Do Berço à Adolescência: O Caminho Entre Tempo de Tela, Decisões e Ansiedade
- Lidi Garcia
- 28 de jan.
- 5 min de leitura

O uso excessivo de telas nos primeiros anos de vida tem aumentado e preocupa especialistas, pois esse período é crucial para o desenvolvimento do cérebro. Este estudo acompanhou crianças desde a infância até a adolescência e mostrou que maior tempo de exposição às telas entre um e dois anos de idade está associado a alterações no desenvolvimento das redes cerebrais responsáveis pelo controle visual e cognitivo. Essas mudanças se relacionaram a maior dificuldade na tomada de decisões na infância e a níveis mais altos de ansiedade na adolescência.
As telas, como celulares, tablets, televisões e computadores, fazem parte do dia a dia da sociedade moderna e seu uso continua crescendo. Em todo o mundo, crianças cada vez mais novas passam muito tempo em frente às telas. Muitos bebês ficam entre duas e três horas por dia expostos a telas, o que ultrapassa bastante o tempo recomendado pela Organização Mundial da Saúde.
Esse excesso tem preocupado especialistas, tanto que autoridades de saúde dos Estados Unidos e de Singapura emitiram alertas recentes pedindo que pais adiem o contato das crianças com mídias digitais, limitem o tempo de uso e acompanhem de perto o que é consumido.
Essa preocupação é ainda maior porque os dois primeiros anos de vida são um período extremamente importante para o desenvolvimento do cérebro. Nesse intervalo, o cérebro cresce rapidamente: ele dobra de tamanho no primeiro ano de vida e continua crescendo de forma intensa no segundo.
Além disso, as conexões entre diferentes regiões do cérebro passam por grandes transformações. Essas mudanças ajudam a construir as bases para habilidades futuras, como linguagem, controle das emoções, atenção, aprendizado e comportamento.

Diversos estudos já mostraram que o uso excessivo de telas na infância pode afetar esse desenvolvimento cerebral. Pesquisas usando exames de imagem do cérebro indicam alterações na substância branca, que é formada por fibras que conectam diferentes áreas cerebrais e são essenciais para habilidades como leitura, linguagem e processamento sensorial.
Outros estudos observaram mudanças na forma como redes cerebrais responsáveis pelo controle cognitivo e pelo processamento das emoções se comunicam entre si. No entanto, a maioria dessas pesquisas analisou o cérebro em apenas um momento da vida, o que não permite acompanhar como essas mudanças acontecem ao longo do tempo.
O desenvolvimento do cérebro é um processo contínuo e dinâmico. Por isso, acompanhar as mesmas crianças ao longo de vários anos, usando exames repetidos de imagem cerebral, é fundamental para entender como o tempo de exposição às telas influencia a maturação do cérebro.
Além disso, muitos estudos focam apenas em alterações estruturais do cérebro, como tamanho ou espessura de regiões específicas, o que é limitado quando se quer compreender comportamentos complexos, como tomada de decisões e ansiedade.

Sabe-se que o excesso de tempo de tela na infância está associado a vários efeitos negativos, incluindo maior risco de ansiedade. Porém, ainda não estava claro como essas mudanças no cérebro se conectam ao comportamento e às emoções ao longo do desenvolvimento.
O objetivo deste estudo foi investigar se o tempo de exposição às telas nos primeiros anos de vida influencia a forma como as redes cerebrais se organizam, como isso afeta a capacidade de tomar decisões e se esses fatores contribuem para sintomas de ansiedade na adolescência.
Para isso, os pesquisadores acompanharam crianças desde a primeira infância até a adolescência, utilizando dados de um grande estudo realizado em Singapura. O tempo diário de exposição às telas foi registrado quando as crianças tinham entre um e dois anos de idade. Entre os quatro e sete anos, elas realizaram exames de ressonância magnética que permitem analisar como as redes do cérebro se conectam.
Mais tarde, foram avaliadas quanto à tomada de decisões por meio de uma tarefa que mede quanto tempo a criança leva para decidir diante de riscos, e, na adolescência, foram avaliados sintomas de ansiedade por meio de questionários psicológicos padronizados.
Os resultados mostraram que crianças com maior tempo de exposição às telas na primeira infância apresentaram mudanças mais rápidas e acentuadas em redes cerebrais ligadas ao controle visual e cognitivo.

