Cannabis Medicinal: Eficaz Para Dor Crônica, Mas Difícil de Manter a Longo Prazo
- Lidi Garcia
- 10 de nov. de 2025
- 4 min de leitura

Pesquisadores descobriram que quase 60% dos pacientes que usam cannabis medicinal para tratar dor musculoesquelética crônica interrompem o tratamento em até um ano. Apesar de seus benefícios comprovados no alívio da dor, fatores como idade avançada, efeitos colaterais e expectativas pessoais parecem influenciar a continuidade do uso. O estudo reforça a necessidade de compreender melhor como adaptar a cannabis medicinal a diferentes perfis de pacientes.
A dor musculoesquelética crônica é um problema de saúde extremamente comum que atinge milhões de pessoas em todo o mundo e pode reduzir drasticamente a qualidade de vida. Ela se manifesta quando ossos, músculos, articulações ou tendões doem continuamente por meses ou anos, mesmo após o tratamento de uma lesão ou doença.
Apesar de existirem vários tipos de medicamentos e terapias físicas, muitas pessoas continuam sentindo dor intensa e incapacitante, o que tem estimulado a busca por tratamentos alternativos, entre eles o uso da cannabis medicinal.
A cannabis medicinal se refere ao uso controlado e supervisionado de compostos derivados da planta Cannabis sativa, especialmente o tetra-hidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD), para fins terapêuticos. Esses compostos atuam sobre o sistema endocanabinoide do corpo humano, um conjunto de receptores e moléculas que ajuda a regular funções como dor, humor e sono.
O THC, por exemplo, se liga principalmente aos receptores CB1, localizados no cérebro, ajudando a reduzir a transmissão dos sinais de dor. Já o CBD atua sobre os receptores CB2, encontrados em nervos periféricos e células do sistema imunológico, modulando a resposta inflamatória. Em conjunto, esses efeitos explicam por que a cannabis tem sido estudada como uma possível ferramenta para aliviar dores persistentes.

Diversos estudos clínicos já mostraram que a cannabis medicinal pode reduzir significativamente a dor crônica em muitos pacientes, chegando a resultados superiores a 50% de melhora em relação a tratamentos com placebo. No entanto, os benefícios vêm acompanhados de algumas preocupações importantes.
O uso prolongado da cannabis pode afetar a função cognitiva, ou seja, as habilidades mentais responsáveis pela memória, atenção e velocidade de raciocínio. Pesquisas com exames de imagem cerebral sugerem que o uso frequente e prolongado pode levar à redução do volume do hipocampo, uma região essencial para a memória. Por isso, embora eficaz para o alívio da dor, seu impacto mental ainda é motivo de cautela.
Além disso, a experiência clínica mostra que nem todos os pacientes respondem da mesma forma à cannabis medicinal. Enquanto alguns relatam melhora significativa, outros abandonam o tratamento por insatisfação, falta de eficácia, efeitos colaterais ou preferência por métodos mais tradicionais, como fisioterapia, infiltrações ou cirurgias.
Ainda há pouca pesquisa sobre os motivos que levam as pessoas a interromper o uso da cannabis medicinal, o que é essencial para entender como ela pode ser usada de maneira mais eficaz e segura.

Para investigar essa questão, pesquisadores realizaram um estudo retrospectivo com 78 pacientes que utilizaram cannabis medicinal por até dois anos para tratar dor musculoesquelética crônica. Eles analisaram dados como idade, tipo de dor e estado geral de saúde (física e mental), medidos antes de iniciar o tratamento. A pesquisa acompanhou os pacientes por um período de três meses e depois um ano, avaliando quem manteve ou abandonou o uso.
Os resultados mostraram que 57,9% dos pacientes interromperam o uso de cannabis medicinal após um ano, sendo que quase metade (44,7%) o fez ainda nos primeiros três meses. Curiosamente, os pacientes mais velhos foram os que mais abandonaram o tratamento.
O tipo de dor (por exemplo, dor lombar, artrose, fibromialgia) não apresentou diferenças significativas entre quem continuou e quem parou o uso, e tampouco houve variação relevante nos índices de saúde física e mental entre os grupos.

Esses achados sugerem que a decisão de parar o uso da cannabis medicinal não depende apenas da localização da dor ou do estado de saúde geral, mas possivelmente de outros fatores, como expectativas pessoais, efeitos colaterais percebidos, custo do tratamento ou até questões culturais.
Os pesquisadores concluem que são necessárias mais investigações a longo prazo para entender por que muitos pacientes abandonam o uso e como ajustar o tratamento para torná-lo mais eficaz e sustentável.
LEIA MAIS:
Discontinuation rates and predictors of Medical Cannabis cessation for chronic musculoskeletal pain
Mohammad Khak, Sina Ramtin, Juliet Chung, Asif M. Ilyas and Ari Greis,
PLoS One 20(8): e0329897
DOI: 10.1371/journal.pone.0329897
Abstract:
Medical cannabis (MC) is increasingly used as a treatment for chronic musculoskeletal pain, but there is limited data on factors influencing its discontinuation. This study aims to investigate the rates of MC discontinuation and explore factors influencing it in patients with chronic musculoskeletal pain. A retrospective analysis was conducted on 78 patients certified for medical cannabis over a 2 year period. Patient demographics, pain origin, and Global Physical Health (GPH) and Global Mental Health (GMH) scores were collected before intervention. Discontinuation rates were measured at three-month and one-year follow-up. Statistical analyses, including Fisher’s Exact Test and two-sample t-tests, were performed to assess associations between variables and discontinuation. The overall discontinuation rate of MC use was 57.9% at one year, with 44.7% of patients discontinuing within the first three months. Older age was significantly associated with higher discontinuation rates. Pain origin categories did not significantly differ between those who discontinued and continued MC use, although a higher proportion of patients in the discontinued group reported low back pain. No significant differences were observed in baseline GPH and GMH scores between the two groups. This study demonstrates a high discontinuation rate of MC use in patients for chronic musculoskeletal pain. The absence of significant differences in pain origin or baseline health scores suggests that factors beyond pain location or general health may contribute to the decision to discontinue MC. Further research is needed to explore the long-term effects of MC on pain management and patient outcomes.



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