Ozempic: Medicamento Para Emagrecer Ajuda no Tratamento de Danos no Fígado Causados Pelo Alcool
- Lidi Garcia
- 21 de nov. de 2025
- 3 min de leitura

O estudo mostrou que agonistas do receptor GLP-1, como a semaglutida (Ozempic), reduzem o consumo de álcool e protegem o fígado contra danos causados por ingestão alcoólica em camundongos. Porém, ao diminuir a atividade de enzimas que metabolizam o álcool, os níveis de álcool no sangue podem se tornar mais altos do que o esperado. Embora o medicamento apresente potencial como tratamento para doença hepática alcoólica, os efeitos sobre o metabolismo do álcool exigem mais pesquisas antes de uso clínico.
Nos últimos anos, os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon 1 (GLP-1), como a semaglutida, tornaram-se amplamente utilizados no tratamento da obesidade e diabetes mellitus, principalmente porque reduzem o apetite e ajudam a diminuir a ingestão alimentar.
Além disso, esses medicamentos estão sendo estudados para tratar doenças hepáticas metabólicas, como a esteato-hepatite associada à disfunção metabólica, uma forma mais grave de fígado gorduroso.
Ao mesmo tempo, o consumo excessivo de álcool continua sendo um problema significativo para a saúde pública e pode causar doença hepática alcoólica, caracterizada por acúmulo de gordura no fígado, inflamação e fibrose.
Como essas doenças compartilham mecanismos semelhantes e já existem indícios de que esses medicamentos reduzem também o desejo de consumir álcool, surgiu a hipótese de que agonistas do receptor de GLP-1 poderiam ser úteis no tratamento da doença hepática alcoólica.

O objetivo do estudo foi analisar como esse medicamento influencia a saúde hepática quando existe consumo elevado de álcool. Para investigar essa questão, os pesquisadores utilizaram camundongos durante um período de dezesseis dias.
Parte dos animais recebeu dieta líquida contendo álcool, enquanto os demais receberam dieta líquida sem álcool. Dentro dessas duas condições, metade dos animais recebeu o medicamento por injeção subcutânea e a outra metade não recebeu. Durante a primeira semana as doses aumentaram progressivamente até atingir o nível completo.
No último dia os animais foram examinados para avaliar a quantidade de gordura acumulada no fígado, genes envolvidos na produção de lipídios, marcadores de inflamação, indicadores de estresse oxidativo e níveis de álcool no sangue, para observar se o medicamento interferia no metabolismo alcoólico.
Os resultados mostraram que os animais tratados com o medicamento comeram menos e também consumiram menos álcool, apresentando redução de peso corporal. Além disso, o fígado dos animais que receberam o agonista apresentou menos gordura, menos inflamação e menos danos causados por estresse oxidativo, mesmo quando continuavam ingerindo álcool.

Um achado inesperado foi que o medicamento reduziu a atividade da enzima citocromo P450 2E1, responsável por metabolizar álcool no fígado e produzir substâncias tóxicas. Essa redução ocorreu tanto nos animais expostos ao álcool quanto nos que não consumiam álcool.
Cortes de fugado corados com fluorescência em azul demostrando o núcleo das células e em vermelho o marcador para a enzima P450 2E, responsável por metabolizar álcool no fígado e produzir substâncias tóxicas, Ocorre uma diminuição na marcarcao em figados que receberam GLP-1.
Como consequência dessa alteração metabólica, os níveis de álcool no sangue permaneceram mais altos após uma dose fixa de etanol, inclusive quando o álcool foi administrado diretamente no sangue, sem passar pelo sistema digestivo.

Esses resultados indicam que os agonistas do receptor GLP-1 podem ter um duplo benefício no contexto da doença hepática relacionada ao álcool: eles parecem reduzir o consumo voluntário de álcool e também exercer um efeito protetor direto no fígado, diminuindo gordura, inflamação e danos oxidativos.
No entanto, o fato de o medicamento elevar os níveis de álcool no sangue ao desacelerar seu metabolismo exige maior investigação e cuidado antes de aplicar esse tipo de tratamento em humanos.
LEIA MAIS:
GLP-1 receptor agonism results in reduction in hepatic ethanol metabolism.
Frhaan Zahrawi, Arumugam Suyavaran, Bubu A. Banini, and Wajahat Z. Mehal
npj Metab Health Dis 3, 36 (2025).
Abstract:
Glucagon-like peptide 1 receptor (GLP-1R) agonists are used along with ethanol consumption, but their interactions are not understood. Our aim was to determine the effects of GLP-1R agonism on the liver in mouse models of high ethanol consumption. We identified that GLP-1R agonism reduced ethanol consumption, mitigated ethanol-induced upregulation of several liver metabolizing enzymes, including Cyp2e1 and also reduced Cyp2e1 independent of ethanol intake. As expected from a reduction in Cyp2e1, GLP-1R agonism resulted in increased blood ethanol levels. This occurred after a single dose of ethanol when given by gavage, and by the intraperitoneal route. This suggests that GLP-1R agonism can reduce ethanol-mediated hepatotoxicity despite continued ethanol consumption and elevate blood alcohol levels.



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