Essas alterações estiveram associadas a uma maior demora para tomar decisões na infância, o que, por sua vez, se relacionou a níveis mais elevados de ansiedade na adolescência. Esses achados sugerem que o uso excessivo de telas pode acelerar certos aspectos da maturação cerebral de forma desfavorável, afetando o processamento sensorial, o comportamento e a saúde emocional a longo prazo, e indicam que a redução do tempo de tela nos primeiros anos de vida pode ser um alvo importante para prevenção precoce.
Portanto, estratégias de saúde pública para reduzir o tempo de tela na infância podem gerar benefícios significativos para o desenvolvimento cognitivo e a saúde mental das crianças. No entanto, mais estudos mecanísticos são necessários para corroborar essa descoberta.
É imprescindível que a importância dessas descobertas não seja subestimada, pois representam um avanço significativo no conhecimento, com implicações para a prevenção e a intervenção.
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Neurobehavioural links from infant screen time to anxiety
Pei Huang, Shi Yu Chan, Kathy Xinzhuo Zhou, Jasmine Chuah, Aisleen Mariz, Arellano Manahan, Evelyn Chung Ning Law, Shefaly Shorey, Helen Juan Zhou, Marielle Valerie Fortiera, Yap-Seng Chonga, Michael Joseph Meaney, and Ai Peng Tan
EBioMedicine. Volume 123106093, January 2026
DOI: 10.1016/j.ebiom.2025.106093
Abstract:
Infant screen time is linked to many negative outcomes, including anxiety, but the underlying neural correlates and pathways remains understudied. We aimed to assess the directional association between infant screen time, development of brain network topology, decision-making behaviour and anxiety symptoms in adolescence. Using data from the Growing Up in Singapore Towards healthy Outcomes (GUSTO) cohort study, we examined the effects of total daily screen time for infants on developmental outcomes using structural equation modelling. Specifically, we looked at the developmental slopes of network integration for the seven major brain cortical networks between ages 4.5, 6.0, and 7.5, decision-making behaviour assessed using the Cambridge Gambling Task (CGT) and anxiety symptoms assessed using the Multidimensional Anxiety Scale for Children, 2nd Edition (MASC). This study included 168 children from the GUSTO cohort with data on infant screen time (ages 1–2), diffusion MRI (ages 4.5–7.5), data on decision-making performance (CGT at age 8.5), and anxiety symptoms (MASC at age 13). Brain network integration was derived from diffusion MRI and each participant's developmental slopes were modelled using latent growth models. Structural equation modelling assessed pathways linking early screen time to adolescent anxiety, mediated by brain network development and decision-making. Higher infant screen time was associated with a steeper decline in visual-cognitive control network integration from ages 4.5–7.5 years (β = −1.03 (−1.61, −0.46)), which mediated increased CGT deliberation time at age 8.5. Deliberation time, in turn, was associated with greater anxiety symptoms at age 13. A full serial mediation pathway was significant, linking infant screen time to later anxiety via accelerated brain network maturation and decision-making behaviour (β = 0.033 (0.002, 0.160)). Higher infant screen time is linked to accelerated topological maturation of the visual and cognitive control networks, leading to prolonged decision latency and increased adolescent anxiety. Sensory processing impairment may underlie this novel neurodevelopmental pathway, highlighting a potential target for early intervention. This research was supported by the Singapore National Research Foundation, Singapore Ministry of Health’s National Medical Research Council (NMRC), Singapore, Institute for Human Development and Potential, Agency for Science, Technology and Research, Singapore, the Hope for Depression Research Foundation, USA, the Toxic Stress Network of the JPB Foundation, USA, and the Jacobs Foundation, Switzerland.



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