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Segurança dos Psicodélicos: Dados Globais Sugerem Que Complicações Físicas Graves Decorrentes do Uso de Psicodélicos São Raras

  • Foto do escritor: Lidi Garcia
    Lidi Garcia
  • 22 de jan.
  • 4 min de leitura

O uso de psicodélicos e MDMA tem aumentado nos últimos anos, tanto em tratamentos experimentais quanto no uso recreativo. Este estudo analisou relatos de eventos adversos enviados ao banco de dados global da OMS para entender melhor os possíveis riscos dessas substâncias no mundo real. A maioria dos eventos relatados envolveu problemas psiquiátricos relacionados a abuso e dependência, enquanto overdoses e complicações na gravidez foram raras. Os resultados sugerem que, embora essas substâncias apresentem um perfil de segurança relativamente favorável, o uso recreativo e combinado com outras drogas pode aumentar riscos importantes.


Nos últimos anos, o uso de psicodélicos clássicos e do MDMA tem aumentado tanto em contextos clínicos quanto recreativos. Substâncias que por décadas foram fortemente estigmatizadas passaram a receber grande atenção científica e midiática devido ao seu potencial para melhorar o humor, o bem-estar e tratar transtornos psiquiátricos. 


Psicodélicos clássicos como a psilocibina, o LSD, a DMT e a mescalina atuam principalmente estimulando o receptor serotoninérgico 5-HT2A, produzindo intensas alterações na percepção, no pensamento e na consciência. Já o MDMA, embora frequentemente incluído no mesmo grupo, atua por mecanismos diferentes e é mais corretamente classificado como um entactógeno.


O interesse clínico nessas substâncias tem crescido especialmente em relação ao tratamento de transtornos de humor e do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). No caso do MDMA, estudos clínicos avançados, apoiados por organizações como a MAPS, investigam seu uso combinado com psicoterapia, com resultados promissores. 



No entanto, paralelamente a esse avanço científico, também houve um aumento consistente no uso recreativo dessas substâncias pela população geral, levantando preocupações sobre segurança fora do ambiente clínico controlado.


Dados populacionais mostram que o uso recreativo de psicodélicos aumentou de forma significativa nas últimas duas décadas. Nos Estados Unidos, por exemplo, a prevalência do uso de LSD mais do que dobrou entre o início dos anos 2000 e o final da década de 2010.


O uso de psilocibina e de outras substâncias psicoativas também cresceu rapidamente, assim como a disponibilidade do MDMA em contextos não clínicos. Esse cenário reforça a necessidade de compreender melhor os possíveis riscos associados ao uso dessas drogas no mundo real.


Embora estudos anteriores tenham classificado psicodélicos clássicos e MDMA como substâncias de relativamente baixo dano em comparação com outras drogas, profissionais de saúde permanecem cautelosos.


Há preocupações sobre possíveis efeitos psicológicos adversos, risco de dependência, eventos cardiovasculares associados ao uso crônico de MDMA e potenciais efeitos tóxicos do uso repetido de psicodélicos, especialmente em regimes como a microdosagem. Esses riscos tendem a ser menores em contextos clínicos controlados e maiores no uso recreativo frequente, muitas vezes combinado com outras substâncias.



Para investigar melhor esse perfil de segurança fora dos ensaios clínicos, os autores deste estudo utilizaram o VigiBase, o banco de dados global de farmacovigilância da Organização Mundial da Saúde (OMS). Esse banco reúne relatos espontâneos e voluntários de eventos adversos enviados por profissionais de saúde, pacientes e autoridades regulatórias de diversos países. 


O objetivo do estudo não foi calcular a frequência real de eventos adversos, mas identificar sinais de possíveis riscos associados ao uso de psicodélicos clássicos e MDMA em contextos reais.


Os pesquisadores analisaram milhares de relatos associados a diferentes substâncias. A maior parte dos registros envolvia MDMA e LSD, enquanto psilocibina, DMT e mescalina apresentaram número bem menor de notificações. 


De forma geral, os eventos adversos mais frequentemente relatados foram de natureza psiquiátrica, especialmente relacionados a abuso, dependência e transtornos por uso de substâncias. Relatos de overdose foram relativamente raros, representando cerca de 1% a 2% dos casos, e complicações na gravidez ou distúrbios congênitos foram incomuns.



Ao comparar os dados com substâncias de referência, como o paracetamol e a oxicodona, observou-se que LSD e MDMA estavam associados a uma probabilidade significativamente maior de relatos relacionados a abuso de álcool, transtorno por uso de substâncias e dependência. 


Esses sinais foram mais fortes do que aqueles observados para a oxicodona, um opioide conhecido por seu potencial de dependência. No entanto, os autores ressaltam que esses achados devem ser interpretados com cautela, pois o uso concomitante de múltiplas drogas é comum e o uso de substâncias ilícitas tende a ser subnotificado.



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Adverse events associated with classic psychedelics and MDMA: a real-world population-based study using the WHO pharmacovigilance database (VigiBase)

Omer A. Syed, Sean M. Nestor, Muhammad Ishrat Husain, Mark Sinyor, Fahad Alam, and Peter Giacobbe

Psychiatry Research, Volume 357, March 2026, 116929


Abstract:


Psychedelic use has greatly increased within clinical and recreational settings over recent years. While demonstrating a favorable safety profile within certain clinical populations, little empirical research has explored safety of psychedelic use within real-world samples. Using the World Health Organization (WHO) VigiBase, a comprehensive global pharmacovigilance database with voluntary spontaneous reporting of adverse events (AEs) from real-world clinical and recreational populations, we examined reports for classic psychedelics and MDMA. Most reports were made for MDMA (n = 1573) and LSD (n = 394), while psilocybin (n = 56), DMT (n = 18), and mescaline (n = 15) had fewer reports. The most common AEs for all substances were psychiatric in nature, specifically surrounding substance or drug abuse and dependence. Reports of overdose constituted 1.1 to 1.7 % of total AEs. Pregnancy-related and congenital disorders were rare. Compared to the acetaminophen control, LSD and MDMA were associated with significantly greater odds for the reported AEs of alcohol abuse (LSD: ROR=45.7, 95 % CI: 27.2 – 76.9; MDMA: ROR=19.2, 95 % CI: 12.2 – 30.4), substance use disorder (LSD: ROR=71.1, 95 % CI: 36.3 – 139.2; MDMA: ROR=129.9, 95 % CI: 78.4 – 215.5) and substance dependence (LSD: ROR=215.1, 95 % CI: 69.0 – 670.3; MDMA: ROR=76.8, 95 % CI: 25.5 – 231.8). These reports were also greater than those associated with the external positive control, oxycodone. Taken together, this exploratory study provides the first analysis of AEs associated with psychedelics reported to a global pharmacovigilance database and can inform their real-world safety. Findings should be considered in light of limitations surrounding co-use of other substances and potential deterrence towards reporting use of illicit substances.


 
 
 

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