Reprogramando o Desejo de Comer: Primeiro Estudo a Identificar o Efeito do Mounjaro no Cérebro Humano
- Lidi Garcia
- 27 de nov. de 2025
- 6 min de leitura

Este estudo investigou como um medicamento usado para tratar obesidade e diabetes, a tirzepatida (Mounjaro), afeta áreas do cérebro relacionadas ao desejo intenso de comer. Em um paciente, o medicamento reduziu tanto os episódios de preocupação com comida quanto um sinal elétrico específico no núcleo accumbens, uma região ligada ao prazer alimentar. Meses depois, o sinal reapareceu antes dos sintomas, sugerindo uma possível perda do efeito ao longo do tempo. Esses resultados indicam que esse sinal cerebral pode funcionar como um marcador para monitorar ou ajustar tratamentos no futuro, mas mais pesquisas são necessárias.
Os comportamentos alimentares humanos são regulados por dois grandes sistemas do cérebro. O primeiro sistema está ligado à sobrevivência e funciona quando comemos porque realmente precisamos de energia, esse processo é chamado de alimentação homeostática. Ele envolve áreas do cérebro como o hipotálamo e partes do tronco encefálico, que monitoram sinais do corpo, por exemplo, fome, saciedade e gasto energético.
O segundo sistema está relacionado ao prazer que sentimos ao comer certos alimentos, especialmente alimentos ricos em gordura, sal e açúcar, e é chamado de alimentação hedônica. Esse sistema envolve um circuito cerebral chamado circuito mesolímbico, e uma de suas estruturas principais é o núcleo accumbens.
Embora esses dois sistemas pareçam separados, hoje sabemos que eles interagem intensamente. Isso significa que fome real e vontade de comer por prazer não são fenômenos independentes, mas partes de um único sistema complexo que envolve motivação, emoções e tomada de decisão.

Medicamentos usados para tratar obesidade e diabetes, conhecidos como terapias baseadas em incretinas, atuam em receptores que estão presentes tanto no hipotálamo quanto no núcleo accumbens, o que sugere que eles podem influenciar tanto a fome quanto o desejo compulsivo de comer.
Apesar disso, ainda sabemos pouco sobre como esses medicamentos modificam especificamente a atividade do circuito do prazer alimentar em humanos. Quando o sistema mesolímbico funciona de forma desregulada, a pessoa pode ter pensamentos repetitivos sobre comida e reagir exageradamente a estímulos alimentares, como cheiro, lembrança ou visão de alimentos altamente palatáveis.
Esse padrão é chamado de preocupação alimentar. Quando a preocupação com a comida é frequente e intensa, ela pode levar a comportamentos alimentares descontrolados, como episódios de comer rapidamente, comer escondido, comer mesmo sem fome ou sentir falta de controle durante a alimentação. Em casos mais graves, isso pode evoluir para compulsão alimentar.
Esse tipo de sintoma é muito comum: cerca de 70% das pessoas com obesidade apresentam algum grau de descontrole alimentar. Pesquisas sugerem que pessoas com compulsão alimentar têm um cérebro ainda mais sensível a recompensas alimentares e apresentam maior impulsividade, especialmente em áreas envolvidas na motivação e controle de impulsos.

Embora medicamentos baseados em incretinas já demonstrem melhora nesses sintomas, alguns estudos sugerem que o efeito pode diminuir com o tempo, possivelmente porque o cérebro se adapta ao medicamento. Por isso, seria útil detectar sinais do cérebro que mudam quando o medicamento está funcionando, permitindo acompanhar ou ajustar o tratamento.
Para investigar isso, os pesquisadores usaram uma técnica chamada eletroencefalografia intracraniana. Diferente do exame tradicional feito sobre o couro cabeludo, essa técnica registra diretamente a atividade elétrica do cérebro através de eletrodos implantados cirurgicamente. Isso permite observar sinais neurais com grande precisão.
Os participantes desse estudo eram pessoas com obesidade grave e episódios frequentes de perda de controle alimentar, que já haviam passado por cirurgia bariátrica, mas continuavam com comportamento alimentar desregulado.

Essa figura mostra uma pesquisa em que cientistas implantaram eletrodos no cérebro de pessoas com compulsão alimentar para entender e tentar controlar os pensamentos intensos sobre comida. A primeira parte (a–c) mostra onde os eletrodos foram colocados: em uma região chamada núcleo accumbens (NAc), que está ligada ao desejo e recompensa. O painel (d) mostra a linha do tempo do tratamento, incluindo cirurgia, uso de medicação e gravações dos sinais cerebrais. As imagens (e) e (f) mostram gráficos comparando a atividade elétrica do cérebro quando a pessoa estava tranquila (linha azul) e quando estava com forte preocupação com comida (rosa). Já os gráficos (g) e (h) mostram que, nesses momentos de grande desejo por comida, havia mais atividade em um tipo específico de onda cerebral (faixas delta-theta). Em resumo, o estudo tenta identificar um “sinal cerebral” ligado ao desejo intenso por comida para futuramente usar estimulação cerebral profunda como forma de tratamento para compulsão alimentar.
Em estudos anteriores com esses participantes, os pesquisadores encontraram um tipo específico de atividade cerebral de baixa frequência (entre dois e oito hertz) no núcleo accumbens sempre que a pessoa relatava forte preocupação alimentar. Esse tipo de atividade, chamado oscilação delta-teta, passou a ser considerado um possível marcador biológico de risco para episódios de descontrole alimentar.
Quando os pesquisadores analisaram os dados dos dois primeiros participantes, observaram que, antes de receberem estimulação cerebral terapêutica, esses sinais delta-teta eram claramente maiores nos momentos de preocupação alimentar intensa comparados aos momentos neutros.
Depois de meses de estimulação personalizada, um tratamento experimental usado para reduzir episódios alimentares desregulados, os sinais diminuíram e ficaram parecidos com momentos sem preocupação alimentar, ao mesmo tempo em que os episódios diminuíram.

