O Lado Invisível da Maternidade: Depressão e Psicose Aumentam Após o Parto
- Lidi Garcia
- 2 de out. de 2025
- 4 min de leitura

Este grande estudo com quase 1,8 milhão de gestações na Suécia mostrou que o risco de transtornos mentais em geral é menor durante a gravidez, mas aumenta significativamente nas semanas seguintes ao parto para depressão e psicose. A pesquisa destaca a importância do monitoramento psicológico materno no período pós-parto.
A saúde mental das mães é um tema essencial para a saúde pública, pois influencia não apenas o bem-estar psicológico a longo prazo, mas também a saúde física imediata e a qualidade de vida da família.
Diversos estudos mostram que problemas mentais durante ou após a gravidez aumentam o risco de doenças autoimunes, cardiovasculares, distúrbios hormonais, comportamento suicida e até morte precoce. Por isso, entender quando e como esses transtornos aparecem ao redor da gestação é fundamental para criar estratégias de prevenção e tratamento.
A gestação e o período após o parto representam fases de profundas mudanças biológicas e emocionais. O corpo passa por alterações hormonais intensas, ajustes no sistema imunológico e mudanças no metabolismo. Ao mesmo tempo, ocorre a adaptação a uma nova vida familiar e às responsabilidades da maternidade.
Essas transformações, combinadas, tornam as mulheres mais vulneráveis a desenvolver transtornos psiquiátricos, como depressão, ansiedade, transtorno bipolar, distúrbios alimentares, abuso de substâncias, transtornos relacionados ao estresse e, em casos mais graves, psicose.

Embora seja sabido que a depressão é relativamente comum após a gravidez, as informações sobre a frequência e o momento em que diferentes transtornos aparecem ainda são limitadas. Muitos estudos anteriores compararam apenas antes e depois da gravidez, mas não avaliaram com profundidade o período gestacional.
Além disso, a maioria não considerou atendimentos feitos na atenção primária, onde muitos casos leves a moderados são identificados, focando apenas em internações hospitalares ou diagnósticos especializados.
Este estudo foi realizado na Suécia e buscou preencher essa lacuna. Os pesquisadores analisaram registros médicos nacionais e regionais de todas as mulheres que deram à luz no país entre 2003 e 2019, o que corresponde a quase 1,8 milhão de gestações. A força desse estudo está na escala e na abrangência: foram incluídos tanto atendimentos de atenção primária quanto de especialistas, o que permite uma visão muito mais realista da situação.
Os cientistas dividiram o acompanhamento das mães em três períodos distintos:
Ano pré-concepcional: os 12 meses antes da gravidez.
Gravidez: os 9 meses da gestação.
Ano pós-parto: os 12 meses após o nascimento.
Eles registraram todos os novos diagnósticos de transtornos psiquiátricos e calcularam a frequência dessas doenças em cada semana e ano, padronizando os dados por idade e período histórico. Além disso, compararam os riscos de desenvolver cada transtorno ao longo do tempo, tomando como referência o período pré-concepcional.

Os resultados mostraram um padrão claro. Em geral, o risco de ter algum transtorno psiquiátrico foi estável antes da gravidez (cerca de 25 casos a cada 1.000 mulheres por ano). Durante a gestação, essa taxa diminuiu bastante, chegando a 4 casos por 1.000. Após o parto, o risco voltou ao mesmo nível de antes da gestação.
Porém, dois transtornos se destacaram: a depressão e a psicose, que aumentaram significativamente nas primeiras semanas após o parto (entre a 5ª e a 15ª semana para depressão e entre a 0ª e a 20ª semana para psicose). Isso mostra que o período logo após o nascimento é uma janela de maior vulnerabilidade.
Em resumo, a pesquisa revela que, embora a gravidez em si pareça estar associada a um risco mais baixo de transtornos mentais, o pós-parto é um período crítico para o surgimento de depressão e psicose. Esses achados reforçam a necessidade de atenção médica direcionada logo após o parto, não apenas para a saúde física do bebê, mas também para a saúde mental da mãe.
LEIA MAIS:
Maternal psychiatric disorders before, during, and after pregnancy: a national cohort study in Sweden
Emma Bränn, Jerry Guintivano, Yihui Yang, Louise Lundborg, Marion Opatowski, Fang Fang, Unnur A. Valdimarsdóttir, Emma Fransson, Alkistis Skalkidou, Yi Lu, and Donghao Lu
Molecular Psychiatry. (2025)
Abstract:
Maternal mental health is a critical public health issue, yet the evidence on rates of incident psychiatric disorders before, during, and after pregnancy is limited. This study aimed to describe the calendar time trends and characterize and compare the risk of maternal psychiatric disorders before, during, and after pregnancy. Leveraging the national and regional registers in Sweden, we conducted a cohort study of all women who gave birth 2003–2019 in Sweden (1,799,010 pregnancies from 1,052,977 women). We identified any incident diagnosis of psychiatric disorders recorded during three periods: the preconceptional year, pregnancy, and the postpartum year. We calculated age and calendar year standardized incidence rate (SIR) of psychiatric disorders annually, and by week across three periods. We further estimated the incidence rate ratio (IRR) using the rate during corresponding preconceptional weeks as the reference. The SIR of maternal psychiatric disorder overall increased from 2003–2019, especially for preconceptional disorders. During the preconceptional year the weekly SIR of any psychiatric disorder was stable at around 25 per 1000 person-years. The SIR gradually decreased during pregnancy to a minimum of 4 per 1000 person-years and bounced back to the preconceptional levels during the postpartum year. This trend was similar in all subtypes of psychiatric disorders, except for depression and psychosis for which an increase was noted at 5–15 and 0–20 postpartum weeks, respectively. An increased incidence rate of maternal psychiatric disorder diagnosed before, during, and after pregnancy was found over time. Our findings suggest an increased risk of depression and psychosis shortly after delivery, although a lowered risk of other psychiatric disorders during and after pregnancy, compared to before pregnancy.



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