Além Do Açúcar No Sangue: Ozempic Pode Reduzir o Risco de Epilepsia
- Lidi Garcia
- 12 de jan.
- 5 min de leitura

Pessoas com diabetes tipo 2 têm maior risco de desenvolver epilepsia ao longo da vida. Este grande estudo com dados de pacientes reais mostrou que um tipo específico de medicamento para diabetes, os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1, está associado a um risco menor de desenvolver epilepsia quando comparado a outro tratamento comum. O efeito protetor foi observado desde o primeiro ano de uso e se manteve ao longo do tempo. Esses resultados sugerem que alguns medicamentos para diabetes podem também proteger o cérebro, indo além do controle do açúcar no sangue.
O diabetes mellitus tipo 2 é uma doença crônica muito comum, caracterizada por níveis elevados de açúcar no sangue ao longo do tempo. Além de afetar órgãos como coração, rins e olhos, o diabetes também tem impactos importantes sobre o cérebro. Pessoas com diabetes tipo 2 apresentam maior risco de desenvolver problemas neurológicos, incluindo alterações cognitivas, demência e epilepsia.
A epilepsia é uma condição neurológica marcada pela ocorrência de crises convulsivas recorrentes, causadas por descargas elétricas anormais no cérebro. Embora seja frequentemente associada à infância, a epilepsia também pode surgir na vida adulta, especialmente em pessoas com doenças metabólicas e vasculares, como o diabetes.
Nos últimos anos, alguns medicamentos usados para tratar o diabetes tipo 2 passaram a chamar a atenção não apenas por ajudarem a controlar a glicose no sangue, mas também por possíveis efeitos benéficos no cérebro. Entre eles estão os chamados agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (Ozempic), uma classe de medicamentos que imita a ação de um hormônio natural do intestino.

Esse hormônio ajuda a regular o açúcar no sangue, reduz o apetite e melhora a resposta do organismo à insulina. Estudos em animais e em laboratório sugeriram que esses medicamentos também poderiam proteger os neurônios, reduzir inflamação cerebral e melhorar o funcionamento do sistema nervoso.
No entanto, ainda havia pouca evidência em pessoas reais, no mundo clínico, sobre se esses medicamentos poderiam reduzir o risco de doenças neurológicas, como a epilepsia.
Para investigar essa questão, os pesquisadores realizaram um grande estudo observacional utilizando um banco de dados internacional chamado TriNetX, que reúne informações de saúde de milhões de pacientes. Foram analisados dados coletados entre 2015 e 2023 de adultos com dezoito anos ou mais diagnosticados com diabetes tipo 2.
Os pesquisadores compararam dois grupos de pessoas: aquelas que iniciaram tratamento com agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (Ozempic) e aquelas que começaram a usar outra classe de medicamentos para diabetes, os inibidores da dipeptidil peptidase-4 (vildagliptina e a sitagliptina), que também atuam no metabolismo da glicose, mas por um mecanismo diferente e sem evidências claras de ação direta no cérebro.

Para garantir que a comparação fosse justa, pessoas que já tinham epilepsia, crises convulsivas prévias ou que usavam medicamentos anticonvulsivantes foram excluídas do estudo. Além disso, os pesquisadores aplicaram uma técnica estatística chamada pareamento por escore de propensão, que basicamente cria dois grupos muito semelhantes entre si em características importantes, como idade, sexo, condições de saúde associadas, peso corporal, nível socioeconômico e uso de outros medicamentos.
Dessa forma, a principal diferença entre os grupos era o tipo de medicamento para diabetes utilizado, o que aumenta a confiança de que os resultados observados estejam relacionados a essa escolha terapêutica.
Após esse pareamento, mais de 450 mil pacientes foram incluídos, com cerca de 226 mil pessoas em cada grupo. A idade média era de pouco mais de 70 anos, e quase metade dos participantes era do sexo feminino. Durante o período de acompanhamento, os pesquisadores analisaram quantas pessoas em cada grupo desenvolveram epilepsia, identificada por registros médicos padronizados.
Os resultados mostraram que a epilepsia foi ligeiramente menos frequente entre as pessoas que usaram Ozempic. Embora a diferença absoluta pareça pequena, ela foi estatisticamente significativa e consistente ao longo do tempo.
Em termos práticos, isso significa que o uso desse tipo de medicamento esteve associado a uma redução real do risco de desenvolver epilepsia quando comparado ao outro tratamento para diabetes. Essa proteção foi observada já no primeiro ano de uso e se manteve após três e cinco anos de acompanhamento.

