiadas por objetivos e hábitos. 



Nesse teste, se o animal reduz uma ação quando o resultado deixa de ser valioso, isso indica que ele está agindo de forma orientada por objetivos e levando em conta as consequências de suas ações.


Os pesquisadores escolheram especificamente o estriado dorsomedial posterior porque essa região é considerada, em roedores, o principal centro neural das ações orientadas por objetivos.


Além disso, essa área é equivalente ao núcleo caudado em humanos, uma região que apresenta sinais elevados de inflamação em pessoas com transtorno obsessivo-compulsivo. Dessa forma, o modelo animal utilizado possui forte relevância para a compreensão de transtornos humanos.


Os resultados comportamentais foram surpreendentes. Em vez de induzir um comportamento mais automático e habitual, a inflamação estriatal levou os ratos a exibirem um controle excessivo orientado por objetivos. Mesmo em condições que normalmente favorecem a formação de hábitos, os animais continuaram ajustando suas ações com base no valor dos resultados.


Análises do tecido cerebral indicaram que esse efeito estava associado a um aumento e ativação de astrócitos, um tipo de célula glial que dá suporte aos neurônios e regula o ambiente cerebral.


Para testar diretamente o papel dos astrócitos nesse processo, os pesquisadores realizaram um experimento adicional utilizando técnicas quimiogenéticas. Eles ativaram seletivamente vias específicas dentro dos astrócitos do estriado durante os testes comportamentais.



Essa manipulação alterou a atividade dos neurônios próximos e modificou novamente o controle das ações, confirmando que os astrócitos desempenham um papel crucial na regulação do comportamento orientado por objetivos. 


De forma geral, esses resultados desafiam a ideia amplamente aceita de que a compulsividade resulta exclusivamente do predomínio de hábitos. Em vez disso, o estudo sugere que a inflamação no estriado pode levar a um excesso de controle orientado por objetivos, tornando o comportamento rígido e desadaptativo. 


Assim, indivíduos com neuroinflamação estriatal podem não estar presos a hábitos automáticos, mas sim excessivamente focados em objetivos específicos, mesmo quando esses objetivos são prejudiciais. Esses achados indicam que tratamentos futuros devem buscar restaurar o equilíbrio adequado entre os diferentes sistemas de controle da ação.



READ MORE:


Dorsomedial striatal neuroinflammation causes excessive goal-directed action control by disrupting astrocyte function

Arvie Rodriguez Abiero, Joanne M. Gladding, Jacqueline A. Iredale, Hannah R. Drury, Elizabeth E. Manning, Christopher V. Dayas, Amolika Dhungana, Kiruthika Ganesan, Karly Turner, Serena Becchi, Michael D. Kendig, Christopher Nolan, Bernard Balleine, Alessandro Castorina, Louise Cole, Kelly J. Clemens, and Laura A. Bradfield

Neuropsychopharmacology.  51, pages 486–496 (2026)27 September 2025

DOI: 10.1038/s41386-025-02247-4


Abstract|:


Compulsive actions are typically thought to reflect the dominance of habits over goal-directed action. To investigate this, we mimicked the striatal neuroinflammation that is frequently exhibited in individuals with compulsive disorders in rats, by injecting the endotoxin lipopolysaccharide into the posterior dorsomedial striatum, and assessed the consequences for behavioural control. Surprisingly, this manipulation caused rats to acquire and maintain goal-directed actions under conditions that would otherwise produce habits. Immunohistochemical analyses indicated that these behaviours were a result of astrocytic proliferation. To probe this further, we chemogenetically activated the Gi-pathway in striatal astrocytes, which altered the firing properties of nearby medium spiny neurons and modulated goal-directed action control. Together, results show that striatal neuroinflammation is sufficient to bias action selection toward excessive goal-directed control via dysregulated astrocyte function. If translatable, our findings suggest that, contrary to conventional views, individuals with striatal neuroinflammation might be more prone to maladaptive goal-directed actions than habits, and future interventions should aim to restore appropriate action control.


 
 
 

Comentários


© 2020-2025 by Lidiane Garcia

bottom of page