Dupla Proteção: Vacina Contra Herpes-Zóster Reduz Risco e Progressão da Demência
- Lidi Garcia
- 17 de dez. de 2025
- 5 min de leitura

Pesquisas recentes mostram que a vacina contra herpes-zóster pode ajudar a reduzir o risco de demência, diminuir casos de comprometimento cognitivo leve e até reduzir mortes por demência em pessoas que já têm a doença. Isso acontece provavelmente porque a vacina evita reativações do vírus varicela-zóster, que podem causar inflamação no cérebro, e também porque ela fortalece o sistema imunológico dos idosos como um todo. Esses efeitos foram observados em dois países diferentes usando métodos muito confiáveis.
A ciência já sabe que a neuroinflamação, isto é, processos inflamatórios dentro do cérebro, tem um papel importante no desenvolvimento e na piora de vários tipos de demência. Isso levou os pesquisadores a pensar se certos vírus que conseguem atingir o sistema nervoso poderiam também contribuir para esse processo.
Entre esses vírus, os herpesvírus neurotrópicos são os mais estudados. Eles chamam a atenção porque, depois da primeira infecção, eles não vão embora: permanecem “adormecidos” dentro do sistema nervoso durante toda a vida e podem “acordar” novamente, especialmente com o avanço da idade. Além disso, eles são conhecidos por poder causar inflamação no cérebro, como em casos de encefalite.
Algumas descobertas recentes reforçaram ainda mais essa hipótese. Por exemplo, já se observou que certos herpesvírus podem favorecer a formação de beta-amiloide e tau fosforilada, que são duas proteínas fortemente ligadas à doença de Alzheimer.
Há também evidências de que outro vírus da família, o vírus Epstein-Barr, é provavelmente um fator causal importante da esclerose múltipla. Tudo isso aumentou o interesse em entender se vírus semelhantes poderiam influenciar o surgimento de demência.

O vírus varicela-zóster, que causa catapora e, mais tarde na vida, herpes-zóster, é especialmente relevante. Mesmo quando a pessoa não tem sintomas visíveis, ele pode reativar silenciosamente e gerar uma pressão constante sobre o sistema imunológico. Essa reativação repetida pode desencadear inflamação tanto no sistema nervoso periférico quanto dentro do cérebro, prejudicando o equilíbrio imunológico das pessoas idosas.
Além disso, o vírus varicela-zóster tem sido associado à formação de placas de amiloide, ao acúmulo de tau e até a danos vasculares no cérebro, semelhantes aos observados em muitos casos de demência.
Diante disso, imaginar que a vacinação contra o herpes-zóster possa ajudar faz sentido. Se a vacina reduz essas reativações do vírus, ela pode diminuir parte dessa inflamação crônica que afeta o cérebro. Isso poderia não só reduzir o risco de demência, mas também preservar a saúde imunológica e até ajudar na manutenção da capacidade cognitiva em idosos.

Além disso, estudos recentes sugerem que algumas vacinas podem trazer benefícios indiretos para a saúde, ou seja, efeitos positivos além da proteção contra o microrganismo-alvo. Eles podem modular o sistema imunológico de forma mais ampla e reduzir a chamada “imunossenescência”, que é o enfraquecimento natural do sistema imune com a idade.
Interessantemente, esses efeitos extras costumam ser mais fortes em mulheres e também ocorrem com mais destaque em vacinas feitas com vírus vivos atenuados, como é o caso da vacina contra herpes-zóster analisada neste estudo.
Um dos elementos mais importantes dessa linha de pesquisa é uma quase-randomização natural ocorrida no País de Gales. O Serviço Nacional de Saúde britânico implementou a vacina contra herpes-zóster com regras rígidas de elegibilidade baseadas apenas no dia de nascimento.
Como consequência, pessoas que faziam aniversário em uma semana específica tinham quase 50% a mais de chance de receber a vacina do que pessoas nascidas apenas alguns dias antes. Isso criou uma situação parecida com um experimento controlado: dois grupos quase idênticos em tudo, saúde, estilo de vida, perfil socioeconômico, mas diferentes principalmente na probabilidade de terem sido vacinados.
Assim, foi possível comparar a incidência de demência entre esses grupos sem a preocupação de que pessoas “mais saudáveis” fossem automaticamente as que escolhem se vacinar, algo que costuma distorcer estudos observacionais tradicionais.