Com base nisso, os pesquisadores propuseram que a presença ou o aumento dessa oscilação no núcleo accumbens poderia indicar maior propensão ao descontrole alimentar. No presente estudo, eles queriam investigar se medicamentos baseados em incretinas, especialmente a tirzepatida (Moujaro), influenciariam esse mesmo marcador neural.
Mounjaro (nome comercial da tirzepatida) é um medicamento relativamente novo utilizado principalmente no tratamento do diabetes tipo 2, e que também tem mostrado resultados promissores na redução de peso em pessoas com obesidade. Ele age imitando dois hormônios naturais do corpo, o GLP-1 e o GIP, que ajudam a controlar o açúcar no sangue, reduzir o apetite e desacelerar o esvaziamento do estômago, o que faz a pessoa sentir saciedade por mais tempo.
Estudos clínicos mostram que muitas pessoas que usam Mounjaro conseguem melhorar os níveis de glicose, reduzir a compulsão alimentar e perder uma quantidade significativa de peso.
O terceiro participante apresentou um padrão inesperado. Após iniciar o uso de tirzepatida (Mounjaro) e aumentar a dose, ele passou meses praticamente sem episódios de preocupação alimentar severa. Durante esse período, os sinais neurais delta-teta analisados estavam ausentes, ou seja, eram iguais aos registrados em momentos de controle emocional, o que contrasta com os dois participantes anteriores.
No entanto, após alguns meses, mesmo sem mudança na dose do medicamento, o marcador neural reapareceu gradualmente e precedeu o retorno dos episódios alimentares desregulados. Isso sugere que o cérebro pode ter perdido parte da resposta ao medicamento ao longo do tempo, de forma semelhante ao que ocorre em certos tratamentos psiquiátricos em que o efeito diminui após meses de uso contínuo.

Esses resultados sugerem que as terapias baseadas em incretinas (Mounjaro) podem inicialmente alterar a atividade do núcleo accumbens e reduzir a preocupação alimentar e o descontrole, mas que esse efeito pode não ser permanente em todos os casos.
O fato de o marcador neural ter voltado antes dos sintomas comportamentais significa que ele pode ser útil no futuro como ferramenta clínica para prever recaídas ou necessidade de ajuste de tratamento. Estudos em outras áreas da medicina já usam esse tipo de biomarcador para monitorar doenças neurológicas, o que indica que esse método pode ser um caminho promissor.
No entanto, como este estudo envolveu apenas um caso e uma técnica invasiva, ainda há muitas dúvidas, como se esse biomarcador é universal, se se aplica a todas as pessoas com obesidade, se o efeito é causado diretamente pelo medicamento no núcleo accumbens ou por outras mudanças no organismo, e se seria possível medir sinais semelhantes de forma não invasiva, por exemplo, com um eletroencefalograma tradicional.

Embora esse estudo tenha limitações importantes, ele abre novas possibilidades para entender como medicamentos modernos para obesidade atuam no cérebro humano. A obesidade e os transtornos alimentares associados não envolvem apenas força de vontade ou escolhas pessoais, mas circuitos cerebrais relacionados ao prazer, motivação e controle motor.
Este estudo mostra, pela primeira vez em humanos, que medicamentos como a tirzepatida (Mounjaro) podem modular diretamente esses circuitos ligados à recompensa alimentar, e que essa modulação pode ser medida. Embora ainda seja cedo para aplicar isso clinicamente, os resultados apontam para um futuro em que tratamentos para obesidade podem ser guiados por marcadores neurais personalizáveis, tornando a medicina mais precisa e eficaz.
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Brain activity associated with breakthrough food preoccupation in an individual on tirzepatide
Wonkyung Choi, Young-Hoon Nho, Liming Qiu, Andrew Chang, Gustavo Campos, Robert L. Seilheimer, W. Bryan Wilent, David Bakalov, Nida Firdous, Marie Kerr, Disha Joshi, Gabriella Maze, Uros Topalovic, Daniel Batista, Nanthia Suthana, Anastassia Amaro, Matthew R. Hayes, Iahn Cajigas, Mario Cristancho, Kelly C. Allison, Bijan Pesaran, Katherine W. Scangos, Joshua I. Gold, Thomas A. Wadden, and Casey H. Halpern
Nature Medicine. 17 November 2025
Abstract:
Obesity and related conditions are associated with distressing food preoccupation that often culminates in dysregulated eating behaviors. Incretin-based therapies can reduce excessive weight in obesity, but their impact on dysregulated eating behaviors remains largely unexamined. Understanding how these pharmacologics engage the brain’s mesolimbic circuitry may inform the expansion of their therapeutic potential. We report a rare, first-in-human exploration of the physiological action of these therapies by examining the electrophysiology directly within the human nucleus accumbens. After a short-term course of tirzepatide, the patient-participant exhibited increased severe food preoccupation episodes, which were preceded by an increased delta–theta frequency (≤7 Hz) power in the nucleus accumbens region. We propose that the effects of an incretin-based therapy (tirzepatide) on food preoccupation may be associated with modulation of aberrant activity within this key hub of human mesolimbic circuitry.



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