Entre os diferentes medicamentos dessa classe, um em especial, a semaglutida, apresentou a associação mais forte com a redução do risco de epilepsia. Isso sugere que, além do efeito da classe como um todo, alguns fármacos específicos podem oferecer benefícios neurológicos ainda mais pronunciados. Importante destacar que essa associação protetora foi observada em diferentes subgrupos da população, incluindo homens e mulheres e diferentes faixas etárias, o que reforça a robustez dos achados.
Os pesquisadores também realizaram análises adicionais para garantir que os resultados não fossem explicados por fatores externos, como pessoas que trocaram de medicamento ou usaram mais de um tipo ao longo do tempo. Mesmo após essas análises mais rigorosas, os resultados permaneceram praticamente os mesmos, aumentando a confiança de que a associação observada é consistente.

Na discussão, os autores destacam que esses achados reforçam a hipótese de que os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 podem oferecer benefícios ao cérebro que vão além do controle do açúcar no sangue.
Possíveis mecanismos incluem redução da inflamação cerebral, melhora do metabolismo energético dos neurônios, proteção contra danos vasculares e modulação da atividade elétrica cerebral.
No entanto, como se trata de um estudo observacional, não é possível afirmar com certeza que esses medicamentos causam diretamente a redução do risco de epilepsia. Ainda assim, os resultados são altamente sugestivos e apontam para um potencial efeito neuroprotetor clinicamente relevante.
LEIA MAIS:
Association Between GLP-1 Receptor Agonist Use and Epilepsy Risk in Type 2 Diabetes
Ching-Yang Cheng, Shih-Chang Lo, Chien-Ning Huang, Yi-Sun Yang, Yu-Hsun Wang, and Edy Kornelius
Neurology. January 13, 2026 issue 106 (1) e214509DOI: 10.1212/WNL.0000000000214509
Abstract:
Individuals with type 2 diabetes mellitus (T2DM) are at an increased risk of developing epilepsy, particularly in later life. While preclinical studies suggest neuroprotective properties of glucagon-like peptide-1 receptor agonists (GLP-1 RAs), real-world comparative effectiveness data remain limited. We aimed to evaluate whether GLP-1 RA use is associated with a lower risk of incident epilepsy compared with dipeptidyl peptidase-4 inhibitor (DPP-4i) use in adults with T2DM. We conducted a retrospective cohort study using the TriNetX network from 2015 to 2023, including adults aged 18 years or older with T2DM who were new users of either GLP-1 RAs or DPP-4is. Patients with a previous diagnosis of epilepsy or seizure, or those using antiepileptic drugs, were excluded. The primary outcome was incident epilepsy, identified using ICD-10-CM codes. Propensity score matching (1:1) was performed based on demographics, socioeconomic status, body mass index, comorbidities, and baseline medications. Cox proportional hazard models estimated hazard ratios (HRs) with 95% CIs. We also conducted prespecified subgroup and sensitivity analyses to assess the robustness of the findings. After matching, 452,766 patients were included (226,383 in each group; mean age 60.5 years; 47.1% female). During follow-up, 1,670 individuals in the GLP-1 RA group and 1,886 in the DPP-4i group developed epilepsy, corresponding to cumulative incidences of 2.35% vs 2.41%. GLP-1 RA use was associated with a significantly lower risk of epilepsy (HR 0.84, 95% CI 0.78–0.90), with protective associations evident at 1 year (HR 0.71, 95% CI 0.62–0.80), 3 years (HR 0.81, 95% CI 0.74–0.88), and 5 years (HR 0.82, 95% CI 0.76–0.88). Among individual agents, semaglutide showed the strongest association (HR 0.68, 95% CI 0.60–0.77). The results were consistent across major subgroups, including both age and sex. Sensitivity analyses excluding patients with overlapping or switching exposure yielded similar findings (HR 0.71, 95% CI 0.64–0.78). GLP-1 RA therapy was associated with a significantly lower epilepsy risk compared with DPP-4i use in adults with T2DM. These results support the hypothesis that GLP-1 RAs may exert neurologic benefits beyond glycemic control. Limitations include the observational design and potential residual confounding. This study provides Class III evidence that the use of GLP-1 RAs in people with T2DM results in a lower risk of developing epilepsy compared with those treated with DPP-4i.



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