Ouvir e Tocar: O Poder da Música na Preservação da Memória e da Cognição
- Lidi Garcia
- 5 de nov. de 2025
- 4 min de leitura

Os achados sugerem que ouvir e tocar música pode ser uma estratégia simples, prazerosa e acessível para reduzir o risco de declínio cognitivo e demência em idosos. Ouvir música constantemente reduziu em 39% o risco de demência e esteve associado a melhor memória e cognição global. Tocar um instrumento reduziu em 35% o risco de demência, mas sem efeito significativo sobre outros domínios cognitivos. Combinar ouvir e tocar música reduziu em 33% o risco de demência e em 22% o risco de comprometimento cognitivo sem demência.
O envelhecimento populacional tem ampliado a preocupação com o declínio cognitivo e a demência, condições que afetam a autonomia e a qualidade de vida de milhões de idosos em todo o mundo. Embora fatores genéticos e biológicos exerçam papel importante, há crescente evidência de que estilos de vida enriquecidos cognitivamente, como educação prolongada, leitura, atividades artísticas e interação social, podem retardar o declínio cognitivo e promover resiliência cerebral.
Nesse contexto, a música emerge como uma das atividades mais envolventes e complexas para o cérebro humano, integrando memória, emoção, audição e motricidade. Mas será que ouvir ou tocar música pode realmente proteger o cérebro contra a demência?
O presente estudo teve como objetivo avaliar se o envolvimento em atividades musicais de lazer, especificamente ouvir música, tocar um instrumento ou a combinação de ambos, está associado a um menor risco de demência e de comprometimento cognitivo sem demência (CCSD) em idosos cognitivamente saudáveis.

Além disso, investigou-se se tais atividades estariam relacionadas à manutenção do bem-estar cognitivo, entendido como a preservação da função cognitiva e da qualidade de vida ao longo do tempo. Um ponto adicional explorado foi o possível efeito modificador da escolaridade sobre essas associações.
Foram utilizados dados secundários de dois grandes estudos australianos de coorte: o ASPirin in Reducing Events in the Elderly (ASPREE) e o ASPREE Longitudinal Study of Older Persons (ALSOP). A amostra incluiu 10.893 adultos com 70 anos ou mais, todos residentes na comunidade e sem diagnóstico de demência no início do acompanhamento.
O nível de envolvimento com a música foi avaliado a partir de três categorias principais:
- Ouvir música (com frequência variável: nunca/raramente/às vezes/sempre);
- Tocar um instrumento musical (frequentemente ou sempre);
- Combinar as duas atividades.
Para estimar a associação entre essas atividades e o risco de demência ao longo do tempo, os pesquisadores aplicaram modelos de regressão de riscos proporcionais de Cox, com início da análise a partir do terceiro ano de acompanhamento.
Além disso, para examinar a relação entre o envolvimento musical e o bem-estar cognitivo, foram utilizados modelos lineares mistos, que permitem analisar variações cognitivas ao longo do tempo em função de múltiplas variáveis.
As análises foram ajustadas por idade, sexo e escolaridade, de modo a controlar potenciais fatores de confusão. O foco foi identificar associações robustas, independentemente desses determinantes sociodemográficos.

Os resultados mostraram que ouvir música com frequência esteve fortemente associado a uma redução de 39% no risco de demência e a uma redução de 17% no risco de comprometimento cognitivo sem demência. Por outro lado, tocar um instrumento musical regularmente esteve associado a uma redução de 35% no risco de demência, embora sem impacto significativo sobre o risco de comprometimento cognitivo sem demência.
Os indivíduos que combinavam as duas práticas, ouvir e tocar música, apresentaram reduções intermediárias: 33% menor risco de demência e 22% menor risco de comprometimento cognitivo sem demência.
Em termos de desempenho cognitivo, ouvir música regularmente esteve associado a melhor cognição global e melhor memória ao longo do tempo, mas não houve diferenças significativas em outros domínios, como atenção, linguagem ou funções executivas.

O envolvimento musical, entretanto, não apresentou relação significativa com o bem-estar cognitivo subjetivo, ou seja, com a percepção pessoal de qualidade de vida e satisfação mental. De forma interessante, os efeitos protetores foram mais marcantes em indivíduos com maior escolaridade (≥ 16 anos), enquanto aqueles com nível educacional intermediário (12–15 anos) apresentaram resultados inconsistentes.
Os achados sugerem que ouvir e tocar música pode ser uma estratégia simples, prazerosa e acessível para reduzir o risco de declínio cognitivo e demência em idosos. Embora o estudo seja observacional e não permita afirmar causalidade, ele reforça a hipótese de que o engajamento cognitivo e emocional proporcionado pela música pode fortalecer a reserva cognitiva e proteger o cérebro contra o envelhecimento neural.
Esses resultados ampliam o entendimento sobre a música como ferramenta de promoção da saúde cerebral, especialmente em populações idosas com alto nível educacional.
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What Is the Association Between Music-Related Leisure Activities and Dementia Risk? A Cohort Study
Emma Jaffa, Zimu Wu, Alice Owen, Aung Azw Zaw Phyo, Robyn L. Woods, Suzanne G. Orchard, Trevor T.-J. Chong, Raj C. Shah, Anne Murray, and Joanne Ryan
Geriatric Psychiatry, Volume 40, Issue10, October 2025, e70163
Abstract:
To determine whether engagement in music-related leisure activities is associated with a reduced risk of dementia and cognitive impairment no dementia (CIND), as well as better cognitive wellbeing in initially cognitively healthy older adults. Here, cognitive wellbeing includes maintaining good cognitive function as well as quality of life. Potential effect modification by education was also investigated. This study used secondary data from the ASPirin in Reducing Events in the Elderly (ASPREE) study, and the ASPREE Longitudinal Study of Older Persons (ALSOP) sub-study. Included were 10,893 community-dwelling Australian adults who were 70 years and older, without dementia diagnosis at recruitment to the study. Cox proportional hazard regression models were used to determine the association between level of music engagement (listening to music, playing an instrument, and a combination of both) and dementia risk from year 3 onwards. Linear mixed models were used to investigate the association with cognitive wellbeing. Analyses adjusted for age, gender and level of education completed. Always listening to music, compared with never/rarely/sometimes, was associated with a 39% decreased risk of dementia (95% CI = 0.45,0.82, p = 0.001), and a 17% decreased risk of CIND (95% CI = 0.74, 0.92, p = 0.001). Playing an instrument (often/always) was associated with a 35% decreased dementia risk only (95% CI = 0.42,0.99, p = 0.047). Participants who both listened to and played music had a 33% decreased dementia risk (95% CI = 0.51,0.89, p = 0.006) and a 22% decreased CIND risk (95% CI = 0.65,0.92, p = 0.004). Always listening to music was associated with better global cognition and memory over time (p < 0.001, p = 0.004, respectively), but not the other cognitive domains. Engagement in music-related activities was not associated with changes in subjective cognitive wellbeing. In general, findings were stronger in individuals with over 16 years of education.These results highlight music as a potential promising, accessible strategy to help reduce cognitive impairment and delay the onset of dementia in later life.



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