Quando os pesquisadores analisaram esses grupos por sete anos, descobriram que a vacinação evitou aproximadamente um em cada cinco novos casos de demência. Mais tarde, usando uma situação idêntica na Austrália, eles encontraram praticamente o mesmo resultado, reforçando que o efeito não era algo específico de uma única população.
Embora esses estudos anteriores tivessem mostrado claramente que a vacina parecia reduzir novos casos de demência, ainda faltava entender em qual momento do processo da doença esse benefício acontecia. Será que a vacina ajuda apenas antes da demência surgir? Ou também pode ajudar pessoas que já têm diagnóstico?
Para responder isso, o novo estudo se concentrou em dois pontos extremos da doença: por um lado, observar se a vacinação reduz novos diagnósticos de comprometimento cognitivo leve (CCL), que muitas vezes é o primeiro sinal clínico de demência; por outro lado, avaliar se a vacina diminui mortes por demência entre aqueles que já têm a doença.

A metodologia seguiu o mesmo princípio da “quase-randomização” baseada na data de nascimento, porque isso garante que as comparações sejam justas, reduzindo a chance de fatores externos influenciarem os resultados. Como não havia, no período estudado, exames populacionais amplos de amiloide ou tau, os pesquisadores usaram esses dois marcadores clínicos extremos (comprometimento cognitivo leve e morte por demência) para mapear o possível impacto da vacina ao longo de toda a trajetória da doença.
Os resultados mostraram um efeito benéfico em ambos os pontos: a vacinação reduziu tanto novos diagnósticos de comprometimento cognitivo leve quanto mortes por demência entre pessoas já diagnosticadas.
Isso indica que a vacina parece atuar em todas as fases do curso clínico da demência, prevenindo sua instalação e também desacelerando sua progressão. Os dados sugerem ainda que esses efeitos não são específicos de um tipo particular de demência, reforçando a hipótese de que o mecanismo principal pode ser imunológico e não relacionado a um patógeno único.
Assim, este conjunto de estudos aponta que a vacinação contra herpes-zóster com vírus vivo atenuado pode desempenhar um papel importante na proteção cognitiva ao longo da vida idosa, oferecendo benefícios que vão além da prevenção do herpes-zóster em si e possivelmente influenciando a saúde cerebral de maneira ampla.

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The effect of shingles vaccination at different stages of the dementia disease course
Min Xie, Markus Eyting, Christian Bommer, Haroon Ahmed, and Pascal Geldsetzer
Cell. 2 December 2025
DOI: 10.1016/j.cell.2025.11.007
Abstract:
Using natural experiments, we have previously reported that live-attenuated herpes zoster (HZ) vaccination appears to have prevented or delayed dementia diagnoses in both Wales and Australia. Here, we find that HZ vaccination also reduces mild cognitive impairment diagnoses and, among patients living with dementia, deaths due to dementia. Exploratory analyses suggest that the effects are not driven by a specific dementia type. Our approach takes advantage of the fact that individuals who had their eightieth birthday just after the start date of the HZ vaccination program in Wales were eligible for the vaccine for 1 year, whereas those who had their eightieth birthday just before were ineligible and remained ineligible for life. The key strength of our natural experiments is that these comparison groups should be similar in all characteristics except for a minute difference in age. Our findings suggest that live-attenuated HZ vaccination prevents or delays mild cognitive impairment and dementia and slows the disease course among those already living with dementia.



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